quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O que já fomos e ao que estamos reduzidos

Acabei agora mesmo de ler uma longa peça jornalística, sobre algo que considero absolutamente extraordinário -A Vendée globe. Um vez que grande parte dos meus leitores infelizmente não conseguirá ler o texto em causa, explico.
A Vendée globe é uma competição desportiva, uma regata à volta do Mundo. Sem escala, sem assistência, em barcos à vela, com um só tripulante em cada barco, que dura à volta de três meses. Tem lugar de dois em dois anos, alternando com a Route do rhum e alguns concorrentes já vão na sua terceira participação. Que paixão!

Sebastien Josse (FRA), skipper Edmond de Rothschild, training solo for the Vendée Globe, off Groix, on April 7th, 2016 - Photo Yvan Zedda / Gitana SA / Vendée GlobeSebastien Josse (FRA), skipper Edmond de Rothschild, lors d'un entrainement solo pour le


Filho de uma terra que esteve na origem dos gloriosos Descobrimentos portugueses, apesar de situada longe do mar, fiquei triste e preocupado com dois aspectos. Desde logo, a abissal diferença comportamental entre os jornais franceses e os portugueses. Enquanto o Le Monde me possibilita a leitura de quase tudo o que publica, apesar de eu não ser assinante, limitando-se a mencionar, só para alguns trabalhos e após 5 ou 6 parágrafos, que a continuação do artigo está protegida, com os periódicos portugueses é uma miséria. Com a notável excepção do Expresso, que segue a linha Le Monde, os outros querem à viva força que se faça uma assinatura, mesmo sem antes se poder aferir se vale ou não a pena, uma vez que a edição papel difere sempre da sua irmã on line. O Público então tornou-se de tal forma irritante que deixei mesmo de o consultar. E não tenciono voltar a comprá-lo na edição papel.
Publicam, no ângulo inferior direito do ecrã, sem que alguém tenha pedido, notícias sintéticas. Depois, quando se pretende aprofundar, aparece logo, a toda a largura da tela, a oferta de assinatura, que impede a leitura da notícia em causa. Parece ser a nova forma de prostituição jornalística. Insinuam-se e depois anunciam o preço. Ao que chegou o (mau) jornalismo em Portugal!
O outro aspecto é  bem mais grave, por aquilo que denuncia. Falo da antes citada regata. País de navegadores, já nem sequer organizamos regatas à volta das Berlengas, quanto mais agora à volta do Mundo em solitário. O que explica finalmente, entre outras coisas,  que já há cinco séculos o português Fernão da Magalhães tenha feito a sua volta ao Mundo ao serviço dos reis de Espanha. Tal como Colombo...
Mas conseguimos ganhar o campeonato da Europa, vencendo os franceses. Pois conseguimos. E foi bonito. Uma grande proeza de noventa minutos. Todavia, o resto, o que veio depois, é muito mais preocupante que motivo de orgulho. Como por exemplo a importância exagerada que os portugueses em geral concedem ao futebol, em detrimento da economia, da sociedade, da cultura.
Ainda assim, continuamos a ser um país de navegadores, não é verdade? As águas  é que são outras. Infelizmente nem sempre muito limpas. É a vida!, dizia em tempos o agora prestigiado Guterres, decerto conhecedor do verso camoniano: Mudam-se os tempos/Mudam-se as vontades/Todo o mundo é feito de mudança/Tomando sempre novas qualidades...
Sou um infeliz. Ultimamente não tenho conseguido ver qualidades nenhumas. Defeito meu, sem dúvida. O leitor conhece algum oftalmologista competente, que me possa indicar?

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