domingo, 12 de março de 2023

Cultura nas redes sociais

Encadeamentos...

A Aurélia é, sempre foi, uma natureza. Irradia inteligência, mas também inquietação e impetuosidade. Parece concordar agora, confrontando as manifs  francesas com o que em Portugal se vai fazendo, que em geral somos mansos, conformados  e submissos. Mesmo ficando-se pelo "mansos", uma Madeira como ela parece ter discordado intimamente, no Facebook. Ninguém gosta em Portugal de ficar mal na fotografia, mesmo quando não há como ficar bem.
Vai daí, arranjou a dissidente uma derivação.  Um desvio susceptível de lhe permitir ficar bem perante os outros e a sua própria consciência. Afirmou que,  apesar de mansos, quando comparados com os franceses, estes não conseguiram levar a melhor no século XIX.
Apropriação indevida, pois não foram os portugueses que ganharam a guerra. Foram sim os ingleses, que levaram a corte para o Brasil e depois, sob o comando de Beresford, mais tarde Duque de Wellington, acabaram por derrotar os franceses comandados por Massena, "l'enfant chéri de la victoire".
Evocação sem dúvida indevida para os tomarenses, que durante as invasões francesas nem sequer resistiram. Calharam-nos as tropas do general Loison, "o maneta", cruel e pouco culto porque "vindo de baixo e promovido sob fogo". Segundo Vasco Pulido Valente,  historiador especialista da época, só sabia uma frase em português: "fusillez já!" Daí resultou uma curiosa expressão, muito usada ainda no século passado. Uma vez que, sendo levados pelas tropas do Maneta, eram todos mortos a tiro, criou-se o hábito de dizer que "foi para o Maneta" quando alguém morria, mesmo de morte não violenta.
Foi nesse clima de execuções sumárias sem julgamento, com as tropas francesas instaladas no Convento (onde queimaram o cadeiral do Coro e quadros da Charola) e em S. Francisco, que os tomarenses aceitaram render-se, sem antes combater, representados por uma senhora de origem italiana, chamada Ângela Tamagnini. As armas foram recolhidas e ainda hoje os canos de algumas delas servem de grade na varanda das traseiras da Nabantina. Onde funciona o restaurante.
Nestas condições, vir escrever em Tomar que "mesmo assim os franceses não levaram a melhor" é uma singular e infeliz visão da história local, para não dizer mais. Os tempos vão cada vez pior para a cultura nabantina.


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