quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Em busca de uma base clientelar

"A actual maioria parlamentar tem esta particularidade: é composta por forças políticas que estão em queda em toda a Europa. Basta pensar no fracasso de François Hollande em França ou do Syriza na Grécia, ou na irrelevância do PSOE e do Podemos em Espanha ou de Jeremy Corbyn no Reino Unido. 
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Em Portugal, radicais e radicalizados estão no poder. Mas não estão nas condições que muitos imaginaram, quando era costume prever que Costa, o PCP e o BE aproveitariam o ajustamento para uma grande expansão eleitoral. Em vez disso, Costa sofreu uma derrota humilhante, enquanto o PCP e o BE ficaram pelos níveis de 2009. Foi o fracasso que os uniu. Os acordos serviram-lhes para escalarem o poder através de uma manobra parlamentar, mas não para readquirirem uma confiança perdida de vez. Queriam acabar com a austeridade, rever a relação com a Europa. Mas o que fazem, de facto, é outra coisa: aproveitar a assistência financeira do BCE para distribuir rendas por grupos de dependentes do Estado, com os quais esperam cerzir uma “base social de apoio”. Assim se está a transformar o Estado social num Estado clientelar, isto é, num Estado onde os serviços públicos são menos importantes do que o emprego público."
Estes dois excertos da crónica de Rui Ramos Porque é que não pode haver oposição?, no Observador, parecem-me fulcrais para tentar entender o que está a acontecer em Tomar, no que concerne à autarquia.


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Foto DN

Num recente e corajoso trabalho, que por excessiva modéstia alcunhou de Opinião, José Gaio foi directo ao osso e praticou excelente jornalismo. Não aquele estilo agência noticiosa que apenas responde às clássicas perguntas implícitas O quê? Quando? Onde? Antes o grande jornalismo. O do Le Monde, do El Pais ou do Washington post, que vai muito mais longe, que explica e justifica: O quê?, Quando?, Onde?, mas também e sobretudo Quem? Como? Porquê? Para quê?
Na circunstância, como se pode confirmar aqui, o jornalista de Tomar na rede limitou-se a noticiar que a senhora presidente da Câmara (Quem?) de Tomar (Onde?), se tornou arrogante (O quê?) no exercício do poder (Como?), de tal forma que tem tido atitudes pouco consensuais (Porquê?), dando a impressão que o poder lhe subiu à cabeça, naturalmente para se considerar acima da plebe local (Para quê?). Nada de opinativo, como se constata. Apenas factos demonstrados.
Pois foi quanto bastou para que dois comentadores de circunstância, confortavelmente protegidos pelo anonimato, como infelizmente é habitual, viessem defender a presidente-vítima do carrasco jornalista. Ambos tiveram frases caricatas, que não resisto a reproduzir parcelarmente, porque bem mostram o seu nível:
"Arrogância é que esta presidente não tem... em Outubro será uma Vitória avassaladora", sentenciou o primeiro. "Não dou a cara porque não mereço ser enxovalhado por esta gentinha que aqui bota palavra, mas que só vêm [sic] os seus interesses, que para alguns nem isso chega a ser.
...Contudo, continuo a votar nela, assim como muitos milhares de Tomarenses que lhe vão dar a vitória", exarou o outro. Ou terá sido o mesmo, pois para isso lhe pagam?
Ou seja, também em Tomar, a coligação PS/CDU vai procurando e conseguindo uma base clientelar. As sucessivas pontes, as 35 horas, as tolerâncias de ponto, o asfalto à porta, as transferências para as juntas, a evidente compreensão em relação a vícios antigos e bem conhecidos, aí estão para o provar.
Subsiste contudo um problema de todo o tamanho. Lambe-botas, parece já haver com fartura, como sempre. Votos "comprados", a tal clientela, também. Falta porém o essencial: Quem dê  a cara, assumindo-se. Mostrando-se, ou no mínimo assinando por baixo. Não tendo vergonha do que estão fazendo. Sem o que, em Outubro próximo, logo veremos quem irá fazer campanha e o resto. Porque também é verdade que os americanos, que já antes tinham apoiado Busch, agora escolheram Trump...  Tudo é possível, portanto.
Em 1976, durante uma viagem entre Évora e Lisboa, quando respondendo a uma pergunta sua, lhe disse que ia votar PS, um amigo alentejano foi pronto na resposta: "Ele até há quem goste de pão com ranho, compadri!" 
Quem imaginaria então que, 40 anos mais tarde, eu acabaria por concordar com ele?!

anfrarebelo@gmail.com

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