domingo, 9 de janeiro de 2022

 


Sociedade - atitudes 

Do presente para o passado

É uma característica de quem tem já oito décadas de vida. Olhando para trás, a memória alcança longe. Foi o que me aconteceu hoje. Tal como escreveu algures Eduardo Lourenço, "eu [já] não sei fazer mais nada senão pensar."
Saído de casa a pé, como habitualmente por volta das cinco da tarde, já em pleno calçadão da beira-mar a companheira disse-me para esperar um bocadinho. Ia comprar umas máscaras na feirinha dos ambulantes, uma coisita com mais de 700 barracas.
Ao lado de uma das vias pedestres do amplo calçadão, os bancos estão previstos mas ainda não foram colocados. Há porém uns pequenos contentores de lixo, em cimento, de formato esférico, cujo rebordo serve perfeitamente par descansar um pouco.
Estive ali sentado menos de um quarto de hora. O suficiente para duas senhoras, uma após a outra, se terem mostrado preocupadas comigo: -Sente-se bem? Precisa de ajuda? Quer água fresca? Agradeci e dei comigo a cogitar. Realmente este país não é europeu, tem muitos índios e negros, as boas maneiras são em geral raras, mas preocupam-se com os mais velhos. Têm prioridade assegurada por lei em todo o lado, da fila do supermercado à fila para a vacina. E as pessoas respeitam.
Em Tomar, no outro hemisfério, na Europa 1º mundo, a mais de sete mil quilómetros, creio que também há uma lei a garantir a prioridade aos meus velhos, mas poucos são os que a respeitam. E são nitidamente menos os índios e os negros. Temos é os ciganos. E foi em Tomar, o meu berço, terra de gente regra geral solidária, amiga e com boas maneiras, que aqui há uns anos me senti mais desamparado do que nunca.
Foi ao cimo da calçada dos cavaleiros, que vai do Pelourinho para o Convento. Olhando para a paisagem, tropecei ao cimo dos degraus e estendi-me ao comprido, no asfalto da Estrada do Convento, com a máquina fotográfica um pouco mais adiante.
Passaram três carros. Nenhum dos condutores julgou necessário parar e perguntar se precisava de algo. Desviaram-se e continuaram. Levantei-me, com ferimentos ligeiros em ambas as mãos, e coxeando um pouco consegui regressar a casa, onde lavei e desinfectei as feridas. Sempre com a ideia de que aqueles três condutores eram turistas. De certeza. Os tomarenses, meus conterrâneos, seriam lá capazes de semelhante atitude?! Mas os turistas também são em geral gente solidária...
Meses mais tarde, pedi a uma chefe de divisão do turismo de Tomar, cuja naturalidade desconheço, se podia subir ao primeiro andar do edifício, para poder ver a saída dos tabuleiros da mata. Como sempre aconteceu nas décadas anteriores. Mesmo quando a senhora ainda era criança. A resposta foi ríspida e inesperada: "Não, porque depois outras pessoas também querem e não pode ser."
Retirei-me sem mais uma palavra e queixei-me por escrito à srª presidente da Câmara (posso mostrar cópia do mail), que nunca julgou útil responder-me.  Estamos portanto perante um caso de gente deslumbrada pela ascensão ao poder e pela igualdade de direitos alcançada pelas mulheres, esquecendo-se que também há deveres. Exactamente como ocorre com os ciganos. Também julgam que é só direitos.
Em conclusão, os meus queridos conterrâneos são em geral boa gente. Solidários e respeitadores dos direitos alheios. Mas quando se não é do mesmo clube, ou se ousa criticar a equipa, é o cabo dos trabalhos.  Sobre os eleitos então, é melhor nem falar, continuando a passear no amplo calçadão da beira-mar. Até o clima é bem melhor.
A utilidade desta crónica triste? Tentar uma vez mais mostrar aos tomarenses, em que estão realmente a votar, quando ainda votam.

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