segunda-feira, 1 de abril de 2024


Política local

Proximidade de sentido único

TOMAR – PSD critica «distanciamento» entre a Câmara e os cidadãos. Hugo Cristóvão rebate repatos (c/vídeo) | Rádio Hertz (radiohertz.pt)

Alguém escreveu em tempos, no século anterior, que "somos milhões de portugueses, separados pela mesma língua". O genial Fernando Pessoa terá pensado numa situação semelhante, quando nos anos 30 do século passado disse algo como "se for preciso, eu traduzo para estrangeiro, para vossas excelências perceberem melhor."
Como bem previu Camões, com séculos de antecedência, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ todo o mundo é feito de mudança/ tomando sempre novas qualidades", mas a triste verdade é que a situação se mantém. Estamos cada vez mais numa situação de incomunicabilidade. sobretudo na área política. Pouco falamos uns com os outros a esse respeito, e por isso raramente nos entendemos. Mas quando falamos (em português, claro) ou escrevemos, a situação tende a piorar. Então é que não nos entendemos mesmo. Seja por incapacidade de ambas as partes, seja por vontade de algum dos intervenientes.
O presidente do PSD local, e vereador do executivo municipal,  deu-se conta disso mesmo e resolveu lastimar-se junto do edil mor. Assinalou uma situação há muito evidente para aqueles cidadãos que (ainda) têm o hábito de ler, observar e reflectir. 
É cada vez maior o fosso entre os eleitos da maioria e alguns outros, por um lado, e a população em geral, por outro. O que não é de estranhar. Os políticos de tendência marxista sempre consideraram que estão no bom caminho, porque a história aponta numa determinada direcção, que só eles marxistas seguem. Não adianta que a realidade observável por todos demonstre que estão enganados, porque insistem e voltam a insistir.
Desde 2013, há portanto 11 anos, que apesar de erros, desastres, lacunas e outros percalços, o mote operatório do PS local é "No rumo certo". O que tem pelo menos duas grandes vantagens. Evita mudanças e não consente discussão.
Agora que o social-democrata Tiago Carrão, se calhar dando-se conta de que tem sido demasiado macio com os seus pares da governação local, resolveu interpelar o presidente em exercício, chamando a sua atenção para o "distanciamento" entre eleitos e eleitores, a resposta de Cristóvão foi pronta e julga ele incisiva: Não é verdade, pois as reuniões da edilidade até são transmitidas em directo. Que maravilha!
56 anos após Herbert Marcuse e o seu Homem unidimensional, um sucesso monstro na época, temos agora, pelo menos em Tomar e de acordo com o presidente Cristóvão, a proximidade unidireccional. Os eleitores podem estar em cima dos acontecimentos municipais por via electrónica. Só não podem nem devem "abrir o bico". É a comunicação em sentido único, tão do agrado de ditadores e respectivos aprendizes.
Neste diferendo político Carrão-Cristóvão há dois aspectos positivos. Chamou a atenção para o problema e mostrou claramente a situação. Eleitos PS e eleitos PSD são todos boa gente, mas não se entendem, pois falam a mesma língua, sem todavia usarem a mesma grelha de interpretação. Quando um fala de falta de diálogo, o outro avança com a eficácia da comunicação electrónica e, implicitamente, com as vantagens de uma população calada, submissa, atenta e seguidista. A cidade e o concelho que se lixem. Como bem dizem os irmãos brasileiros, "esta vida são dois dias e o carnaval são três." O último a emigrar que apague a luz e feche a porta.


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