segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Candidatos já com chumbo na asa

Tal como na natureza, também na política nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. O agora vereador Pedro Marques é, desde há muitos anos, amigo íntimo de Luís Boavida, indigitado cabeça de lista do PSD para as próximas autárquicas e técnico superior na autarquia.  Foi ele que, quando presidente da autarquia, o chamou e nomeou chefe da divisão financeira do município. É por isso de uma importância nitidamente fora do comum a decisão que o líder dos IpT acaba de tomar.
Usualmente discreto e consensual, ainda que quase sempre voltado para os seus passados tempos de glória, o que se compreende, sendo a saudade um sentimento muito difundido junto ao Nabão, o ex-presidente sugeriu, na mais recente reunião do executivo camarário, que se proceda a uma auditoria rigorosa aos serviços financeiros e, se necessário, também aos de urbanismo da autarquia. Disse mais, que a auditoria efectuada durante o mandato de Corvêlo de Sousa foi apenas para inglês ver, acrescentando uma frase geralmente pesada como chumbo -quem não deve não teme. Maneira de dizer que quem não prevaricou nada tem a recear.

Imagem relacionada

A proposta de Pedro Marques é de indesmentível pertinência, porque se refere a um caso insólito e ruinoso para os cofres municipais. Segundo declarações relativamente recentes de Anabela Freitas, o município, a cujo executivo preside, foi notificado para proceder à devolução de 700 mil euros, que pagou por obras afinal não executadas, na edificação da Escola EB 2/3 D. Nuno Álvares Pereira. O que significa que uma autarquia, muitíssimo bem dotada em funcionários superiores - todos competentíssimos e honestíssimos, segundo os próprios- pagou esse avultado montante, sem antes ter obtido a garantia de que os alegados trabalhos haviam sido feitos. Ou seja, nem a divisão financeira procurou obter documentos probatórios, para além das por vezes enganadoras facturas, nem a divisão de urbanismo se deu ao trabalho de verificar, numa visita às obras, com os projectos e as facturas na mão, se dava a bota com a perdigota. Estranho, muito estranho mesmo. Não terá sido decerto por falta de recursos humanos.
Ainda mais estranho, ao informar o executivo sobre a estrambólica ocorrência, a senhora presidente esclareceu que a câmara não tinha nos seus serviços o processo das obras em causa. Escusou-se contudo a indicar os motivos, se calhar porque se tratou apenas de colocar o processo ao abrigo da humidade reinante nos Paços do Concelho. Como acontece com o processo ParqT, há anos "em segredo de justiça", no Tribunal administrativo e fiscal de Lisboa.
Homem com muita experiência política e excelente conhecedor dos meandros autárquicos, a cujo executivo presidiu durante dois mandatos, é altamente improvável que Pedro Marques tenha agido de ânimo leve, sem prévia e longa ponderação, ao propor a referida auditoria. Por conseguinte, saberá decerto bem mais do que aquilo que disse.
Temos assim que, mediante uma simples intervenção muito pertinente, o líder dos IpT colocou o seu íntimo amigo Luís Boavida numa situação insustentável. Dado que era ele o responsável financeiro da autarquia aquando dos pagamentos em causa, agora ou há auditoria rigorosa e ele é ilibado, ou a sua candidatura corre sérios riscos de naufrágio nas urnas. Porque ninguém gosta de corruptos, a não ser os pròpriamente ditos e os respectivos corruptores.
Também a posição de Anabela Freitas não é doravante das mais confortáveis. Nem como presidente, nem como candidata. Ou aceita oficializar a solicitada auditoria, e sabe Deus o que dela virá, ou nada faz e passará por cúmplice de actos condenáveis anteriores ao seu mandato. Porque uma coisa é certa. Se houve pagamento por obras não realizadas, alguém autorizou a emissão dessa ordem e alguém recebeu. Quem? Porquê? Para quê?
Na nova realidade informatizada em que vivemos, nada mais fácil do que seguir o rasto do dinheiro. O resto virá por acréscimo. Haja coragem portanto, que a cidade bem precisa!

Transportes por TUTa e meia... à custa dos outros - 3

Consta que, nos anos 20/30 do século passado, cansado de não ser entendido, Fernando Pessoa terá exclamado "Eu traduzo para estrangeiro, para vossas excelências perceberem melhor". Partindo do princípio que tenha mesmo acontecido, resolvi fazer o oposto: traduzir do estrangeiro, para os leitores me perceberem melhor, naquela questão dos TUT: (A tradução está logo a seguir à fotografia.)

LES CITADINS DE PLUS EN PLUS NOMBREUX À ARPENTER LES VILLES À PIED

On les repère moins que les « runners », ces coureurs branchés aux tenues criardes. Eux sont discrets, mais nombreux : les marcheurs des villes. De la simple balade après le déjeuner du dimanche à la marche nordique dans les parcs, en passant par les déplacements utilitaires pour aller travailler, les urbains usent de plus en plus leurs souliers.
En Ile-de-France, la marche est le mode de transport le plus utilisé. Ainsi 39 % des déplacements quotidiens y sont effectués à pied, ce qui en fait l’agglomération « la plus marchée de France », selon une recherche menée par l’Institut d’aménagement et d’urbanisme (IAU) en 2016. A Paris, le pourcentage atteint même 52 %.
De par leur densité de commerces et de services de proximité et grâce à un réseau de transports en commun efficace, les grandes métropoles favorisent la marche. Et les urbains sont aussi les premiers à partir sillonner, kilomètre après kilomètre, les sentiers de randonnée pendant leurs vacances.
Un objectif politique
A la suite de Genève (Suisse) et de son « plan piétons » pionnier mis en place dès 1995, de nombreuses métropoles ont mis l’accent sur ce mode de déplacement doux et écologique. Londres, Vienne et New York essaient depuis quelques années de développer leur attractivité piétonne.
En France, après Strasbourg en 2012, le Conseil de Paris a voté à l’unanimité, le 30 janvier, la « stratégie piéton » proposée par la maire (Partis socialiste, PS) Anne Hidalgo. Espaces végétalisés, trottoirs élargis, terre-pleins centraux des boulevards réaménagés et agrémentés de parcours...

Catherine Rollot, Le Monde online, 03/02/2017, 14H12


Pietons sur le parvis de La Défense.
Caminhantes na Praça de la Défense - Paris, JULIE GUICHE/PICTURE TANK

OS CITADINOS CAMINHANTES CADA VEZ MAIS NUMEROSOS

"Chamam menos a atenção que os "runners", esses corredores sempre na última moda, envergando equipamentos berrantes. São mais discretos e muito mais numerosos, os caminhantes urbanos. Do simples passeio após o almoço de domingo, até à marcha nórdica nos parques florestais, passando pelas deslocações utilitárias para ir trabalhar e para regressar a casa, os urbanos usam cada vez mais os respectivos sapatos como meio de transporte.
Na Região de Paris - Ile de France  a marcha é mesmo o meio de transporte urbano mais utilizado. 39% de todas as deslocações diárias são feitas a pé, o que a torna a aglomeração urbana mais pedestre de França, segundo um estudo do Institut d'Aménagement et Urbanisme (IAU), divulgado em 2016. Na cidade de Paris, a percentagem de caminhantes habituais atinge os 52%.
Graças à sua densidade de comércios e de serviços de proximidade, bem como a uma rede eficaz de transportes em comum, as grandes metrópoles favorecem as deslocações a pé. E os urbanos são também os primeiros a praticar, quilómetro após quilómetro, a caminhada por percursos devidamente sinalizados, durante as férias.

Um objectivo político

Após  Genebra, na Suiça, e o seu pioneiro "plano para peões", implementado a partir de 1995, muitas outras metrópoles decidiram privilegiar a marcha, afinal um modo de se deslocar económico e amigo do ambiente. Londres, Viena e Nova Iorque vêm tentando desde há anos desenvolver a sua atractividade para pedestres.
Em França, após Estrasburgo em 2012, o Conselho de Paris (Assembleia composta pelos presidentes de câmara dos 20 bairros + a presidente da câmara de Paris) votou por unanimidade, em 30 de Janeiro passado, a "estratégia pedonal", proposta pela presidente Anne Hidalgo (Partido Socialista Francês). Mais espaços verdes, alargamento dos passeios, arranjo paisagístico das placas centrais dos boulevards, sinalização de percursos pedestres..."

Tradução e adaptação de António Rebelo

O texto informativo é mais extenso. Julgo porém que não adianta bater mais na cèguinha. Apenas peço licença para um pequeno comentário final.
Enquanto por essa Europa fora, e mesmo nos USA, é o que se constata, numa pequena e pobre terra, outrora gloriosa, mas agora a caminhar cada vez mais depressa para a ruína, grupos de chupistas, de oportunistas e de ignorantes continuam a insistir em transportes urbanos, pagos sobretudo por quem não os usa, desnecessários, ruinosos e poluentes.
Pobre terra! Pobre gente!
Realmente, os piores cegos são mesmo os que não querem ver.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Acreditar em Tomar?

Foto copiada de Tomar na rede, a quem se agradece.

Andava eu a cismar na mensagem acima reproduzida, quando li o mais recente comentário de Vasco Pulido Valente, no Observador online de hoje, o qual conclui assim: "E a generalidade dos portugueses, se não gosta do PC, do BE ou de Costa, está perdida e desanimada, sem saber que contas deitar à vida." Substitua-se portugueses por tomarenses e Costa por Anabela Freitas, e teremos a actual situação local, sem tirar nem pôr.
Porque convenhamos que Acreditar em Tomar pode ser para alguns lindo, profundo e até rimar, mas carece de conteúdo. É algo que parece oco. E em política, aquilo que parece é.
Desde logo porque ninguém acredita numa terra, a não ser por alargamento implícito do campo semântico, operação que não está ao alcance de qualquer um.. Acredita-se ou não na população de um lugar, nunca nesse lugar enquanto tal. Além disso, se bem interpreto aquilo que tenho lido sobre publicidade e propaganda política, este modelo de redacção não será o mais adequado, nem coisa parecida. Isto porque se serve de um imperativo indefinido, o que impede uma percepção clara dos destinatários potenciais, revelando também alguma vergonha não assumida, ou pudor mal disfarçado.
Segundo os bons manuais, a mesma mensagem teria um alcance e uma profundidade bem maiores se, em vez do infinito ACREDITAR, tivessem usado os imperativos Acreditai, Acreditem, ou o indicativo Acreditamos. Como está, até parece que ainda agora estão a começar e já se estão a esconder, cheios de dúvidas, uma vez que não assumem a mensagem.
A agravar a situação, há um choque evidente entre o texto escolhido e a realidade vivida. Como Acreditar em Tomar se o próprio PSD não acredita nos seus militantes locais? Se acreditasse, não teria imposto uma sondagem para escolher o cabeça de lista, seguida da indispensável autorização lisboeta, antes da respectiva divulgação pública. Os tomarenses não aceitam tutores, nem são uma espécie de colónia da capital, vigiada por capatazes ribatejanos.
Apesar disso, uma vez que acontece o mesmo nos outros partidos, a candidatura social-democrata tomarense tem todas as condições para vencer. No meu entender é ou era mesmo a favorita, conforme já aqui escrevi. É por isso lamentável que este primeiro acto público de promoção da pré-campanha não seja dos mais felizes. Um tiro no pé, em vez de uma salva de foguetes.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Transportes por TUTa e meia... à custa dos outros - 2

Consta do escrito anterior que, apesar de haver tarifas para todos os gostos e necessidades, os TUT têm vindo a perder clientes. Que as receitas da venda de bilhetes e passes não chegam a cobrir metade dos custos de exploração. Que algo não bate certo na política tomarense, quando é uma eleita pelo PSD, partido usualmente defensor da iniciativa privada, a exigir a manutenção de uma empresa camarária ruinosa, posição geralmente assumida pela CDU.
Além do exposto, é indispensável acrescentar que, só em 2016, os TUT tiveram um resultado global negativo de  137 mil euros, segundo os dados fornecidos pela autarquia. Se acrescentarmos os prejuízos de anos anteriores,que já totalizam mais de 600 mil euros, obtemos um total negativo de 737 mil euros, sem quaisquer perspectivas favoráveis no contexto actual. Continuar com a exploração dos TUT é portanto igual a andar a semear euros pelas ruas. Beneficia uma ínfima minoria.  Prejudica sobremaneira todos os que pagam impostos e contribuições regularmente, sem todavia usarem os transportes municipais urbanos.
É claro que grande parte dos utilizadores dos TUT, excluídos os estudantes, são cidadãos que merecem respeito e têm iguais direitos, mas que deverão mudar de mentalidade logo que possível. Porque vai ser cada vez mais difícil viver à custa dos outros, directa ou indirectamente. Além de ser uma atitude imoral, quando os beneficiários de subsídios, abonos, ajudas, descontos, reduções, etc., que em geral são sempre os mesmos, afinal nem sequer pagam impostos. A sociedade ajuda-os sistematicamente. E eles, que ajuda já deram ou dão à sociedade em que vivem?
Mesmo tendo em conta a doutrina católica, indicando que se deve dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestir os nus, e por aí adiante, não me consta que se inclua em tais preceitos doutrinais fornecer transporte a quem possa caminhar. Por conseguinte...
Acresce ao já escrito que a actual frota dos TUT está praticamente em fim de vida. Só em manutenção, custou aos cofres camarários quase 20 mil euros em 2016. Com destaque para Agosto (7 mil euros) e Dezembro (6.500 euros). Torna-se portanto inevitável, a curto-médio prazo adquirir novos veículos. Tendo em conta as novas normas e tendências, a futura frota não deverá ser a diesel, mas antes a gás natural ou mesmo eléctrica. O que significa um investimento da ordem dos 600 mil euros para 5 novos veículos. No mínimo.
Compreende-se por isso a recente iniciativa da senhora presidente. Só não vê quem tem interesse em fingir que é cego: A autarquia não tem meios para continuar a sustentar tudo aquilo em que se meteu até agora, por razões eleitoralistas (Festa dos Tabuleiros, TUT, vencimentos, 35 horas, transferências para as freguesias, subsídios para as múltiplas associações...)
Assim sendo, uma de duas: Ou há coragem para acabar com sorvedoiros de verbas, assim reduzindo as despesas e criando condições para baixar os impostos locais, item indispensável para atrair investidores; ou manter tudo como está, na esperança vã de que a situação venha a melhorar por milagre, coisa que já nem em Fátima ocorre, pelo menos com a frequência de antanho.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Transportes por TUTa e meia...à custa dos outros

Há pouco mais de uma semana, apoiei nestas páginas a ideia da senhora presidente da câmara, no sentido de encontrar uma solução menos voraz em termos orçamentais para os TUT. Ao mesmo tempo, dado que já calço sapatos há mais de sete décadas, solicitei à citada senhora autarca informação detalhada sobre o tema, ao abrigo do direito à informação. Tenho agora o prazer de informar que passados nove dias (o prazo legal é de 10) acabo de receber todos os elementos solicitados. O que  agradeço.
Esses documentos vêm confirmar e até ultrapassar aquilo que eu pensava nessa matéria. Assim, repare-se nesta autêntica salada de tarifas, com temperos para praticamente todos os gostos:

"Na sequência do e-mail infra encarrega-me a senhora presidente de enviar em anexo a informação solicitada  e de transmitir que o tarifário é o seguinte:

Bilhete de tarifa de motorista (válido por uma hora) – 1,00€;
Pré-comprados (10 viagens) – 6,50€;
Passe Normal – 18,50€;
Passe Estudante / Mobilidade condicionada – 11,00€;
Passe do Idoso (válido apenas para utentes portadores do cartão Municipal do Idoso) – 11,00€;
Passe 4_18@escola.tp (escalão A) – 7,40€;
Passe 4_18@escola.tp (escalão B) – 13,88€;
Bilhete de 1 dia – 2,80€;
Bilhete de 3 dias – 5,50€;
Bilhete de 5 dias – 9,50€."

Gosto particularmente do saboroso "Passe do idoso (válido apenas para utentes portadores do cartão municipal do idoso) - 11,00€." Por dois motivos principais. Primeiro, porque assim fiquei a saber que quem não tenha o cartão municipal do idoso -uma espécie de coleira autárquica- na prática não é idoso. Uma maravilha! Depois, porque estamos perante uma manifesta ilegalidade,  dado que a lei geral do país impede qualquer discriminação em função da idade, da residência, da cor da pele, do rendimento, etc. Resta portanto perguntar: Qual a utilidade prática do cartão municipal do idoso?

Com semelhante série de benesses, seria de esperar uma grande afluência de passageiros, a aumentar de ano para ano, com a consequente melhoria das receitas. Pura ilusão:
Conforme se constata, apesar das esmolas de toda ordem, o total de utentes tem vindo a diminuir de forma acentuada, atingindo um decréscimo de 11.031 em dois anos. Por conseguinte, por este caminho, se nada for feito entretanto, lá chegará o tempo em que os TUT servirão apenas para ornamentar as estradas citadinas e pouco mais.
O que até nem seria demasiado criticável, não fora o facto de os utentes-pagantes directos cobrirem menos de metade das despesas de exploração, mais exactamente 40,45%. Ou seja, por cada cem euros de custos de exploração, os contribuintes tomarenses, via orçamento municipal, são forçados a participar com 59,55€. Mesmo os que nunca experimentaram os confortáveis assentos dos mini-autocarros Mercedes dos TUT. O que mostra a viabilidade daquilo que aqui anunciei em tempos: Acabar com os TUT e oferecer cadeiras de rodas eléctricas aos que delas necessitem realmente, recomendando aos outros a marcha a pé, que faz muito bem à saúde. Será mais justo e ficará muito mais barato a todos. Tanto mais que os citados 40,45% são apenas a média de 2016. Detalhando um pouco mais a desgraça, verifica-se que a participação dos clientes nos custos do transporte foi de apenas 32,20% em Agosto e de -pasme-se!- 28,05% em Dezembro. O que prenuncia dias ainda mais negros.
Que face a uma situação destas, apenas comparável à de alguns pequenos municípios alentejanos, geridos desde há muito pela CDU, seja uma vereadora do PSD -partido que defende a iniciativa privada- a criticar a presidente da câmara por encarar a eventual concessão/privatização dos TUT, ou mesmo a sua supressão, mostra bem a confusão que reina nalgumas hostes políticas locais, fortemente influenciadas por gente com mentalidade de pedintes. "Laranjas" a pugnar pela continuação de transportes por TUTa e meia à custa dos outros. Volta Sá Carneiro, que eles estão a ficar loucos!
Pobre terra!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Excelente exemplo de cidadania

"Sem duvida que este prémio é mais uma palhaçada eleitoralista da presidenta mas discordo que a festa tenha necessariamente de dar lucro. Não vejo como isso seria possível sem a descaracterizar com patrocínios de grande marcas e compromissos televisivos, o que seria muito pior na minha opinião. Esta festa sempre foi do povo para o povo, e apesar do prejuízo camarário, a cidade ganha (ou devia de ganhar) com os visitantes e cumpre o seu prestígio.
No entanto, acredito que há soluções bem melhores e muito mais económicas do que as actuais. O planeamento começa sempre tarde e fica a impressão que não envolvem as comunidades como deveriam de fazer. Ainda não se pensa a festa como um todo, ainda não há quem pense nas condições de quem assiste ao cortejo. Não há estratégias de promoção da festa. Apoio aos comerciantes/restaurantes é sempre insuficiente. Ocorrem sempre os típicos problemas com as excursões e afins. Enfim, uma série de problemas recorrentes em que não há capacidade para pensar de outra forma. Mas haver gente para encher a comissão de festas, isso nunca falta!"
Este comentário ao texto "Um disparate sem remédio", que aqui reproduzo com todo o gosto, constitui um excelente exemplo para ilustrar o exercício pleno e correcto do direito de cidadania. Tem muitas vertentes. Apoia, discorda, expõe dúvidas, avança queixas, mas tudo dando a cara, num tom  escorreito, sereno, educado e amistoso. Como sempre deveria ser, mas infelizmente não é. Obrigado por esta ajuda em prol do cada vez mais necessário e indispensável debate tomarense.
Não escrevi nem penso sequer que "a festa tenha necessariamente que dar lucro". Tive até o cuidado de especificar que merece respeito e não deve ser abastardada, seja qual for o pretexto. O que quis dizer é mais simples. Que  a nossa querida Festa Grande, se for bem organizada, por cidadãos inteiros que saibam o que andam a fazer, dará forçosamente lucro, a partir do momento em que a reformatem em função dos tempos que correm. Respeitando naturalmente a tradição, mas não tudo o que julgam erradamente ser tradicional. Vejamos.
Na origem era uma festa pagã, que celebrava as boas colheitas. Esse tempo passou. Agora as boas colheitas resumem-se aos impostos e taxas cobrados por quem nos devia governar e infelizmente só nos explora. Sem qualquer indício de má vontade. Apenas porque não sabem nem querem aprender a fazer melhor. Foi depois um cortejo de oferendas, com a bênção da igreja católica. Uma forma de dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, pelo menos uma vez por ano. O bodo final aos pobres, a chamada "distribuição da peza", que ainda se mantém.
Depois, as vicissitudes de toda a ordem aniquilaram a festa, que acabou de morte morrida. Estávamos na década de 30 do século passado. Foi um meteco que teve a ideia de a restaurar -o Eng. Santos Simões, estrangeirado porque educado em Inglaterra. Conhecido entre os seus trabalhadores como o "Jones da Fábrica de Fiação", depois especialista em azulejos. Onde isso já vai! Convenceu o então presidente da câmara, o tomarense e capitão de infantaria Fernando de Oliveira, um dos tenentes do golpe do 28 de Maio de 1926. Convenceu-o de que maneira? Transformando a festa dos tabuleiros numa cerimónia de homenagem ao regime, num acto de beija-mão, com se disse na época. Foi aí que se iniciou a nomeação do presidente da câmara como presidente da comissão central, bem como o alçamento frente à Câmara dos tabuleiros em simultâneo, logo após a bênção. Quando o senhor vigário (na altura não existia o bispado de Santarém) ainda não abusava da circunstância para fazer pregação tipo peixe espada...
É essa tradição que perdura, nos seus dois aspectos. Para os tomarenses é algo de muito profundo, muito sentido, quase sagrado, inexplicável afinal. Até eu fico com as lágrimas nos olhos quando, da janela de canto do turismo, vejo surgir do portão da Cerca os primeiros pares. Citando uma vez mais Nini Ferreira: "Os tomarenses vêem a festa com outros olhos". Para os visitantes, contudo, trata-se apenas de um cortejo folclórico, lindo, muito colorido, mais ou menos bem organizado, mas apenas isso. Escapa-lhes completamente, segundo tenho conseguido apurar, qualquer transcendência. Por outras palavras, são apenas espectadores e comportam-se como tal. E sendo espectadores, consideram aquilo a que assistem um espectáculo, pelo qual estão dispostos a pagar. Como em qualquer outro lado.
Excelente ocasião portanto para cobrar entradas, fechando previamente todo o circuito do cortejo, mas isentando naturalmente os residentes e os nascidos em Tomar, mediante apresentação do respectivo cartão de cidadão. E óptima ocasião para melhorar substancialmente o acolhimento dos visitantes. É complicado? É sim senhor. Mas com arcaboiço cabeçal, paciência e método tudo se faz. É caro? É sim senhor. Mas só no primeiro ano, em que se tem de comprar todo o material (painéis de vedação, sistemas de controlo automático de entradas, bilheteria electrónica...) Nos anos seguintes é sempre a somar... e a música a tocar. Para comemorar os lucros da festa.
É isto, caros conterrâneos. Estou enganado? É possível. Mas porque se recusam então a debater publicamente o assunto? Porque não querem sequer experimentar? Têm medo de quê? Já se deram conta que vivem em permanente contradição? Porquê? Porque concordam que a situação cada vez está pior, mas depois não querem mudar nada. Afinal em que ficamos? Isto cada vez está pior? Ou, tudo devidamente ponderado, está bem assim e o problema é a mudança inevitável?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Um disparate sem remédio

Na sua mais recente reunião, a respeitável Câmara que temos decidiu -por unanimidade!!!- louvar a população tomarense. Leu bem. Louvar a população tomarense. Porquê? Porque a Festa dos Tabuleiros foi considerada o melhor evento público do biénio 2015/2016. Por quem? Por uma organização de eventos, que vive disso mesmo, de organizar  eventos para entrega de prémios, e que praticamente ninguém conhece. Você, por exemplo, já alguma vez ouvira falar em tal empresa, antes deste prémio, atribuído a uma festa que os membros do júri se calhar nem viram directamente?
A agravar a situação, o galardão, uma modesta estrela de lata, foi entregue à senhora presidente da câmara por essa sumidade do mundo do turismo, das artes e da cultura, chamada dona Lili Caneças. Ao que se chegou! Que tem afinal a dita senhora a ver com a nossa festa? Que pergaminhos ostenta nessa área? Apenas o facto de lhe pagarem para aparecer e, neste caso, para entregar um prémio antes obtido por uns provincianos pouco precavidos contra as armadilhas do mundo moderno.
Exagero? De modo algum. Até porque o dito prémio foi simplesmente comprado pela autarquia, ao candidatar-se e para isso desembolsar cerca de 200 euros. A prova do que afirmo reside no facto de todos os candidatos terem sido premiados e todos com primeiros prémios. No caso da Festa dos Tabuleiros, venderam-lhe o prémio de melhor evento público, categoria reservada a manifestações organizadas exclusivamente pela administração central ou pelas autarquias locais, estipula o regulamento.
A confirmar a índole comercial e praticamente confidencial do evento, todas a manifestações anexas que estavam previstas foram anuladas sem qualquer justificação plausível, conforme já expliquei aqui. Mantiveram apenas a entrega dos prémios antes atribuídos por um júri obscuro, para não serem forçados a reembolsar as inscrições.

Resultado de imagem para fotografias festa dos tabuleiros

Nestas condições, resolver exarar um voto de louvor à população tomarense 18 meses depois da festa, é um disparate sem remédio, que tresanda a eleitoralismo. E um parto demasiado demorado. Que vem mostrar, mais uma vez, a pouca categoria da câmara que temos, pois trata-se de  uma evidente manifestação de parolos. Louvar a população porquê? A maior parte nem sequer participou na festa. Louvar a população para quê? Para que votem bem? E o que é votar bem?
Quando se escreve na blogosfera que a actual maioria relativa PS, coligada com a CDU, não presta, aparecem sempre os comentadores anónimos de serviço a afirmar que a oposição não é melhor. Estamos portanto de acordo, por uma vez. O actual executivo é muito fraco, na sua totalidade. Como demonstra mais este disparate, infelizmente relacionado com uma festa que merece respeito.
Nini Ferreira escreveu algures, e disse muitas vezes, que os forasteiros gostam muito da festa, mas os tomarenses vêem-na com outros olhos. Creio que a maior parte dos que fazem a nossa Festa Grande ainda não entendeu plenamente o que queria dizer Fernando Ferreira. É urgente deixar de endeusar a festa, que fica cada vez mais cara aos contribuintes, via orçamento camarário. Respeitar a tradição e a sua autenticidade, mas adaptando-a aos tempos que correm. Deixar de a pagar e pô-la a dar lucro, sem todavia a abastardar. Porque a organização do cortejo e das ruas ornamentadas pode e deve ser separada da elaboração dos tabuleiros ou dos enfeites para as artérias citadinas.
O que a população tomarense necessita, não é de louvores serôdios, pacóvios, interesseiros e desprovidos de realismo. É de quem lhe mostre, com coragem e honestidade, aquilo que infelizmente a falta de bagagem cultural da maioria lhe não permite enxergar: No seu modelo actual, a Festa dos Tabuleiros é como a agricultura tradicional no tempo do Salazar: A arte de trabalhar duro e empobrecer alegremente. Recordo que  a festa de 2015 custou à câmara 275 mil euros. Em dinheiro. Mais a cedência de locais, de pessoal, de veículos e de energia. Qual foi o retorno em euros, para ajudar a baixar as taxas locais, que tornam a água da torneira uma das mais caras do país?

Actualização
Segundo uma informação recente e de fonte fidedigna, à verba camarária a fundo perdido há que juntar uma média de 5 mil euros, "por baixo", desembolsados por cada uma das 11 freguesias. O que dá mais 55 mil euros, neste caso não para a corda do sino, mas para a glória da festa. Cujos tabuleiros, segundo as minhas contas e se não erro, ficam a mais de 500 euros cada um. É uma festa de gente rica, lá isso é!