quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

 


Turismo e património imaterial da UNESCO

E Tomar não é cidade criativa da UNESCO? Mais uma injustiça.

É sem dúvida a notícia-choque da semana. "Tomar fora do grupo das cidades criativas da UNESCO", titula O Templário a toda a largura da primeira página, em fundo vermelho. No interior fica-se a saber que as ditas cidades criativas da UNESCO são seis, na região de turismo do centro, três costeiras (Caldas, Leiria, Óbidos) e três raianas (Castelo Branco, Covilhã, Idanha a nova), todas lideradas pela cidade outrora da lã e da neve, sob a égide do Turismo do centro e da sua activa vice-presidente, a conhecida especialista em turismo e ex-presidente da Câmara de Tomar, Anabela Freitas.
Um mero acaso fortuito (ou não?) vem mostrar que, pelo contrário, a capital templária prima pela criatividade, mesmo se ainda não reconhecida pela UNESCO. Na mesma edição d'O Templário pode ler-se a convocatória para a próxima sessão da Assembleia municipal, no dia 20 de Dezembro, da qual consta esta maravilha, no seu ponto 11 "Discussão e votação da Declaração de apoio à candidatura da Festa dos tabuleiros como Património imaterial da UNESCO".
Em claro, cinco anos após a ex-presidente ter decidido entregar a candidatura dos tabuleiros à UNESCO a um alentejano antes ligado à da Festa da Flor de Campo maior (ruas ornamentadas, como em Tomar), a Assembleia Municipal é chamada a apoiar essa infeliz iniciativa do mandato anterior, que desde então parece estar na situação descrita pelos militares brasileiros quando querem dizer "marcar passo!" -"Faz que anda mas não anda".
Não se trata agora de saber porquê ou até quando, mas apenas de vincar que afinal Tomar é uma cidade criativa ímpar. Que outro parlamento municipal aceitaria discutir e votar uma declaração de apoio a uma decisão municipal do mandato anterior? Que se saiba nenhum, por ser totalmente descabido. Se é do mandato anterior, "o que lá vai, lá vai", como bem diz o povo. Querem os votos PSD para pressionar o governo, que agora é outro, a avançar com a candidatura encalhada até Paris, é o que é.
Entretanto, lá para para o extremo oriente, na longínqua Tailândia, as autoridades competentes mostram que não perdem tempo com discussões de apoio tardio. Já conseguiram a inscrição na tal lista UNESCO do património imaterial da "sopa de camarão" (ver imagem supra), da "dança da máscara Khon", da "dança Nora", da "massagem tailandesa" e  do "Festival de Songkran".
https://www.routard.com/actualite-du-voyage/cid141359-la-soupe-de-crevettes-tom-yum-kung-au-patrimoine-de-l-unesco.html 
O que tende a mostrar que, se calhar, em vez de insistir tanto nos tabuleiros, se candidatassem a "morcela de arroz", o "cabrito com grelos", as "favas com entrecosto", as "fatias de Tomar", os "bolos de cama", a "lampreia de ovos" ou a "bebida Mouchão", era bem capaz de conseguirem êxito mais rápido. Que os tabuleiros também hão-de  acabar por ser inscritos na célebre lista da UNESCO. Vai é levar o seu tempo, cá por coisas...


O PSD local é mesmo oposição?

Não havia necessidade...

O problema é velho e cada vez mais evidente. Em Tomar não há oposição, apesar dos três vereadores que integram o executivo liderado pelo PS, com quatro eleitos. Parece simples e consensual escrever isto, para quem conhece razoavelmente o microcosmo político local, mas desenganem-se. Os social democratas não aceitam de forma alguma semelhante crítica. Passam logo de acusados a acusadores. E assim vamos estando. Não mudar para não se arrepender depois. Casmurros.
Os (raros) analistas locais, coincidindo neste ponto, concordam que os eleitores tomarenses não têm praticamente alternativa na altura de votar. Tanto faz Pedro como Paulo. Os programas são todos parecidos e o comportamento dos eleitos idem idem.
Surpresa e das grandes, a recente sessão da AM sobre o 25 de Novembro veio revelar inesperadamente a grande fractura partidária no concelho. O PS tendência esquerda unida, que é por agora maioria local, resolveu alinhar com a extrema esquerda, e não compareceu, assim boicotando a cerimónia prevista, em total contradição com a tradicional política socialista.
Enganou-se porém quem pensou que, após tal mostra de intolerância, os social-democratas nabantinos iam finalmente começar a fazer oposição a sério, assim contribuindo para o esclarecimento do eleitorado e a adopção de melhores políticas locais. Tudo como dantes, chuva em Tomar, sol em Abrantes.
Há muito com graves dificuldades financeiras, que apontam mesmo para a inviabilidade da instituição, a Canto Firme pediu à Câmara mais uma ajuda extraordinária, desta vez de 11 mil euros. Tanto quanto se sabe, não apresentou qualquer plano de recuperação, ou outro. É apenas mais uma ajuda municipal para desenrascar, não se sabe até quando.
Sem surpresa, o subsídio foi concedido, mas a votação por unanimidade parece-me algo inesperada, sendo em todo o caso uma asneira política do PSD. Porque não havia necessidade alguma de votar a favor. O PS tem maioria absoluta, pelo que bastariam os seus quatro votos para aprovar mais um pagamento extraordinário, cuja pertinência ainda não foi demonstrada. Apenas mais uma esmola para um pedinte habitual? Mais um passo para a municipalização de facto da Canto Firme?
Ainda por cima, na sua declaração de voto, a vereadora social-democrata lastimou que a Canto Firme nunca tenha respondido aos pedidos de reunião do PSD. Situação comum, pois o blogue Tomar na rede também já se queixou do mesmo. Pediu informações detalhadas e não obteve resposta. Nestas condições pouco usuais, o que terá levado os social-democratas a votar favoravelmente o subsídio? É do conhecimento geral que os dirigentes, os membros e os amigos da referida instituição não votam PSD. 
Assim, em vez de aproveitar o ensejo para dizer aquilo que pensam  em relação à política camarária de subsídios e de festas, e à inaceitável atitude fechada da Canto firme, os eleitos PSD contribuíram mais uma vez para baralhar o eleitorado, que assim pode confirmar a conhecida frase do anterior dirigente máximo do PCP: "É tudo farinha do mesmo saco." E não havia necessidade!


quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Imagem copiada de Tomar na rede, com os nossos agradecimentos.

Decadência nabantina

UM PANORAMA 

EXASPERANTE E DEPRIMENTE

(Texto longo e complexo, para ler à lareira, ou no computador do serviço, durante as horas de expediente, uma vez que há ar condicionado à custa dos contribuintes.)

Lembro-me bem. Quando um dia lhe perguntaram porque não havia eleições livres, Salazar respondeu que o povo português não estava preparado para a democracia. Não estava, nem parece estar, meio século após Abril. Pelo menos em Tomar, o eleitorado que conheço melhor, a situação é confrangedora. Não só, ou não tanto, pela evidente ignorância reinante, mas sobretudo porque os ignorantes, que somos todos, tendem em geral a considerar-se sabedores e, não raro, até como conhecedores, portanto impermeáveis à crítica e imunes aos erros.
Deste caldo sociológico de 35 mil eleitores inscritos, muitos dos quais nem terão capacidade para deglutir o que estou escrevendo, metade nunca votam e os restantes limitam-se a fazer a cruzinha onde lhes disseram. O que origina situações muito tomarenses. 
Os vários presidentes de Câmara eleitos fizeram todos sem excepção excelentes mandatos, só os dos adversários é que foram uma miséria. Há oposição apenas nominal. Na verdade estão todos de acordo em relação às grandes opções, porque excluindo as da maioria circunstancial, não conhecem outras. A própria informação local simula não saber o que são divergências, afinando sempre pelo diapasão oficial, o que se compreende muito bem, ao constatar que o ex-semanário local de direita foi salvo da falência por uma ajuda autárquica, providenciada pela transitória maioria esquerda unida, no poder local desde 2013. E se até a velha direita tradicionalista se vende, para onde vamos?
Deste vale de tristezas e de enganos, exasperante e deprimente, resultam atitudes normais para a urbe, porém aberrantes em termos gerais. Uma delas, quiçá a que mais me incomoda, é esta: Aquilo que vou escrevendo no blogue tem, segundo a Google, um leitorado diário entre 300 e 400 visualizações, das quais 60% na área concelhia. Pois apesar de tanta fartura, há apenas dois ou três comentadores assíduos e, pior ainda, nota-se que muitos leitores tudo fazem para que não se saiba que cometem esse pecado.
Há depois a "opinião pública" local. Tenho felizmente meia dúzia de bons amigos na urbe, mas também há quem finja que não me conhece, e até quem mude de passeio para não se cruzar comigo. E eu ralado, apetece exclamar, mas não corresponderia à verdade. Apesar de saber que "santos da casa não fazem milagres", ou que "ninguém é profeta na sua terra", estas atitudes intolerantes acabam sempre por deixar marcas no subconsciente, e eu já desço a Corredoura há oito décadas. Custa portanto um bocado.
Quem habitualmente lê e tem memória, sabe bem quem começou com a crítica frontal e desinibida à maioria PS esquerda unida. Só mais tarde, com a proliferação das redes sociais, é que apareceram outros eleitores discordantes, mais voltados para a má limpeza urbana, a poluição do rio ou a falta de manutenção dos espaços verdes, por exemplo. Mas nem esse fenómeno mimético provocou qualquer alteração significativa no corpo eleitoral tomarense, cuja principal característica continua a ser a casmurrice. Gente incapaz de alinhar três ideias ou cinco frases originais, assume ainda assim uma atitude condescendente em relação a quem produz e publica texto pessoal diariamente.
E chega-se à presente situação, senão caricata, pelo menos bizarra. No blogue Tomar na rede vários leitores queixam-se de problemas de estacionamento, que até ilustram, mas parecem ignorar a origem remota de tais situações. Ou seja, antes de denunciarem, esqueceram-se de formular as perguntas básicas: Quem? O quê? Quando? Onde? Mas também e sobretudo Porquê? Como?
Cai-se assim na tal situação algo cómica: Um morador da Choromela queixa-se de ser obrigado a ir estacionar o seu carrito no parque do supermercado mais próximo, porque há uns malandros que estacionam camiões TIR mesmo junto à sua porta. (ver imagem)
Conclusão provável do leitor arrabaldino: A maioria PS esquerda unida anda por vezes a caminhar ao lado dos sapatos? Quero lá saber! Há uma aflitiva falta de estacionamento em toda a área urbana? E eu ralado! Deviam era proibir estes gajos dos camiões TIR de virem roubar estacionamento aqui à porta.
Há duas décadas, um descendente de refugiados russos em França, "fez um cartão". Teve um êxito mundial, com uma composição cantada por Jane Birkin, sua companheira. Refiro-me a Serge Gainsbourg e a "Je t'aime, moi non plus". Uma relação de amor-ódio recíprocos. Exactamente como os tomarenses em relação a esta velha carcaça, que insiste em escrever só para melhorar as coisas, embora aproveitando para estar entretido. Ne me quitte pas... (Jacques Brel,  belga valão que jaz algures na Polinésia, para onde se retirou ao saber que tinha um cancro incurável...)

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terça-feira, 10 de dezembro de 2024


Roubo de computadores e relógios na Worten -Tomar

Dois assaltos 

que podem vir a explicar muita coisa?

A notícia é do Tomar na rede, sempre na vanguarda da informação local, quando tal lhe é permitido:
Em resumo sintético, três rapazes e uma rapariga roubaram computadores e relógios em pleno dia, na loja Worten de Tomar, e fugiram numa viatura que os aguardava. Lê-se a seguir que assalto semelhante ocorreu na Worten da Sertã. Serão os mesmos autores?
Numa altura em que se sucedem roubos e outros actos de vandalismo em plena cidade, cidadãos reclamam a instalação urgente de vigilância electrónica permanente e são confrontados com uma estranha situação. Há um protocolo para a instalação da referida vigilância, assinado em 2023, mas um ano depois a Câmara e a PSP ainda não chegaram a acordo quanto ao material a instalar. Roubaram catalisador de carro estacionado no parque da estação | Tomar na Rede
Será que alguém estará interessado em dispositivos de vigilância cuja qualidade não permita afinal identificar ninguém? A pergunta é legítima, quando se pensa em certos incidentes, como por exemplo uma série de furtos em pleno dia numa loja da Corredoura, em que a informação local às ordens nunca identificou cabalmente as ladronas, que muitos viram fugir Corredoura abaixo, e de resto os donos da loja também nunca apresentaram queixa, vá-se lá saber porquê.
Surge agora este par de assaltos em pleno dia, com quatro ladrões mais um comparsa à espera no carro de fuga. Apesar de, pelo menos em Tomar, o agente da PSP no local os ter visto, segundo a notícia, e de haver imagens de videovigilância, é bem provável que nunca venha a ser possível identificar cabalmente os ladrões, devido a imprevistos vários. Em qualquer caso, se forem da etnia calé, a informação local está condicionada por normas camarárias que a impedem de esclarecer cabalmente a situação quanto a identificação completa dos cidadãos implicados, naturalmente inocentes até prova em contrário. Agora resta aguardar, mas os antecedentes não são nada encorajadores. De resto, sempre atenta às tendências meteorológicas da Praça da República, a Rádio Hertz já vai escrevendo "Acredita-se que os intervenientes não são de Tomar." Está-se mesmo a ver em que se baseia a crença.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024



ECONOMIA LOCAL

Empresa alemã da LUFTHANSA vai criar 700 postos de trabalho qualificados em Santa Maria da Feira

Associação CANTO FIRME pede ajuda monetária à Câmara de Tomar

São as notícias desta manhã. Nova empresa alemã da LUFTHANSA TECNIK vai criar 700 postos de trabalho qualificados em Santa Maria da Feira (Aveiro). Associação cultural CANTO FIRME solicita à Câmara de Tomar uma ajuda monetária extraordinária de onze mil euros, para ultrapassar graves dificuldades de tesouraria. 

Lufthansa planeia 700 novos empregos em Santa Maria da Feira, "sinal do empenhamento o grupo em Portugal"

Associação Canto Firme em situação financeira difícil recebe apoio da câmara | Tomar na Rede

Perante isto, às 7 da manhã, com 25 graus e o mar ali em baixo, comecei a cogitar, pois como disse o outro, "eu só sei pensar". Porque é que os alemães resolveram instalar-se em Santa Maria da Feira, e não em Tomar? Por causa do clima? Eles também estão no interior, embora mais perto do mar.
Veio-me então à ideia a Festa Templária, encomendada "pronta a usar" e com dramedários e tudo, pela Câmara de Tomar a uma empresa também de Santa Maria da Feira, pela módica quantia de cem mil euros, sem retorno de bilheteira, ao contrário do que acontece na origem, cuja "Festa medieval" gera sempre confortável receita. Mas pronto. Empregos são empregos, cultura é cultura. Nada de comparações.
Que separa afinal Tomar de Santa Maria da Feira, além do espaço geográfico? Eis os resultados das autárquicas de 2021: 

SANTA MARIA DA FEIRA.....................................TOMAR

PSD-48,91% -34.177 VOTOS - 7 MANDATOS......PS-39,70% - 7.170 VOTOS - 4 MANDATOS
PS - 30,09% - 21.026 VOTOS - 4 MANDATOS      PSD-34,60% - 6.248 VOTOS - 3 MANDATOS 
BE - 3,72% . 2,596 VOTOS          xxxxxxxxxx        CHE-6,15% - 1.108 VOTOS       xxxxxxxxxx
CDS - 3,26% - 2.275 VOTOS       xxxxxxxxxx        CDU-5,21% - 993 VOTOS          xxxxxxxxxx
CHE . 2,83%  -1,979 VOTOS       xxxxxxxxxx        BE - 4,74% - 874 VOTOS            xxxxxxxxxx

Ou seja, em Santa Maria da Feira os extremos BE e CHE valem  6,55% dos votantes,  mas em Tomar CHE+CDU+BE = 16,10% dos votantes. Resta acrescentar que os investidores geralmente procuram saber, entre outros elementos, quais as tendências políticas do concelho e o total de funcionários do município, antes de tomarem uma decisão. Neste caso, Santa Maria da Feira tem 500 funcionários municipais para 95 mil eleitores, e Tomar tem 630 funcionários municipais para  34 mil eleitores. Está assim explicada parcialmente a escolha da empresa alemã e a crise da Canto Firme. Ou não?

ADENDA

Na frase "em Santa Maria da Feira os extremos BE e CHE valem 6,55%" falta a CDU, simplesmente porque não integra as cinco formações mais votadas naquele concelho em 2021. Apesar disso, e para melhor entendimento, acrescenta-se que a CDU obteve 2,33% = 1.627 votos, pelo que a citada frase passará a ser "em Santa Maria da Feira os extremos BE+CDU+CHE valem 8,88%". Ou seja, estão feitos no oito!
        


 


Arranjos urbanísticos do centro histórico

Boa jogada!

TOMAR – Câmara vai promover discussão pública sobre a requalificação do centro histórico. População poderá pronunciar-se | Rádio Hertz

Por vezes, na política é como no desporto. Uma boa jogada em tempo oportuno, pode valer a vitória final. Exactamente o que acaba de lograr o presidente Cristóvão: -Uma boa jogada. Fortemente contestado durante a reunião convocada para apresentar o projecto de requalificação de alguns arruamentos do centro histórico, e com o PSD dando mostras de começar a perceber o que é oposição, não esteve com mais rodriguinhos de circunstância. Resolveu cumprir finalmente a regulamentação europeia, submetendo a discussão pública o referido projecto.
Além de "dona da obra", a Câmara detém dois prédios na Rua Infantaria 15, mais dois na Rua Joaquim Jacinto, mais dois na Rua do Pé da Costa de Baixo e ainda dois outros na Av. Cândido Madureira (Escola Profissional e Turismo Municipal). Quer isto dizer que, no debate público proposto, a sua opinião vai decerto prevalecer, por ter muito mais peso do que qualquer outra. Somos todos iguais, mas nestas coisas há sempre uns mais iguais que outros.
Se isso não bastar, temos ainda na área a requalificar alguns outros proprietários conhecidos apoiantes da actual maioria socialista esquerda unida. É o caso, por exemplo, do arquitecto autor dos projectos da Várzea grande e do Flecheiro, com atelier na Cândido Madureira, ou do presidente do Polítécnico, com uma residência de estudantes na ex- Jácome Ratton, logo em frente.
Com estes e outros trunfos, se mesmo assim não lograr levar a sua avante, Cristóvão não serve para político autárquico. Assim, e para que dúvidas não haja, desde já se avançam as discordâncias em relação às propostas do plano camarário, manifestadas durante a recente reunião pública nos Paços do concelho, e que estão registadas em video:
1 - Contra o abate das árvores da Cândido Madureira, que estão de perfeita saúde, e por se considerar que a argumentação segundo a qual "não são adequadas para aquele local" é uma opinião simplória, sem qualquer base séria. A ser assim, os plátanos ao fundo da Nun´Álvares também não.
2 -Contra o previsto para o largo frente à Mata, designadamente a supressão total dos lugares de estacionamento, ou a plantação de 4 árvores de médio porte. A estátua do Infante deverá ser transferida para os Estaus, ou para o exterior dos Paços, no Convento de Cristo, e o espaço deverá ser remodelado, mas de forma a ficar com mais lugares de estacionamento.
3 -Pavimentação das ruas (excepto a Cândido Madureira, que deverá continuar asfaltada, por ser uma estrada nacional): Calçada tradicional fina, com pedra regional 4x4 assente em cama de areia, com juntas acabadas a aguada de cimento, seguindo-se polimento final, onde necessário. O piso interior do café-restaurante 15 é um excelente exemplo de trabalho bem feito, restando apenas escolher o padrão dos desenhos em pedra preta para cada rua, com ou sem lajedo central em calcáreo.
4 - Manutenção das árvores da Rua dos arcos, substituindo todas as que estão visivelmente em mau estado de conservação, por outras da mesma espécie.
Basicamente é isto. No final das obras, desejavelmente antes das próximas autárquicas, logo se verá se a tal discussão pública proposta valeu a pena, ou foi apenas mais uma boa jogada, da parte de quem só sabe gerir de forma autoritária. 






domingo, 8 de dezembro de 2024




Lista do património imaterial da UNESCO

Candidatura dos tabuleiros 

atascada no lodo da cultura em saldo

Quando escrevi a crónica anterior, sobre a reunião no Paraguay do Comité intergovernamental para a salvaguarda do património imaterial, o organismo UNESCO a quem cabe inscrever as candidaturas na respectiva lista, não tencionava voltar a abordar o assunto. Embora muito querido dos tomarenses, o tema tabuleiros é demasiado árduo para o comum dos mortais. Só os entusiastas é que conseguem coragem para ler os longos textos alusivos, quando os há, que os autores são ainda mais raros. 
O surpreendente leitorado da crónica anterior, até agora mais de 530 visualizações em 24 horas, força-me a mudar de opinião, porque esses leitores ocasionais também merecem respeito. Vamos então a isso, mas previno desde já que não vai ser uma leitura fácil nem agradável, pois as coisas são o que são.
A candidatura dos tabuleiros a património imaterial da UNESCO já sofreu atrasos consideráveis na etapa nacional. É natural. Tratou-se de um processo mal iniciado e mal elaborado. Uma coisa assim tipo desenrasca, "vamos lá, que depois logo se vê!", com origem numa senhora extremamente simpática, porém algo limitada em termos de arcaboiço cultural. por exemplo.
O problema começa logo no próprio objecto da candidatura, anunciada como "Festa dos tabuleiros a património imaterial da UNESCO", quando afinal tal não é de todo possível. Tratando-se de candidatura a património imaterial, o respectivo comité para a salvaguarda não vai inscrever os tabuleiros, nem o cortejo, nem a distribuição da peza, nem as ruas populares ornamentadas, que são manifestações de património material. Como o Convento ou o Castelo, só que transitórias.
O que pode vir a ser inscrito na lista de salvaguarda do património imaterial é a "arte de conceber e armar tabuleiros", ou a "arte de elaborar flores de papel e outra decoração para os tabuleiros". Tudo isto já foi exposto ao autor e aos promotores da candidatura, de acordo com as informações que nos chegaram, até agora sem resultados práticos, para além do atraso na candidatura, que embora já inscrita a nível nacional (após pressão camarária junto da DGPC), continua coxa, ao que nos consta. O que leva a representação portuguesa na UNESCO a ter dúvidas sobre a respectiva viabilidade, retardando a entrega e aguardando melhores dias.
Há ainda, sabe Tomar a dianteira 3, outras vertentes a ensombrar o processo. Uma delas é a própria ideia de património imaterial da humanidade. Inscrição numa lista de protecção e salvaguarda, para evitar que venha a desaparecer, segundo o UNESCO. Galardão que confere valor mundial, permitindo larga promoção comercial e política, para quem apresentou a candidatura. Duas visões que não sendo incompatíveis, tão pouco emparelham lá muito bem.
Outro óbice de monta é que, tratando-se da arte de elaborar flores, e/ou de montar tabuleiros, ou organizar a festa, não é aceitável que os ditos tabuleiros tenham obrigatoriamente o mesmo aspecto global rígido, quando se sabe que derivam das tradicionais fogaças ou fogaceiras, que subsistem por esse país fora, com uma extrema variedade, que lhes confere genuinidade e autenticidade popular.
Terceiro problema, além de poder inscrever a arte de montar tabuleiros, ou a arte das flores de papel, já classificada em Campo Maior,  a UNESCO também poderá inscrever na lista do património imaterial o próprio processo organizativo da Festa dos tabuleiros, desde que a candidatura o solicite, o que ainda não é o caso. Mas então há que optar antes: Modelo organizativo do grande cortejo, tipo festa de Estado?  Modelo Carregueiros, muito mais modesto, mas também mais autêntico e fiel à tradição? Outro ainda, mais rentável? Qual?
Última questão relacionada, o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança, diz o poeta. O que ontem se aceitava e até se admirava, doravante é algo de retrógrado aos olhos de muitos, a que urge pôr cobro. Refiro-me a um desfile ao sol de centenas de mulheres com tabuleiros de 15 quilos à cabeça, tendo ao lado os seus pares, que apenas ajudam a pôr à cabeça, ou a tirar, sem nunca levarem ao ombro, como seria natural.
Pouco ou nada importa a opinião dos tomarenses a respeito de tudo isto. Não são eles que vão dizer sim ou não, quando se votar a inscrição na lista de salvaguarda. São os representantes credenciados de 24 países, que eventualmente nem sabem bem onde fica Tomar, quanto mais agora o que é a Festa dos tabuleiros na sua essência. Mas sabem o que é igualdade, decência e equidade, nos tempos que correm.
Uma coisa é certa. Com ou sem inscrição na lista do património imaterial da UNESCO, a festa grande tomarense está condenada ao desaparecimento no seu modelo actual. Tem de ser reformulada. Alguém imagina um concelho em crise, com menos de 40 mil eleitores, a gastar mais de dois milhões de euros sem retorno, numa festa que dura três dias, em plena alta estação turística, quando não faz falta nenhuma para atrair visitantes, e implica a destruição de nove toneladas de pão? Em Bruxelas, certamente que não iriam aplaudir. Sobretudo o célebre holandês das "meninas e vinho verde"...