Acampamento precário, numa antiga via férrea da periferia parisiense.
Acampamento precário de migrantes em plena Praça da Bastilha - Paris
Realojamento dos ciganos do Flecheiro
Um êxito caseiro só para consumo interno
Início de ano é altura de fazer o balanço do anterior. Em Tomar, a maioria socialista alardeia satisfação e contentamento. Consideram estar a governar bem e apresentam como grande êxito do mandato o realojamento dos ciganos do Flecheiro. E a oposição não discorda. Será mesmo assim? É sempre importante considerar outras maneiras de ver, de forma a tentar esclarecer os eleitores tomarenses, que na sua maioria têm como horizonte a colina do castelo ao sol posto.
Li no LE MONDE que a população de Paris (2,2 milhões de habitantes intra periférico). tem vindo a diminuir desde os anos 60, o que me levou a pesquisar as causas. Apurei assim que há nesta altura na capital francesa cerca de 15 mil sem abrigo de nacionalidade francesa, os famosos clochards ou clodo, bem como alguns milhares de imigrantes a viver em tendas nas ruas e largos, e até um caso particular -o dos ciganos franceses, roms ou manouches.
Ou seja, mesmo com a população a diminuir na ordem das 20 mil pessoas/ano, Paris tem três tipos de sem abrigo ou SDF: os tradicionais clochards, os imigrantes clandestinos e os ciganos franceses. Num total de dezenas de milhares, nem a Mairie de Paris, nem as mairies de cada um dos vinte bairros, ou as da periferia têm feito até agora algum esforço particular para realojar os ciganos, os clochards ou os imigrantes. Porque será? Falta de recursos? Racismo? Simples pragmatismo? Prudência? Política de direita não será certamente, porque a presidente da Câmara de Paris é do PS e o presidente da Câmara de La Courneuve (ver mais adiante), é da esquerda unida - PCF-LFI-Radicais-Ecologistas.
https://www.humanite.fr/societe/camps-de-roms/paris-2024-pourquoi-50-familles-roms-sont-menacees-dexpulsion-avant-le-paramarathon
Para quem saiba e queira ler francês, o link supra faculta a explicação de um caso particularmente significativo: 50 famílias ciganas, cerca de 200 pessoas, (como no Flecheiro), correndo o risco de expulsão de um acampamento precário, no norte de Paris, em La Courneuve, porque o mesmo está ao lado do percurso de uma prova olímpica.
Para a maioria, que só lê português e pouco, eis um excerto da referida notícia:
"Motivo: As 50 famílias (200 pessoas, entre as quais 60 crianças) que se instalaram no acampamento precário, danificam as instalações e impedem as respectivas reparações. Mas sobretudo, o acampamento precário para roms fica mesmo ao lado do percurso da futura maratona paraolímpica."
Não consegui apurar se afinal as ditas 50 famílias ciganas foram ou não expulsas daquele acampamento precário, por ocasião dos Jogos Olímpicos. Mas anotei que a notícia só fala de expulsão e nunca de realojamento. Ou seja, em Paris e na periferia, onde há dezenas de milhares de sem abrigo e alguns acampamentos precários, mantêm-se os clochards nas ruas, porque são franceses, mas expulsam-se os ciganos e outros migrantes. Não se realojam. Porque será?
Não tenham medo de clicar no link supra. Não é nenhum jornal do Chega, ou coisa parecida. É uma notícia do L'HUMANITÉ, o jornal do Partido Comunista Francês, irmão mais velho do AVANTE.
Concluindo, tudo indica que a maioria socialista tomarense, cheia de ilusões teóricas e com a melhor da intenções, não estudou devidamente o assunto antes de proceder ao realojamento dos flecheirenses. Agora, os problemas daí resultantes são vários e tendem a agravar-se. Mas havia e há outras soluções mais favoráveis para todos. É tudo uma questão de coragem e de humildade perante o saber de experiência feito.
É sempre mau, confundir o La Palisse com o Lafontaine, ou este com o Lavoisier...