Estamos a caminhar rumo a uma nova ditadura frouxa?
Trova do vento que passa, governança de capa e jornalismo de faz de conta
Em bem me queria calar, conforme consta no bilhete anterior. Mas não consigo. Padeço há muito de incontinência verbal, que vou procurando minorar, mas nem sempre consigo. Desta vez o espevitador foi a Trova do vento que passa, escrita pelo socialista Manuel Alegre em 1963, quando andávamos de arma na mão pela savana angolana.
Pergunto à gente que passa
Porque vai de olhos no chão
Silêncio é tudo o que tem
Quem vive na servidão
Mesmo na noite mais triste
Em tempos de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não
Aos factos, que grande poeta é o povo, mas grande é também a desgraça. A dada altura e sem provocação prévia, o presidente da junta urbana acertou na mouche ao primeiro disparo: "Há muita droga nos bairros sociais em Tomar". Seguiu-se forte reboliço nas hostes da governança local, que a informação calou pois para isso é paga. Jornalismo de faz de conta, é o que temos.
Pouco tempo depois, por duas vezes, os serviços de assistência social da autarquia providenciaram a limpeza de uma habitação no velho "bairro Salazar", domicílio legal de um ex-combatente em Moçambique, manifestamente com um problema de "mania de açambarcamento". Terão os funcionários da autarquia confundido a tralha recolhida pelo munícipe enfermo, com a droga denunciada pelo presidente da junta urbana?
É o que parece à primeira vista, mas matutando um pouco mais torna-se claro que não senhor. Tratou-se, isso sim, de uma manobra de diversão, para desviar a atenção do comércio clandestino do pó. Isto porque de ambas as vezes a informação local foi avisada, fotografou e noticiou, ao contrário do que é habitual por aquelas bandas e com aqueles habitantes.
Na mesma cidadezinha e num curto espaço de tempo, duas ocorrências avulsas mostram o estado de servidão a que já se chegou em Tomar, quando se trata de informar. Houve uma série de abalroamentos de carros estacionados na Avenida Nun'Álvares. Seguiu-se um confronto entre os do veículo causador e os donos dos abalroados, que exigiu a vinda da PSP, e chega. Nada mais se sabe, que o jornalismo local obedeceu e calou o bico.
Semanas mais tarde, novo conflito na área urbana, desta vez na Estrada da Serra. Veio a PSP que recolheu uma navalha no chão e consta que houve feridos ligeiros. De novo o jornalismo local obedeceu, calando o bico. Nos dois casos, quem eram os protagonistas? Adivinhem!
Temos assim em Tomar, 50 anos após Abril, uma evidente discriminação social, praticada abertamente pela autarquia dirigida pelo PS mas fortemente influenciada pela corrente esquerdista, digamos assim. À vista de todos, funcionários municipais invadem um domicílio privado, propriedade da autarquia, pretextando proceder à sua limpeza, alegadamente por haver perigo para a saúde pública, o que está por demonstrar. O jornalismo local foi informado, fotografou e publicou a história resumida do cidadão com problemas, que estava hospitalizado aquando da segunda intervenção camarária. Houve mesmo um jornalista dissidente que até publicou o nome do cidadão prevaricador, para evitar dúvidas.
Já nos casos do abalroamento na Nun'Álvares, da rixa na Estrada da Serra e da droga nos bairros sociais, há um silêncio que incomoda, por se perceber que é imposto "de cima", visando evitar futuros prejuízos eleitorais. Oxalá não lhes venha a sair o tiro pela culatra.
Admiro e louvo a calma e a paciência dos conterrâneos que sabem escrever, mas nada dizem, assim evitando envenenar ainda mais a cloaca política local. Alguns decerto por estarem convencidos que ser socialista, comunista, bloquista, social-democrata ou direitista, é assim como ser do Sporting, do Benfica, do Porto, do Braga ou de outro qualquer clube. Estão enganados. No caso dos clubes, ganhando ou perdendo, a nossa vida quotidiana prossegue como habitualmente. Já no caso das formações políticas, sobretudo quando são maioria, mas não só, o caso é outro.
Lopes Graça lá foi dizendo e escrevendo Acordai! Mas era um excelente compositor e em Tomar estão geralmente convencidos de que aquele Acordai! era só para "dar música ao pessoal".
ADENDA
Como sempre foi óbvio, os jornalistas locais até sabem informar devidamente. Eis um exemplo ...da Golegã: GNR detém homem de 49 anos após desacatos na feira da Golegã (c/ vídeo) | Tomar na Rede
A questão que se coloca é esta: Porquê a lamentável excepção tomarense? Quem manda, julga que os tomarenses ainda não têm idade nem capacidade para saberem a verdade toda? Ou com festas e tolos se vão enganando os parolos?
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