quinta-feira, 26 de abril de 2018

Consegue identificá-los?

Se é leitor assíduo de Tomar a dianteira 3, será decerto porque se interessa pela política, sobretudo local e regional. Saberá portanto que os autarcas podem ser divididos, grosso modo, em duas grandes categorias. Temos por um lado os práticos, de acção, mais de fazer que de falar, que gostam mais de apresentar o já feito, do que de anunciar o que vão fazer. E, por outro lado, os adeptos do blábláblá, os chamados profissionais das intenções e das promessas, com discursos sempre algures entre os projectos, os sonhos e os delírios.
Naturalmente, a esmagadora maioria dos eleitores prefere eleger gente de acção, de trabalho, em detrimento dos vendedores de ilusões. O problema é que, no contexto da campanha eleitoral, regra geral, as candidaturas são como os melões, que só depois de abertos mostram a qualidade. Embora haja também, convém recordar, aquele caso de candidatos eleitos apenas porque, apesar de já se saber que não são de primeira água, os seus adversários foram considerados pelos eleitores como ainda piores.
Agora que as próximas autárquicas ainda estão longe, é tempo para comparar discursos e obras, bem como a evolução económica e demográfica dos diversos concelhos. Aqui vão dois exemplos de discursos recentes, de autarcas do PS da nossa região. Faça favor de ler atentamente e depois tente localizar cada um desses eleitos:

Excerto do discurso A:

"... presidente da câmara realçou o facto de o município ter encerrado o exercício de 2017 sem pagamentos em atraso, e de apresentar um prazo médio de pagamento de cinco dias. Acrescentou que o resultado líquido do exercício foi positivo... ...tendo as receitas correntes suplantado as despesas correntes, gerando um saldo positivo de 2,7 milhões de euros." (Agência Lusa)

Excerto do discurso B:

"O que pretendemos são os turistas que fiquem pelo menos três noites e que [a nossa terra] seja a sua base, podendo a partir [daqui] visitar os pontos de interesse do Médio Tejo e na região. ...Queremos ter uma oferta hoteleira de qualidade, diferenciadora,  e que as pessoas fiquem por mais de uma noite." (mediotejo.net)

Ainda não conseguiu descobrir? Então aqui vai mais uma achega, para o discurso B: A dívida global actual é da ordem dos 23 milhões de euros, o prazo médio de pagamento é de sete meses, mas já foi bem pior. Quanto ao resto, segundo a posição oficial, a casa foi arrumada durante o mandato anterior e agora vai tudo bem. Salvo melhor e mais fundamentada opinião, bem entendido.
E agora? Já lá chegou? É isso! O discurso A é do presidente socialista de Torres Novas, cujo concelho vai crescendo, em termos económicos e demográficos. De tal forma que acaba de suspender o Plano de Saneamentop Financeiro, em vigor desde 2013. Quanto ao discurso B, é da presidente socialista de Tomar, cujo concelho  se vai afundando.
Dá para perceber porquê.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Uma controversa viagem à India

Está a causar alguma controvérsia, no nosso colega Tomar na rede, a anunciada viagem à Índia da senhora presidente, DR. Anabela Freitas e da senhora vereadora Filipa Fernandes (ver ilustração), para participarem numa reunião do Forum Mundial de Mulheres para a Economia. Já comentei o assunto no Tomar na rede, pelo que agora vou tentar alargar a questão, já sem os comentadores anónimos ratões a conspurcar a comunicação.


A primeira coisa a esclarecer, no meu pobre entendimento, é bem simples: Vão a título pessoal, assumindo as respectivas despesas? Ou vão ao serviço do Município de Tomar, em sua representação, com todos os custos pagos pelos contribuintes?
No primeiro caso, não haveria mais nada a dizer. Cada um viaja para onde quer, com quem quer e quando quer, sem ter de prestar contas a estranhos. Conviria portanto esclarecer previamente esse ponto, interrogando as interessadas ou a autarquia. A experiência ensina porém que seria tempo perdido, porquanto a actual maioria tem o lamentável hábito de pouco responder e nada esclarecer. O caso mais recente, mas não o único, é o dos resultados das análises à água do Nabão. Continuamos sem saber de onde vêm os coliformes fecais e se são de origem humana ou animal. Há mais de um mês.
Sendo a situação o que é, parte-se do princípio que vão ao serviço do Município de Tomar, como suas legítimas representantes, porque livremente sufragadas em eleições justas e não contestadas. Assim, deve a oposição toda, tanto no executivo como na Assembleia Municipal, tentar por todos os meios legais a abtenção de respostas para as perguntas seguintes:

1 - Qual ou quais os objectivos da viagem?
2 - Qual o seu itinerário completo?
3 - Que actividades e contactos estão previstos?
4 - Qual a necessidade de duas representantes, quando Abrantes tem só uma e os restantes municípios do país não têm ninguém?
5 - Porque razão Filipa Fernandes não aparece como "City councilor" de Tomar?

Além destas perguntas, e outras que eventualmente considerem pertinentes, penso que devem os eleitos da oposição exigir que, regressadas a Tomar, cada uma das eleitas apresente um relatório detalhado da sua viagem, tanto no executivo como na Assembleia Municipal.
Caso os membros da oposição prefiram assobiar para o lado, como já tem acontecido, em nome da conveniência e das boas maneiras, em vez de providenciarem a obtenção de respostas fundamentais para os munícipes, passarão a ser considerados coniventes num assunto cujos contornos não parecem inteiramente definidos. Estou a pensar nos dois galardões de qualidade, adquiridos pelos SMAS.
Quanto às respeitáveis eleitas, na falta desses esclarecimentos detalhados, lá terá de haver perguntas ao abrigo do direito à informação e, eventualmente, apelo ao Tribunal de contas, alegando que há suspeitas de um delito chamado peculato.
A vida política municipal está cada vez mais complicada.

Foi há há 44 anos...

Pois foi! Há 44 anos,  corajosos militares profissionais, causticados por sucessivas comissões nas guerras de África, ousaram avançar contra os governantes de então. Venceram; são agora uns heróis. Bem-hajam!
Em Tomar, conquanto não haja nada para comemorar, a Assembleia Municipal reúne-se na biblioteca também municipal, sem que se saiba porquê, ou se perceba bem para quê. Haverá os discursos da praxe, como no dia 1 de Março. Só faltarão as usuais condecorações municipais, porque realmente neste caso não haveria ninguém digno de as receber. Com efeito, lamenta-se ter de o dizer mais uma vez, Tomar não teve rigorosamente nada a ver com a preparação ou com a execução da revolta libertadora do 25 de Abril.
Apesar de ser então um dos principais centros militares do país, com 3 unidades  instaladas na cidade -Quartel general da região centro, Regimento de infantaria 15 e Hospital militar regional 3- nenhuma delas teve qualquer participação no "movimento dos capitães". Pelo contrário. Em Março de 1974 houve um primeiro levantamento militar, no Regimento de infantria 5, nas Caldas da Rainha.
Uma coluna marchou sobre Lisboa, mas ficou-se pelas proximidades do aeroporto, por razões ainda hoje por esclarecer cabalmente, tendo depois regressado ao quartel, que continuou amotinado. Foi uma outra coluna, ida de Tomar, que cercou aquela unidade militar, tendo conseguido a rendição dos insubordinados, muitos dos quais -entre eles alguns oficiais organizadores do 25 de Abril- foram presos e deportados para os Açores.

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É claro que, com tal credencial, o 25 de Abril não podia ser bom para Tomar. Os militares de Abril eram cristãos, porém não ao ponto de darem a outra face após a primeira bofetada. Quartel general e Hospital militar foram-se. Resta  Infantaria 15. O nome, porque quanto a efectivos, já não será sequer um batalhão, quanto mais agora um regimento.
Isto quanto ao aspecto militar. Na área civil, Tomar vitoriou pouco depois o senhor general Spínola, numa grande manifestação na Praça da República. A partir daí, tem sido como todos sabemos. Os primeiros três presidentes de câmara livremente eleitos, foram antes servidores sem mácula do regime anterior.  E até hoje, só Pedro Marques, Carlos Carrão e Fernando Corvelo de Sousa não eram funcionários públicos quando se candidataram. Em 8 presidentes, temos de reconhecer que é pouco e que algo vai mal na Tomarilândia.
Entretanto, no patamar intermédio da escadaria dos Paços do concelho, substituiram o velho painel de azulejos por um mais moderno, pretensamente de acordo com os novos tempos. O painel antigo dizia "Tudo pela nação, nada contra a nação". No painel novo lê-se "O povo é quem mais ordena".
Sintetizando razões e tendo em conta a triste situação política que se vive em Tomar, onde é cada vez mais evidente o autocratismo tacanho e surdo, tipo quero, posso, mando, determino e mando publicar, Tomar a dianteira sugere que se mude de novo o painel de azulejos da escadaria dos Paços do concelho. Ficaria bem o dístico Tudo pela maioria eleita e pelos funcionários superiores municipais; nada contra a maioria eleita e os seus acólitos.
É assim que estamos, 44 anos após o Abril libertador. E a culpa é nossa., tomarenses de ascendência ou de residência. Só nossa.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Quatro casos nabantinos

1 - Uma aposta meio ganha

Algures no final do ano passado, a senhora presidente da câmara resolveu que, pela primeira vez em séculos, não seria desmanchado o açude provisório do Mouchão, ao que afirmou para poupar cerca de 5 mi euros. Contou com o posterior apoio parcial deste blogue, apesar de se temerem as consequências de tão afoita decisão, (que felizmente não ocorreram), por se tratar de uma atitude ousada. Ultrapassada a época invernosa, com as habituais subidas de caudal, eis o resultado:

 Foto António Freitas

O açude cedeu à força da corrente, sendo agora necessário proceder  à sua reabilitação. Mesmo com muito boa vontade, terão poupado metade dos alegados 5 mi euros. Pouca coisa, quando comparado com certas verbas mal gastas e tendo em conta os riscos que houve para parte da cidade antiga.
Idealmente, a roda deverá estar a funcionar no próximo dia 5 de Maio, para mais uma edição do congresso da sopa (que nunca percebi porque tem de ser no Mouchão, quando temos a Mata, com muito melhores condições). É porém duvidoso que tal possa ocorrer, pois o Nabão leva demasiada água para se poder montar o açude em condições de segurança.

2 - Outro aspecto indesmentível do afundamento de Tomar

Durante o primeiro trimestre de 2018, foram criadas no concelho de Tomar 19 novas empresas, mas durante esse mesmo período desapareceram 42, escreve o nosso colega Tomar na rede, citando dados do INE - Intituto Nacional de Estatística. Estamos portanto perante um registo oficial, que nada tem de partidário ou sequer de opinativo. São factos. Muito preocupantes, pois de acordo com a mesma fonte, refere o Tomar na rede, a tendência em todo o país é a inversa - criam-se mais empresas que as desaparecidas.
Dado que uma desgraça nunca vem só, segue-se que a actual maioria  camarária teima numa política negacionista, contra todas as evidências. Em vez de aceitarem a realidade, ouvirem os outros, incluindo os adversários,  e depois agirem em conformidade com os interesses da cidade e do concelho, como seria lógico, preferem enquistar-se em posições autocráticas pouco sustentáveis a médio prazo. 
A recente derrota à rasca, na Assembleia Municipal, de uma moção do PSD, que se limitava a constatar a realidade e propor alterações comportamentais na área da informação e da transparência, é um bom exemplo da confusão que por aí vai. E que parece sem solução, uma vez que a liderança da maioria denota cabeças com falta de conteúdo e formatação pouco adequada aos tempos que  correm.
(Só eu sei o que me custa ser forçado a escrever estas linhas, para que mais tarde se possa saber que nem todos alinharam nas asneiras. Nada ganho com isso, antes pelo contrário, mas prefiro viver em paz com a minha consciência.)

3 - A Agência Portuguesa do Ambiente anda a reinar com os cidadãos?

No caso da poluição do Nabão, que está a passar de drama para comédia, a Câmara de Tomar e a Agência Portuguesa do Ambiente formam um curioso par. Num país livre e em vésperas do 25 de Abril, como não podem continuar com a sua política negacionista, tentam escamotear o problema. Fecham-se em copas. Primeiro foi a senhora presidente da câmara, que prometeu resultados e até indicou uma data aproximada, mas depois enveredou por um silêncio tumular sobre o assunto. Porquê? É a pergunta que se impõe cada vez mais. Oxalá a oposição cumpra a sua função.
Agora é a própria Agência Portuguesa do Ambiente, um organismo governamental pago por todos nós, que resolve considerar que somos todos umas criancinhas, a quem não se pode contar toda a verdade. Cumprindo o seu dever de colher dados e informar, a Rádio Hertz contactou por duas vezes o referido organismo, tendo obtido apenas alguns silêncios eloquentes e várias respostas incompletas. Porquê? Estão a tentar proteger quem?
A seu tempo se saberá, que a verdade é sempre como o azeite.

4 - O estranho caso do concurso para director do Convento

Andreia Galvão é técnica superior da Direcção Geral do Património Cultural - DGPC. Exerceu, em comissão de serviço, as funções de directora do Convento de Cristo, como Chefe de Divisão, até Junho de 2017.  A partir daí manteve-se como directora interina até esta data, por ainda não ter sido substituída ou confirmada em nova comissão de serviço.
O curioso desta questão reside no facto de a tutela ter aberto concurso para recrutamento do director do monumento em Junho de 2017, mas só agora, 11 meses depois, ter decidido proceder às entrevistas previstas no respectivo regulamento . A que se deveu tão estranho atraso? O nosso colega Tomar na rede aborda o problema de forma um pouco mais detalhada.
Entretanto Tomar a dianteira 3 já solicitou informação complementar à DGPC, ao abrigo da Lei do direito à informação (Lei 26/2016, de 22 de Agosto, artigo 5º ponto 1).
  



segunda-feira, 23 de abril de 2018

Sobre o novo "Hotel República" - 2

Esclarecida a vertente secundária, mas recorrente, de qualificar qualquer crítica como mera rabugem de velhos do Restelo, passa-se agora ao essencial. Um casal de emigrantes no Luxemburgo, ele tomarense, ela francesa, resolveram investir em Tomar. É uma decisão audaciosa, que saúdo com todo o respeito, com alegria, e que merece apoio. Trata-se afinal de arriscar dois milhões de euros para criar inicialmente 15 postos de trabalho, contribuindo também para a requalificação do património edificado tomarense.
Por tudo isso, como ex-emigrante e ex-profissional de turismo em terras gaulesas, aqui expresso ao corajoso casal o meu apoio, com votos de que sejam bafejados por toda a sorte do mundo, pois me parece que bem a merecem e bem precisam. Quanto mais não  seja pela velha sentença latina, segundo a qual audaces fortuna juvat -a sorte ajuda os audazes.
Dito o básico em termos societais, há que encarar as coisas tal  como as vemos, e aí lamento ter de ser pessimista empedernido, em vez de optimista balofo. Isto porque, frontalmente aqui o deixo escrito, não acredito em duas premissas do anunciado projecto. Baseado no que conheço da realidade tomarense e portuguesa na área da construção civil, estou como S. Tomé. Só depois de ver o hotel concluído e a funcionar, acreditarei que foi possível terminá-lo antes da próxima festa dos tabuleiros, em Julho de 2019. Mas oxalá que sim!
Caso tal aconteça, ficarei muito feliz e apressar-me-ei a confessar nestas linhas que me enganei, dando a mão à palmatória, que é como quem diz, admitindo a minha culpa e procurando -então sim- remédio para o meu pessimismo, empedernido porque tendo por base uma muito longa experiência de vida.
Na mesma linha de raciocínio, tão pouco me parece que possa vir a ser rentável um hotel de 5 estrelas numa terra como Tomar e naquela localização, com dificuldades de acesso motorizado, sem estacionamento e com apenas 19 quartos. Oxalá me engane, mas mesmo considerando que o tomarense em questão é economista, bancário, e terá sido bem aconselhado, não posso deixar de ter igualmente em conta a usual megalomania, sob forma de afigurações, que é praticamente uma característica dos tomarenses mais evoluídos. Neste caso não propriamente dos investidores, mas de quem os assessorou.

Foto Tomar na rede

Como bem sabem os que se interessam por estas questões -que não são muitos- em Tomar é tudo hiperbólico. Do melhor que há no Mundo. E sempre sem mácula. Prova disso é, por exemplo, o comentário da senhora presidente da câmara, na cerimónia de apresentação do projecto do hotel. Disse a nossa autarca: "O que pretendemos são os turistas que fiquem pelo menos três noites e que Tomar seja a sua base, podendo a partir de Tomar visitar os pontos de interesse do Médio Tejo e da região." 
Tratando-se de uma opinião respeitável, está à vista tratar-se também de algo como um sonho de uma noite de primavera. De uma confusão entre o desejável e o possível. Na realidade em que vivemos, na área do turismo internacional a Região centro resume-se a Coimbra, Alcobaça, Batalha, Fátima, Nazaré e Tomar, esta exclusivamente por causa do Convento de Cristo. Ou seja, a partir de Lisboa, da Nazaré, de Coimbra ou de Fátima, pode-se visitar tudo num dia. O resto são balelas para agradar ao auditório..
Conforme a senhora autarca também deve saber, Portugal é um país relativamente pequeno, com apenas três aeroportos de grande afluência de turística: Lisboa, Faro e Porto, por esta ordem. Tais são por conseguinte, quer nos agrade ou não, as três plataformas distribuidoras de visitantes que há no país, por razões óbvias. Além delas, apenas algumas praias não algarvias, com relevo para a Nazaré e a Figueira,  que asseguram alguma distribuição de visitantes para o interior mais próximo, bem como Coimbra, devido ao seu ascendente cultural entre os povos lusófonos.
Tentar fazer de Tomar um centro de turismo residencial e uma base para visitar a região, é certamente um óptimo projecto, que contudo nunca poderá florescer desgarrado, não tendo nesta altura nada para o potenciar, para além do Convento de Cristo e, de quatro em quatro anos, os Tabuleiros. Convenhamos que é muito pouca coisa, quando por outro lado industriais, comerciantes e particulares pagam dos mais caros recibos de água e saneamento do país, o que naturalmente se repercute depois nos preços.
Acontece que também na área do turismo, e mesmo tratando-se de hotéis de cinco estrelas, o que os visitantes procuram não diverge muito, salvo raríssimas excepções: quanto mais barato melhor. Não é de todo o caso de Tomar, devido nomeadamente aos citados recibos e às tais afigurações supramencionadas. O que naturalmente tende a afastar as pernoitas turísticas para poisos mais clementes.
Restam dúvidas, apesar da argumentação apresentada? É natural. Nem todos dispõem da mesma bagagem analítica, nem de semelhante experiência do terreno. A situação é a que é. Em qualquer caso, convirá meditar no ocorrido com a Estalagem de Santa Iria que, com 12 quartos, 10 empregados e sem amortização do investimento, uma vez que tanto as instalações como o recheio e equipamento pertencem à Câmara, não se aguentou no balanço. Apesar da excelente localização, do fácil acesso,do estacionamento à frente da porta e da muito simpática renda mensal, só sobrevivia porque deixara de pagar dez anos antes do encerramento compulsivo.

domingo, 22 de abril de 2018

Sobre o novo "Hotel República" - 1

O velho do Restelo


Em Tomar, tornou-se corriqueiro usar a expressão velhos do Restelo. Se calhar devido a alguma influência daquele "magnífico" grafito no muro de suporte do ex-estádio municipal, financiado com dinheiros europeus que, como se vê, podem servir para tudo. Prova disso é este comentário sobre o anunciado novo hotel de cinco estrelas, copiado do nosso colega Tomar na rede, que tem a virtude assinável de não ser anónimo:

"Excelente noticia e muitas felicidades aos investidores. Embora devam aparecer por aí os velhos do restelo, a contestar por causa, de sei lá o quê."

Sendo bem conhecida a incomum densidade cultural tomarense, pensa-se que, quanto aos"velhos do restelo", o melhor será ir às origens, antes de administrar a inevitável estocada final que se impõe. A figura mítica do Velho do Restelo foi criada por Luís de Camões e aparece n'Os  Lusíadas, no Canto IV, Estrofes 90 a 104. Mais especificamente,  a Estrofe 94 reza assim:
Mas um velho d'aspecto venerando
Que ficava na praia entre as gentes
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça descontente
A voz pesada um pouco alevantada
Que nós no mar ouvimos claramente
C'um saber só de experiência feito
Três palavras tirou do experto peito:

Segue-se a estrofe 95, que abre com as tais três palavras:

Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama
... ... ...
Dessas três palavras -glória, fama e cobiça- as duas primeiras voltam a surgir na estrofe 96:
Chamam-te fama e glória soberana
Nomes com quem se o povo néscio engana
... ... ...

Aí temos o essencial. O Velho do Restelo é nitidamente contra os Descobrimentos e até explica porquê. Dado que naquela época, e depois durante vários séculos, se consideraram as navegações portuguesas um grande sucesso interno e global, a atitude do Velho do Restelo aparece como retrógrada, temerosa e virada para o passado. Contudo, vistas as coisas neste ano de 2018, forçoso é reconhecer que o velho do Restelo se mostrou prudente e estava afinal a ver longe. Teve frazão muito antes do tempo. Esse o seu erro.
Os descobrimentos foram no fim de contas uma gigantesca tragédia para os portugueses, sobretudo em termos de perdas humanas. Basta pensar que, para além dos milhares perecidos em naufrágios, e das enormes baixas nas várias guerras antigas de além-mar, só entre 1961 e 1975, ficaram nas savanas africanas 13 mil mortos e desaparecidos. Para um país de menos de 10 milhões, terá sido um êxito? Para os do poder e aqueles que ficaram, sem problemas de consciência, certamente que foi. Mas para os que partiram, tantos deles obrigados, bem como para as suas famílias...

E se acontecer em Tomar?

"O Mont-Saint-Michel está a ser evacuado. As autoridades procuram um indivíduo suspeito"

"Está a acontecer. Um dos locais turísticos mais visitados de França [2,3 milhões de visitantes em 2017] está a ser evacuado neste domingo de manhã, por precaução, devido à presença de um indivíduo suspeito.

Le Monde/AFP, 22/04/2018, às 10H50. Actualizado às 11H13, hora de Paris"

O  Mont-Saint- Michel foi evacuado na manhã deste domingo "por precaução". Todos os habitantes e visitantes foram afastados da localidade, devido à presença de um indivíduo suspeito, que ameaçou atacar as autoridades.




Várias testemunhas tinham assinalado esta pessoa quando entrou na povoação, uma das mais visitadas de França, classificada pela UNESCO como Património da Humanidade, anunciou a Guarda Republicana [gendarmerie]. O presidente da câmara local, Yann Galton, confirmou à TV France 3 Normandie, que as autoridades procuram um indivíduo com um comportamento suspeito.
Cerca das 07H45, no vai-vem que transporta os turistas entre o estacionamento obrigatório e o Mont-Saint-Michel, um guia turístico avisou as autoridades que um homem tinha feito durante o transporte ameaças à polícia e à guarda republicana. O visitante em questão foi depois seguido pelas câmaras de vigilância da polícia municipal, tendo conseguido escapar-se a partir de dada altura, esclareceu uma fonte próxima do processo.

Bloqueado o afluxo de turistas

O ingresso na ilha de novos visitantes foi bloqueado. Os clientes dos hotéis foram evacuados com calma e não se registaram incidentes. A Abadia foi encerrada como medida de precaução. Um helicóptero da polícia sobrevoa a baixa altitude a povoação e a secção de investigação da PJ de Caen foi accionada.
A Prefeitura da Mancha marcou uma conferêcnia de imprensa para o final da manhã.
"Estávamos no hotel e pediram-nos para evacuar o Mont-Saint-Michel, disse um jovem turista presente no local. Vi que alguns estabelecimentos comerciais estavam fechados e que toda a gente fora evacuada. Agora estou à espera do vai-vem para regressar ao carro e ir-me embora. Há muita gente a fazer o percurso a pé, a partir da entrada principal. Todos estão calmos, tal como as forças policiais", concluiu o jovem turista."

Mais informações no Le Monde online, logo que disponíveis.

Actualização às 15H16 de Lisboa

Segundo o prefeito da Mancha, tudo voltou à normalidade, a partir das 14H00 locais, com a reabertura dos estabelecimentos e da Abadia. O suspeito não foi encontrado, supondo-se que tenha aproveitado a acção de evacuação para se misturar com os turistas e abandonar a região.