domingo, 22 de abril de 2018

Autocracia, obstinação ou algo a esconder?

Sou capaz de estar a ver mal e a perceber pior. Contudo, a notícia da Rádio Hertz parece-me bastante clara. A Assembleia municipal, na sua sessão de 20/04/2018,  chumbou uma moção do PSD, propondo à câmara que melhore a informação aos cidadãos, na sequência da publicação de um ranking nacional sobre o tema, em que o município de Tomar é último no Médio Tejo, último no Ribatejo e ocupa a 253º posição entre os 308 concelhos portugueses. Pois mesmo assim, além dos proponentes, só a CDU foi digna e coerente, apoiando o documento. Os restantes parlamentares concelhios jogaram à defesa. Até a rapaziada do Bloco, em geral muito fracturante, desta vez resolveu abster-se, tal como os Independentes do Nordeste. O que possibilitou a derrota da moção, graças ao voto com valor a dobrar do presidente do órgão. Tudo isto porquê? Para quê?

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O que terá levado presidentes de junta e deputados municipais socialistas, em princípio tudo gente de bem, partidária da transparência na política, e portanto da informação atempada, a proceder de tal forma?  Há três hipóteses possíveis. A primeira, para os presidentes de junta que votaram contra a proposta ou se abstiveram, bem como para o BE, resume-se numa outra pergunta: Que lhes prometeu o executivo como moeda de troca?
As duas outras hipóteses para tão estranho comportamento, valem para a generalidade dos eleitos que votaram contra. Na melhor delas, que é ao mesmo tempo a situação mais grave em termos de futuro para o concelho todo, o executivo não tem nada a esconder, mas trata-se de uma questão de princípio: Ninguém tem nada que andar a tentar meter o nariz nos assuntos do município e por isso, quanto menos informação disponível melhor é. Por conseguinte nada de dar o braço a torcer, para evitar perder a face. Está mal, mas para os do poder é assim que está bem. Há que mostrar quem manda. Trata-se em suma da postura autocrática, resultante daquela doença assaz frequente nos eleitos -quando sobem ao poder, mais tarde ou mais cedo o poder sobe-lhes à cabeça. Só resta então um remédio: Esperar pela primeira oportunidade e correr com eles, antes que seja demasiado tarde. Os coitados dos venezuelanos, por exemplo, que o digam. Não agiram enquanto ainda era tempo, e agora...
A outra hipótese pode ser ainda mais problemática, apesar de se resumir numa pergunta bem simples: Que tem o executivo tomarense a esconder? Conforme disse Lincoln (1809-1865), "Pode-se enganar alguém durante algum tempo, mas é impossível enganar toda a gente durante muito tempo." 
E pelo andar da carruagem...


sábado, 21 de abril de 2018

Que tempos! Que modos!

Mau começo nos tabuleiros

A escolha de uma tomarense para erguer a Festa Grande em 2019 despertou na minha pobre cabeça alguma esperança. Jovem, bem formada, docente de História, já com experiência da organização, cuidei (e ainda continuo com um fio de esperança) que  ia acontecer no próximo ano a grande mudança de que a organização da Festa dos Tabuleiros tanto carece, em prol de Tomar. Para deixar de ser uma muito pesada despesa e passar a ser uma boa fonte de valor acrescentado transaccionável. Em palavras simples, engrandecer Tomar, mas em euros, pois só com a fama não vamos longe. Pelo contrário, mostra a experiência que estamos a ficar cada vez mais para trás.
Foi por conseguinte um balde de água fria ler, no Tomar na rede, esta situação que tem tanto de tomarense como de condenável, pelo que indicia: "Maria João Morais revelou que já tem constituída a Comissão Central da Festa, mas não quis adiantar nomes." Ou seja, os contribuintes tomarenses, sobretudo aqueles que vão dar o dinheiro e o corpo ao manifesto, são afinal umas criancinhas, que só devem saber as coisas quando os adultos responsáveis e conhecedores julgarem conveniente. A informação atempada é como os doces. Faz mal à saúde, considera a mordoma.
A composição da Comissão Central dos Tabuleiros é em grande parte protocolar, ou pelo menos assim tem sido. Encabeçada obrigatoriamente por quem preside à autarquia, inclui o provedor da Misericórdia, o pároco, o comandante do regimento, e assim sucessivamente. Mais uma razão para temer pelo futuro, caso esta atitude da mordoma indicie mesmo a sua  linha de acção, no que toca à informação.

Lugar muito apetitoso

Li na capa d'O Templário que há sete candidatos para dirigir o Convento de Cristo, numa altura em que a comissão de serviço da actual directora já findou há mais de seis meses. Ainda estive tentado a usar "Sete cães a um osso" como título, mas depois resolvi abster-me, por uma questão de boa educação. Mas no fundo, em sentido figurado, bem entendido, é disso mesmo que se trata. Um lugar com um vencimento acima de três mil euros, mais mordomias, e os chefes a mais de cem quilómetros, não é coisa que abunde no vale nabantino.
Desconheço quem são os candidatos, dado que O Templário ainda  não chegou aqui. Mas aposto que serão, na sua grande maioria pelo menos, historiadores, arquitectos, arqueólogos e especialistas de restauro. Sucede que o Convento precisa, nesta fase, sobretudo de um especialista em turismo operacional, com formação e experiência reconhecidas internacionalmente, conhecedor do mundo e do terreno, capaz de prestigiar o monumento. Assim um Centeno do turismo.
E tal como seria insólito colocar um especialista desses a leccionar numa escola, a elaborar projectos de arquitectura ou a efectuar escavações arqueológicas, também não se entende muito bem o que pretendem fazer na gestão do Convento de Cristo, o principal e mais complexo monumento do país, excluindo Mafra, arquitectos, formados em História, arqueólogos, e por aí adiante.

Uma surpresa das grandes

Lê-se na capa do Cidade de Tomar, com foto em grande formato, "Músico Pedro Barroso recorda o 25 de Abril". 44 anos após a revolução dos cravos, temos assim o conhecido esquerdista Pedro Barroso com honras de primeira página no também conhecido semanário de esquerda Cidade de Tomar. Trata-se de uma evidente prova de grande tolerância. Que todavia não evita um desabafo: Bem dizia a minha mãe que lá mais para o fim do mundo íamos assistir a coisas extraordinárias. Esta do semanário dirigido por António Madureira é uma delas.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Uma notícia poluída sobre a poluição do Nabão

Cumprindo com qualidade a sua função informativa, a Rádio Hertz contactou a Agência Portuguesa do Ambiente, no sentido de obter esclarecimentos sobre a poluição do rio Nabão. Segundo a notícia que pode ser lida clicando aqui, na sua resposta, aquele organismo governamental escreveu a dado passo este belo naco de prosa: "Da análise já feita por um dos municípios às redes de saneamento, já foram detectadas algumas ligações incorrectas, [de esgotos domésticos ao colector de esgotos pluviais], situações que irão ser corrigidas."
Procurando informar-se com mais detalhe, Tomar a dianteira consultou a lista dos 308 concelhos portugueses, não tendo encontrado nenhum com esse nome de "um dos municípios". Razão mais do que suficiente para que a Rádio Hertz solicite um esclarecimento afinal bem simples: como estão em causa apenas Tomar e Ourém, é cuco ou mocho?

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Ainda na mesma mensagem do organismo governamental citado pela Rádio Hertz, sobressai esta magnífica construção frásica: "...a contaminação apresenta fortes indícios de contaminação fecal." Pudera! Era o que faltava, que a poluição não apresentasse indícios de poluição. Todavia, para além deste português que apresenta fortes indícios de poluição por deficiente manuseio, o importante era saber qual a verdadeira natureza dos indícios detectados: coliformes fecais? outros micro-organismos? de origem humana? de origem animal? de ambas?
Há um mês que a senhora presidente da câmara prometeu publicamente aos tomarenses o resultado das análises mais detalhadas, para daí a uma semana. Pelos jeitos as ditas estão a ser muito mais complicadas que o previsto, e por isso muito mais demoradas. 
Na tosca opinião de Tomar a dianteira, deve ser porque, no mapa, de Lisboa para Tomar é sempre a subir., mas na realidade acontece sempre o oposto. Da cidade templária para a cidade alfacinha, é que é sempre a subir. E o laboratório de análises deve ser na capital. Só pode.  Se calhar no próprio palácio de S. Bento...

Uma pequena correcção

Aqui há tempos, um daqueles artistas comentadores anónimos disse num blogue local que o administrador de Tomar a dianteira estava em Fortaleza, no Brasil, assim uma espécie de Reboleira. Enganou-se por pouco. Apenas uma letra. Realmente aqui no apartamento é a REBELEIRA, por razões evidentes.
E vive-se bem por estas bandas. 60 metros quadrados, ar condiconado no quarto, TV de 70X110 cms., ampla varanda virada a nascente, dois ascensores e um monta cargas, segurança vinte e quatro horas, com controle e registo de entradas, lugar de garagem, com porta automática accionada pelos seguranças a partir da portaria, tudo isto a menos de cem metros do mar. Da praia de Iracema.
O panorama aqui da varanda, numa manhã de chuva, é este:

(Clique sobre a foto, para ampliar)

À esquerda, prédios de habitação, em baixo a Rua Atualpa e o Hotel Alfa, logo a seguir o Hotel Ibis. À direita, lá mais ao fundo, do lado direito da Avenida Monsenhor Tabosa, o Hotel Coimbra e antes deste o Hotel Aquário, perto do Banco Bradesco.
Do lado esquerdo da imagem, naquela nesga entre o prédio azul e branco e o prédio branco lá mais em baixo, é possível aperceber o mar. Usando a tele-objectiva, o resultado é este (a coluna ao meio é o poste de iluminação pública):


Perguntará quem leu até aqui se ficam muito caras umas férias por estes lados de Fortaleza - Ceará. Nem por isso. O maior problema é a viagem de ida e volta, pela TAP. Contar entre 800 e 1.200 euros por pessoa, consoante a época do ano. O alojamento é barato, sobretudo agora que um euro rende 4,30 reais. Um bom quarto de hotel, com casa de banho  ar condicionado e próximo da beira-mar, rondará os 35 euros/dia para duas pessoas, com o café da manhã incluído. Mas há apartamentos privados, com todo o conforto, em regime de alojamento local, a 25 euros/dia, sem pequeno almoço, mas com capacidade para 3 pessoas.
A comida é boa e em geral acessível, contando que não venham à procura de sardinhas (que não há) ou de bacalhau. Uma refeição com um prato do fiel amigo, no restaurante João do Bacalhau, pode chegar aos 25/30 euros. Há porém selfservices a peso e livres. Nos primeiros, dependendo do apetite de cada um, uma refeição pode custar 5 euros, mais a bebida. Mas cuidado: a fruta é mais cara que em Portugal. Ainda ontem no Pão de Açúcar da Avenida da Abolição, um quilo de kiwis custava 19 reais = 4, 50€. Consequência do turismo. Afinal, há centenas e centenas de hotéis, por causa dos 6 quilómetros de praia e da temperatura entre 26 e 35 graus, durante todo o ano.
Quanto à cultura, além do espectáculo diário de humor na Piadaria, a meio quilómetro daqui fica o Centro Cultural Dragão do Mar, com biblioteca, ludoteca, conferências, teatro e dança de quando em vez, folclore/música aos fins de semana e cinema todos os dias. Todos os meses há concertos gratuitos ao ar livre, no aterro da praia de Iracema.
É assim a Reboleira do informado artista comentador anónimo. Até parece a ultracultural cidade nabantina. Haja paciência para aturar ignorantes!

Uma jornalista maltesa assassinada

O caso foi muito pouco moticiado em Portugal. Só agora, com a constituição de uma cadeia de 18 órgãos de informação internacionais, tendo como objectivo principal que o assassinato premeditado de uma jornalista não fique impune, se começam a encontrar mais referências. Por isso, pareceu importante reproduzir uma parte do editorial do LE MONDE, de 17/04/2018, subscrito pelo seu director, Jérôme Fenoglio.
Felizmente, no nosso país de brandos costumes, não há notícia de profissionais da informação assassinados. Convém todavia realçar que é cada vez mais difícil ousar escrever o que se pensa, dando a cara e o peito às balas, porque regra geral tanto os detentores transitórios do poder como os seus serventuários mais caninos se julgam acima da crítica, simplesmente porque têm o condão da infalilibilidade. Nunca cometem erros. O autor destas garatujas também gostava de ser assim.

Editorial do LE MONDE

"Daphne Caruana Galizia foi assassinada a 16 de Outubro de 2017. Uma bomba explodiu debaixo do assento do seu carro de aluguer. Um vizinho ouviu-a gritar. Morreu queimada. Esta jornalista maltesa de investigação, perseguia desde há anos a corrupção na ilha de Malta, e não hesitara em atacar as mais altas autoridades do seu país.
Daphne lutava com raiva controlada, num blogue bastante lido, no qual nem sempre respeitava meticulosamente as regras do jornalismo. Tinha pendentes várias queixas contra si por difamação, mas abriu pistas sérias de inquérito, designadamente a implicação de próximos do primeiro ministro maltês nos "Panamá papers", ou a conta offshore, na ilha de Jersey,  do chefe da oposição. Daphne era corajosa, polémica e muito pessimista. Tinha medo de sair de casa e escreveu, pouco antes de morrer, uma última constatação: "Doravante há vigaristas por todo o lado. A situação é desesperada."
18 órgãos de informação internacionais resolveram agrupar as suas capacidades, visando impedir que a morte de Daphne Caruana fique por esclarecer. É inaceitável que uma jornalista tenha sido atacada fora dos tribunais e das regras do direito, conhecidas e acatadas por todos.
65 jornalistas foram mortos no mundo em 2017, segundo a contagem de Reporters sans frontières. 27 tombaram em zonas de guerra. 39 foram friamente assassinados, entre os quais Daphne Caruana."

Jerôme Fénoglio, Le Monde online, 17/04/2018
Tradução e adaptação de António Rebelo UPARISVIII

Adenda de Tomar a dianteira 3

Na muito modesta medida das suas possibilidades, o autor destas linhas, que não é jornalista nem a tal pretende, tem procurado denunciar, em tom cordato e  neutro, o que lhe parece que não está certo, para um leitorado manifestamente pouco preocupado com a liberdade de informação ou o contraditório. Continuam agarrados ao estilo no qual foram educados -a chamada voz do dono, num contexto político tipo quero posso e mando. Daqui têm resultado alguns mal entendidos, felizmente sem consequências de maior. Apenas amuos, evidente falta de estofo político e algumas tentativas de assassinato de carácter, crê-se que sem grande convicção ou eficácia.
Ao contrário da malograda Daphne Caruana, o administrador deste blogue ainda está vivo. Porém, infelizmente e tal como ela, já está "queimado" por aqueles que se julgam acima do comum, quando a situação triste é aquela a que todos assistimos dia após dia...

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Comer à custa, enquanto outros se esforçam para engrandecer a cidade e o concelho

A escandalosa comezaina durante a Festa dos Tabuleiros

Quem mal não faz, mal não pensa, diz o povo. O autor destas linhas já por cá anda há muito tempo. Conheceu e conversou com João Simões, Fernando de Oliveira, Mota Lima, Bento Baptista, Nini Ferreira, Tó Carvalho, Manuel Bonet, Luís Santos e muitos outros. Quando já depois da guerra em Angola e da emigração em França, viu que o modelo da Festa grande continuava o mesmo, apesar de manifestamente desactualizado, tendo em conta a péssima situação financeira da autarquia, estranhou mas calou-se. Ainda não acontecera o 25 de Abril e naqueles tempos criticar publicamente não era assim muito saudável.
Nunca imaginou todavia que, quatro décadas mais tarde, perante tantos defensores da tradição e uma câmara apoiada por tantos tomarenses, a Festa dos Tabuleiros pudesse dar azo a uma situação tão escandalosa. Tanto mais que, quando se fala em compra de votos, os senhores eleitos mostram-se injustiçados. A verdade porém é que tem acontecido e este humilde escriba de nada sabia, pois nem imaginava que tal fosse possível.
Durante a Festa dos Tabuleiros, que é afinal um cortejo de oferendas a favor dos mais pobres, como bem demonstra a distribuição da peza, carne, pão e vinho, os que vivem do sistema -os eleitos e os que se consideram donos da autarquia- aproveitam para encher a pança à custa dos contribuintes. As imagens seguintes, do jornalista António Freitas, não deixam dúvidas. Havia mais gente para comer e beber que no início deste mês, para escolher a mordoma.







 

Enquanto centenas de tomarenses, do mordomo e seus ajudantes aos que ornamentam as ruas e aos que angariaram donativos de porta em porta, no âmbito da Comissão do peditório, passando pelos presidentes de junta e, sobretudo, pelas portadoras de tabuleiros, que alombam durante perto de quatro horas com 12 quilos à cabeça; enquanto isso, gente endomingada e manifestamente sem vergonha, convidada não se sabe bem por quem, nem porquê -embora se veja para quê- enche a pança à custa do orçamento, em pleno salão nobre dos Paços do concelho. É um escândalo, que chega a ser ignóbil, tão evidente é a compra de votos. Numa câmara que tem uma dívida global superior a 22 milhões de euros. E que paga aos credores com mais de seis meses de atraso.
E tudo isto aconteceu em 2015, durante o mandato de uma maioria relativa PS, apoiada pela CDU. Por isso a actual maioria absoluta tem tantos adeptos. Por isso o obsoleto modelo organizativo da Festa  grande continua a ser tão defendido por alguns. É que já cheira a nova comezaina!
Bom proveito. Mas depois não se queixem. É bem sabido que as lautas refeições provocam quase sempre problemas gástricos e não fazem nada bem à saúde. É só esperar para ver.
No seu texto no Facebook, António Freitas diz que só faltou o caviar. Todavia, pelo que mostram as fotos, mal abriram as portas, foi logo um toca a aviar, antes que se fizesse tarde.
Quanto às portadoras de tabuleiros -afinal o principal pilar da festa- contentam-se com uma sandes, embrulhada em plástico, e uma garrafita de água. Ou meia caneca de tintol, escondido nalgumas enfusas.
Não está mal, não senhor. Está péssimo! E devia envergonhar tanto quem compra como quem se deixa comprar. Mas se até o senhor presidente nacional do partido, e líder da bancada parlamentar do PS, sustenta que pedir o reembolso de bilhetes de avião pagos pela Assembleia da República, nada tem de ilegal ou contra a ética, e que sempre assim se tem feito, estamos conversados. Por este caminho, não tardará uma década estamos todos atascados na dita e mal cheirosa até ao pescoço.
Infeliz país que tais filhos tem!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Duas realidades em rotas de perdição

Parecem-me duas realidades paralelas, ambas em rotas de perdição. Falo da realidade autárquica tomarense, com todos os seus satélites e outros dependentes, e da realidade dos outros, a chamada sociedade civil. Conquanto estreitamente imbricadas, percebe-se que na verdade estão separadas por um fosso, cada vez mais largo e profundo. Ambas em rota de perdição, por manifesta inviabilidade.
Vivem no mesmo contexto geográfico e político, falam grosso modo a mesma língua, vestem-se de forma semelhante, porém têm valores cada vez mais díspares. O principal é a noção de tempo, com todas as suas implicações. Para os integrantes da realidade autárquica, um ano de espera corresponde a uma semana, ou nem isso. Têm o vencimento garantido ao fim do mês. Para os outros, a sacrificada e explorada sociedade civil, que não vive do Estado, uma semana é um ano, porque têm de deitar contas à vida. Cada fim de mês é um problema.
Sem  concorrência, graças ao monopólio que garante também clientela e receitas fixas; sem patrões a quem imperativamente prestar contas; eleitos e funcionários superiores  em geral usam e abusam da situação, arranjando sucessivamente as desculpas e as argumentações mais alambicadas, para tentar justificar aquilo que a população começa a perceber cada vez melhor, mas não pode dizer, porque o seguro morreu de velho: No concelho de Tomar, a realidade autárquica só atrapalha, e atrapalha cada vez mais.
Contrariando de antemão os instalados que vão alegar má-língua, crítica sistemática, e mais não sei quê, não sei quantos, seguem três exemplos actuais, verificáveis por quem queira e tenha capacidade para tanto:


Exemplo 1

O inferno de Palhavã

Os habitantes desta localidade, da área urbana de Santa Maria dos Olivais, lamentam-se amargamente.  A via que atravessa a povoação está intransitável há mais de um ano e já nem merece a designação de rua ou estrada, tal o desconforto, tanto para habitantes como para os simples atravessantes. O nosso colega tomar na rede faculta um retrato completo da situação, que pode consultar aqui.
Pois apesar de tanta miséria estrutural, os defensores da realidade autárquica que temos, em vez de providenciarem com urgência umas carradas de serrisca ou de tout venant, para remediar provisoriamente a situação, tapando os buracos, já conseguiram arranjar três bodes expiatórios  - O Tribunal de contas, a EDP e os SMAS, conforme se pode ler no tomar na rede nos comentários anónimos, mas de origem conhecida. O executivo camarário não tem culpa nenhuma, está claro. O costume. Entretanto a desgraça continua.

Exemplo 2

O PDM e a revisão que nunca mais acaba

Na reunião do passado dia 2 do corrente mês de Abril, os vereadores do PSD apresentaram uma declaração de voto, da qual consta isto:

"O processo de revisão do PDM tem muitos anos. Iniciou-se em 2007, com base numa cartografia homologada de 2005, na posse da Câmara de Tomar.
Passaram muitos anos e nesta fase a DGT-Direcção Geral do Território sugeriu a utilização da cartografia existente em 2015... ...No entanto essa cartografia não foi considerada ... ...e a sua introdução nesta fase poderá pôr em causa todo o trabalho desenvolvido até agora."

A situação é de tal forma indefinida que os próprios autarcas PSD, em princípio com acesso a todos os documentos, acabaram por inserir três perguntas na antes citada declaração de voto:

1 - Qual o ponto real da situação da revisão do PDM de Tomar?

2 - Qual o motivo de se estar a trabalhar com uma cartografia desactualizada?

3 - Qual a data prevista para a conclusão da revisão?

Que se saiba, a actual maioria ainda não respondeu, sendo mesmo pouco provável que alguma vez o venha a fazer de forma cabal. Seja como for, onze anos para rever o PDM de um pequeno concelho, até agora sem nada de substantivo, levam um leigo na matéria, como o autor destas linhas, a perguntar: Não seria melhor, mais rápido e mais económico, encomendar a quem saiba, mediante prévio concurso público, um novo PDM? Certo, mesmo certo, porque demonstrado pela experiência recente, é que com coisas assim, só gente desgarrada e/ou mal informada pode resolver investir em Tomar. E sem investimento suficiente... a desgraça continua e agrava-se.

A reunião camarária aqui noticiada no mediotejo.net, aconteceu em 21 de Junho de 2016. A declaração de voto dos eleitos PSD foi lida na reunião do executivo  de 02 de Abril de 2018. Quase dois anos mais tarde.
Confuso? Sem dúvida. Trata-se visivelmente de um dos cancros da autarquia, a justificar o conhecido provérbio "Aquilo que nasce torto, tarde ou nunca se endireita".

Exemplo 3

Os xilófagos do Convento de S. Francisco

Desde pelo menos Maio do ano passado que se ouve falar da requalificação do Convento de S. Francisco. Soube-se agora, um ano depois, que ainda não há projecto, que o gabinete contratado (o mesmo da desgraça da Levada) ainda só entregou o projecto de arquitectura e que há divergências sobre as áreas a recuperar, bem como sobre o custo final. A autarquia pretende obras para 800 mil euros, o citado gabinete aponta para 1,2 milhões de euros. 
Como se tudo isto não bastasse, só há um mês, durante uma sondagem parcial, os técnicos superiores da autarquia concluiram que toda a cobertura do ex-convento está em risco de ruir, devido a infestação por xilófagos, nome técnico para bicho da madeira.
E só agora, quase um ano depois, é que chegaram a semelhante conclusão? Abençoada terra, que consegue sobreviver, apesar de tais servidores públicos.

Conclusão
Os aproveitadores do sistema, aqueles a quem interessa que nada mude, ou que mude apenas qualquer coisinha, para tudo poder continuar na mesma, como escreveu Lampedusa, vão alegar decerto que são outros os responsáveis e que se trata de casos isolados, desgarrados do seu contexto. Mentem, como sempre, com quantos dentes têm na boca. Uns deliberadamente, outros por ignorância e seguidismo.
Na verdade, atrasos intoleráveis em qualquer outra autarquia, erros clamorosos, falta de planos adequados e impasses evidentes, são a marca da casa da realidade autárquica que temos. E que já vem de longe. Vicios antigos que se preservam, porque tal é do interesse de alguns.
Só falta saber até quando vai ser possível trilhar tal caminho, sem que os tomarenses digam de sua justiça. Ou deixe de haver recursos para sustentar tantos apoiantes.
É bem sabido que casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Por enquanto ainda vai havendo dinheiro para "o pão". Mas depois? Logo se vê?