sábado, 7 de abril de 2018

Gestão "criativa" na autarquia tomarense

Não. Não se trata de uma opinião. É mesmo uma notícia, devidamente documentada. Aqui vão os factos e os documentos:
Em 30 de Outubro de 2017, o Conselho de administração SMAS-Tomar, numa reunião ordinária presidida pela sua presidente, Anabela Gaspar de Freitas, deliberou propor à Câmara a contratação, via Orçamento municipal, de um empréstimo bancário para "reforço orçamental, que viabilize o avançar das empreitadas...":

Figura  1

Cinco meses mais tarde, em 12 de Março de 2018, o mesmo Conselho de administração, desta vez presidido por Helder Henriques, na ausência não justificada ou sequer mencionada na acta da presidente Anabela Freitas, deliberou anular a deliberação supra e propor à autarquia a contratação de um empréstimo bancário de 1 milhão e 100 mil euros, já não para viabilizar o avançar das empreitadas, mas para assegurar pagamentos a fornecedores permanentes:


Figura 2

Na reunião do executivo camarário de 2 de Abril, tendo o vereador Luís Ramos, do PSD, solicitado esclarecimentos sobre o proposto empréstimo, a senhora presidente lançou-se numa emaranhada explicação de carácter técnico, que a jornalista do mediotejo.net, resumiu em directo da forma seguinte:

Figura 3

"O objectivo passa por lançar as empreitadas já contratualizadas", resumiu a referida profissional. A ser assim, estará tudo certo e dentro da legalidade. A mim, contudo, simples cidadão cliente forçado dos SMAS do nosso descontentamento, não me parece que assim seja. Impõem-se, no meu tosco entender, três perguntas:

1 - Se o objectivo é mesmo financiar empreitadas, porque resolveram anular a deliberação de 30 de Outubro de 2017, que dizia exactamente isso? (Figura 1)

2 - Qual a utilidade prática de indicar que um espréstimo bancário se destina a pagar a fornecedores permanentes(despesas correntes), (Figura 2) quando afinal se trata de financiar empreitadas (despesas de investimento)? (Figura 3)

3 - Sendo a senhora presente uma excelente oradora, porque avançou com uma explicação tão complexa e confusa ao vereador social-democrata?

Para não chocar inutilmente os leitores, usou-se, no título supra, a expressão "gestão "criativa". Manda porém a verdade dizer que, sob reserva de melhores esclarecimentos por parte da senhora presidente, os tomarenses estão a ser enganados mediante uma vigarice administrativa, devidamente documentada acima, cujos objectivos finais estão por determinar, e que, mais cedo ou mais tarde, vamos todos ter de pagar. 
Já no século passado, António Variações cantava que "Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que as paga." Neste caso, o corpo são os consumidores forçados dos SMAS, que funcionam em regime de monopólio no concelho.
Numa outra autarquia, deste ou de outro país moderno, seria normal haver agora lugar para explicações detalhadas e esclarecedoras à população. Logo seguidas de um inquérito administrativo, para não deixar quaisquer dúvidas. Mas como estamos em Tomar...
Uma nota final: O governo lá vai garantindo que os impostos não aumentaram. Entretanto,  a Taxa de recursos hídricos - TRH, que todos pagamos, incluída no recibo da água, passou para 0,029€/metro cúbico, o que representa um acréscimo de 12,5%. 
Com governantes tão respeitadores da verdade, só podemos ir longe. O problema, para eles e para todos nós, é que "Há mar e mar, há ir e voltar".







sexta-feira, 6 de abril de 2018

Há Festa dos Tabuleiros em 2019

O mais fácil está feito

Tal como aqui se vaticinou, "o povo de Tomar", ou seja umas poucas centenas de pessoas, reunidas para o efeito no Salão nobre dos Paços do concelho, apoiaram por aclamação a realização de mais uma Festa grande em 2019. E quando a senhora presidente da Câmara, por inerência de função, perguntou se havia algum candidato para o cargo de mordomo, houve aplausos para Maria João Morais, que logo a seguir fez uma curta intervenção convencional e consensual. Houve depois foto com João Victal, o mordomo anterior, fixando a passagem de testemunho para a posteridade. Pode portanto escrever-se que o mais fácil está feito e que correu tudo muito bem. O pior é o resto...
A agreste maratona até Julho de 2019 vai começar agora. E vai ser necessária muita coragem e muito empenhamento de todos para que a festa tomarense possa sair mais uma vez prestigiada. O anterior mordomo, tomarense até à medula, mas também cidadão experiente e por isso consciente, já deixou escrito o seu recado para os sucessores, que aqui reproduzo com muito gosto, para que, na modesta capacidade deste blogue, não passe despercebido.
Em declaração ao Cidade de Tomar, afirmou: "O estado de espírito de quem entrega a festa é o de que a entrega em condições. A Festa dos tabuleiros não pode ser muito mexida." E logo mais adiante desejou aos sucessores "Coragem para continuar com o legado que nos deixaram, sem ligar muito ao que circula à volta. Foi o que me disseram a mim. Não vai ser fácil..." (Cidade de Tomar, 06/04/2018, pág. 7)
Realço com satisfação duas expressões, que considero importantes para o futuro da festa e do concelho: "A Festa não pode ser muito mexida" e "não ligar muito ao que circula à volta". Não pode ser muito mexida, mas convém alterar o fundamental, sem contudo trair o essencial. Jamais um exército conseguiu vitórias sem uma boa intendência. E a Festa dos tabuleiros nunca teve uma intendência capaz. O João Victal sabe isso melhor que ninguém. Ele que, meses e meses após o cortejo e o bodo, continuava aguardando a entrada de umas verbas prometidas, para então poder apresentar finalmente as contas...
Não ligar muito ao que circula à volta, mas também nunca perder o contacto com todos aqueles que apenas desejam o melhor para Tomar e para os tomarenses. Tal como os humanos, os animais e as plantas, também as instituições nascem, crescem, evoluem, definham e morrem. É a regra. E quando não evoluem em tempo oportuno, mirram e morrem mais rapidamente.
Consoante o modo como for organizada, a Festa dos tabuleiros pode passar a ser um excelente motor para o crescimento económico de Tomar ou, pelo contrário, aquilo que tem sido até agora -um encargo cada vez mais pesado para um orçamento municipal que já conheceu melhores dias. 
Estou a repetir-me, bem sei. Mas há pessoas tão obstinadamente surdas e cegas...

Portugal visto por residentes franceses

Leitura recomendada a alguns técnicos superiores da autarquia, quanto a tempos, prazos, burocracia...

Numa reportagem que os interessados podem consultar aqui, (caso saibam ler francês e sejam assinantes), o LE MONDE dá a conhecer as reacções de franceses que escolheram Portugal para viver. Há duas grandes categorias, os pensionistas e os jovens empreendedores.
O título da peça é prometedor: "Franceses cada vez mais atraídos pelas sereias da vida lisboeta." Todavia, a chamada de título já anuncia algumas reservas: "Impostos mais baixos, qualidade de vida, efervescência lusitana... há cada vez mais franceses a fixar-se em Lisboa. Mas o paraíso sonhado nem sempre comparece ao encontro marcado."
Segue-se um belo texto informativo, assaz longo, do qual se respigaram unicamente as opiniões negativas, que coincidem em geral com as nossas próprias queixas. Ora leia:
"O eldorado português? Uma simples frase feita, se imaginam que é  tudo mais fácil por aqui. Trabalhamos como loucos. A burocracia põe-nos a cabeça à roda. É um bocado a selva." (Anne, 30 anos, advogada, parisiense, agora fornecedora de refeições ao domicílio).
"Há segurança, qualidade de vida e simpatia dos portugueses. Mas cuidado! Os medicamentos custam cinco vezes mais caro que em França." (Lucien Muller, reformado, a viver em Alcochete)
"Teoricamente, o serviço "Empresa na hora" permite criar uma empresa rapidamente. Na prática, levou-nos mais de uma semana, e provocou-nos algumas dores de cabeça. É impossível completar o processo sem a ajuda de um bom advogado." (Dorian Liégeois, 35 anos, director de empresa start-up)



"Fomos conquistados pela atmosfera da cidade e resolvemos comprar uma casa em construção. Um sonho e também o início de todas as chatices. As obras atrasaram-se e causaram-nos suores frios. Terminou tudo bem, mas aprendemos muito sobre as diferenças culturais. Aqui em Portugal a relação com o tempo e com os prazos é diferente. Convém compreender português e conseguir a colaboração de bons profissionais, nomeadamente um contabilista." (Greg Henriques e esposa Virginie, 35 anos, quadros superiores)
"O erro clássico é imaginar que em Portugal tudo funciona tão bem como em França." (Magali Jumilus, 29 anos, criadora de moda)
No final da peça, a própria jornalista Marie Charrel, correspondente do Le Monde em Madrid, acaba por  dar também  a sua opinião: "O aumento do custo de vida e a falta de lugares no Liceu francês, por exemplo, podem vir a provocar a redução  do contingente francês."
"É o melhor que nos pode acontecer. Vão ficar só os que gostam mesmo de Portugal", segredou-nos um francês da Baixa, já com uma atitude bem portuguesa."

Marie CHARREL, Le Monde Economie, 05/04/2018, às 06H16
Resumo, tradução e adaptação de António Rebelo, UPARIS VIII

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O homem que matou D. Quixote

Lembra-se do escândalo das filmagens, que provocaram estragos no Convento de Cristo? Então, caso queira ficar a compreender melhor o que se passou, faça favor de ler o que segue. Leva algum tempo, porém vale a pena, porque é jornalismo de alto gabarito, coisa cada vez mais rara nos tempos que correm.

"O homem que matou D. Quixote, o projecto louco de Terry Gilliam, continua amaldiçoado

É a Arlésienne da 7ª arte. O homem que matou D. Quixote, do realizador americano, está pronto para estrear nas salas. Mas continua bloqueado. (A Arlésienne é o título de um conto de Alphonse Daudet, que viveu entre 1840 e 1897, que se usa como figura de estilo, para mencionar uma personagem da qual se fala, mas que nunca aparece. Nota do tradutor.)

LE MONDE, 04/04/2018, 10H06, Gérard DAVET, jornalista, e Fabrice LHOMME, jornalista
Tradução e adaptação de António Rebelo, UPARISVIII

"É melhor confiar sempre  em Sancho Pança, fiel servidor do peculiar cavaleiro D. Quixote, os dois heróis da obra de Miguel de Cervantes. "Cada um é como Deus o fez, e muitas vezes bem pior", sentenciou a dada altura o criado, pragmático como poucos.
Por ter negligenciado tal ponto de vista, eis que duas grandes figuras da sétima arte continuam a afrontar-se. De um lado o mítico produtor Paulo Granco, 67 anos, com mais de 300 filmes de autor no seu activo. Do outro, o legendário realizador Terry Gilliam, 77 anos, criador inspirado de Brasil e de O exército dos doze macacos,  bem como genial inspirador dos Monty Python. O último episódio do duelo vai ter lugar quarta-feira, 4 de Abril, perante o Tribunal da Relação de Paris.
Aos pés destes dois gigantes do cinema mundial, uma só vítima: um filme O homem que matou D. Quixote, um projecto acarinhado por Terry Gilliam desde há 25 anos, mas várias vezes enterrado e ressuscitado. Até chegou  a dar origem a um documentário, Lost in La Mancha, (2002), mostrando uma primeira tentativa -calamitosa- de rodagem em 2000, com Jean Rochefort e Johnny Depp. Tudo se conjugou então contra Terry Gilliam, até mesmo a sua própria negligência: chuva diluviana, Rochefort doente, sobrevoo constante do local de rodagem por aviões militares... Sem contar os cavalos tão famélicos como Rossinante, o do "verdadeiro" D. Quixote...
E o azar continua: finalmente rodado e montado em 2017, pronto para a distribuição, O Homem que matou D. Quixote está agora bloqueado por causa do violento conflito entre Branco e Gilliam. O Festival de Cannes está pronto para mostrar o filme. Vai a justiça conceder-lhe essa oportunidade?

"Não sou nenhum santo"

E no entanto, tudo parecia resolvido, ou quase... Foi no Festival de Berlim, em Fevereiro de 2016: Paulo Branco, com ar de pirata cansado, que gosta de meter o nariz por todo o lado, entre duas corridas de cavalos -a sua outra paixão além do jogo- foi abordado por um produtor italiano: Porque não reassumir a produção do Homem que matou D. Quixote? Único óbice, há que disponibilizar 16 milhões de euros, o orçamento aquém do qual Terry Gilliam não aceita descer para para realizar o seu velho fantasma. Com Paulo Branco é tudo muito simples, pelo menos no início.  Já financiou tantos filmes, com habilidades e outros artifícios... "Não sou nenhum santo, reconhece. Há várias lendas sobre a  minha pessoa, que correm no mundo do cinema, e algumas são verdadeiras..." Mas dispõe de uma enorme rede de relações. Manuel de Oliveira, Raul Ruiz ou Chantal Akerman poderiam confirmar, se ainda estivessem vivos. Resumindo, vamos a isso. Um filme considerado impossível? Excitante. Arranjar 16 milhões de euros em seis meses? Nada de extraordinário.
O argumento está pronto e os planos de rodagem quase concluídos. Também, já passou tanto tempo... O filme deve estar concluído em onze semanas, em Portugal e em Espanha, no Outono de 2016. O Convento de Cristo, na cidade portuguesa de Tomar, foi reservado para a rodagem. Os actores principais são contratados: Adam Driver, cuja reputação está no topo de Holywood, e Michael Palin, um dos fundadores dos Monty Python. Driver vai receber 610 mil euros, Palin 285 mil e Gilliam 750 mil. A filha, Amy Gilliam, é contratada como directora de produção. Estão previstos cursos de equitação, em Londres e Nova Iorque, em regime de urgência, para Driver e Palin.
"Eu avançava de modo prudente, recorda Paulo Branco, porque na maior parte dos filmes de Gilliam os orçamentos explodiram. Mas compreendi logo que ele odiava os produtores. Comecei então a ter dúvidas, numa altura em que assegurava grande parte do financiamento. Na parte contrária, a mesma desconfiança. "Branco começou a reduzir despesas, sem prevenir Gilliam" garante o advogado Sarfaty, contratado pelo realizador britânico de origem americana, que acrescenta: "Tinham-nos avisado. Branco é autoritário, carismático, autocrata e pouco fiável. Já enterrou várias empresas... E não tinha o dinheiro."
É um facto que Branco já teve várias insolvências, que de resto admite abertamente. A produção de filmes é um desporto de alto risco. Mas conseguiu montar em 2012 uma outra longa-metragem de grande orçamento: Cosmopolis, de David Kronenberg, uma referência. O que dá garantias a Gilliam num primeiro tempo.
No entanto, tudo indica que, desde o início, a desconfiança era mútua. LE MONDE acedeu aos mails trocados entre os agora duelistas e garante que são muito elucidativos.

Terry Gilliam, uma promessa de loucura




Primeiro foi Michael Palin a queixar-se ao seu amigo Gilliam: Afinal Paulo Branco oferecia-lhe apenas 100 mil euros. O realizador inglês escreve logo, em 24 de Março de 2016, ao seu produtor: "A oferta dos 100 mil euros a Palin foi recebida como uma bofetada,  e foi ainda mais desagradável para mim tentar acalmá-lo. Não te conheço ainda o suficiente para confiar em ti ou não confiar."
O relacionamento torna-se mais tenso. E o orçamento? Paulo Branco vai fazendo o possível. Solicita todos os seus amigos. Jack Lang, antigo ministro francês da cultura, tenta convencer Delphine Ernotte, a patroa de France Télévisions, Gilles Pélisson, o responsável máximo de TF1, ou Vincent Bolloré, de Canal+, a ajudar o amigo português.
Paulo Branco tenta afirmar a sua posição, num mail a Gilliam: "Este projecto, para que se torne uma realidade, deve ter um verdadeiro e único produtor, um capitão. (...) Tudo numa perfeita transparência e permanente discussão orçamental." O "capitão" é naturalmente Paulo Branco Gilliam, cheio de vontade de fazer o filme, resolve ignorar os conselhos dos seus amigos. Escreve-lhes a 26 de Março de 2016, nestes termos: "Obrigado a todos pelos vossos conselhos, advertências e ameaças, mas a única maneira de fazer o filme este ano é lançar-se na loucura...com o Paulo." Nunca terá imaginado ter tanta razão naquilo que escreveu.
Em 29 de Abril de 2016, Gilliam cede os seus direitos de autor-realizador a Alfama, a sociedade de Paulo Branco, mediante um contrato sólido, no qual o produtor se compromete a  respeitar a transparência e os desejos do criador. Antes, em 31 de Março de 2016, Alfama tinha também adquirido os direitos do argumento, junto do produtor britânico RPC. Tudo parece portanto correcto em termos jurídicos.

Multiplicam-se os conflitos

Em 18 de Maio de 2016, no Festival de Cannes, acontece a revolta. Gilliam e Branco anunciam o projecto à imprensa. Apesar de Gilliam não ter feito nada de notável desde há tempo, o nome é uma promessa de loucura. Uma obra-prima é sempre possível, mesmo aos 77 anos. Sobretudo com Paulo Branco, o instigador de milagres. Mas nos bastidores, as coisas vão de mal a pior...
Paulo Branco mostra uma impetuosidade que incomoda. Amazon, que vai investir 2,5 milhões no filme, começa a desconfiar do português e decide retirar-se. Precisamente no dia 17 de Maio de 2016, na véspera da conferência de imprensa, conforme comprova este mail de Matthew Heintz, um dos dirigentes de topo de Amazon, furioso por ter constatado que a sua empresa já era citada, quando ainda não havia qualquer contrato assinado: "Nunca demos o nosso acordo para que fosse tornado público o nosso compromisso... Ainda que admiremos as opções de Paulo Branco e o seu palmarés, tendo presentes os contactos já tidos com ele, não desejamos prosseguir as negociações."
Desagradável. Tanto mais que Paulo Branco rompeu também as negociações com outros investidores pressentidos. A sociedade Kinology, por exemplo. Num mail lapidar, esta empresa afirma "Não faremos o filme juntos". E os conflitos vão-se multiplicando. Caso a caso, Paulo Branco decide, de forma autoritária: a cabeleireira é demasiado cara, o assistente-realizador também, tenta impôr a sua irmã como encarregada de guarda-roupa, discute com Amy Gilliam, recusa Michael Palin, demasiado velho e que não sabe montar a cavalo. Quer também filmar em formato digital, para facilitar os efeitos especiais, mas Gilliam prefere o clássico formato 35 milímetros. E depois há ainda as datas que já não convêm: chove em Outubro, é mlhor aguardar pela Primavera de 2017, e por aí fora.

Um odor de "Panamá papers"

O filme tem de entrar em pré-produção, mas não há condições. "Vai sendo tempo de pôr as cartas na mesa (...) Tenho infelizmente a impressão que é tudo uma questão de dinheiro, ataca Gilliam. "Não aceito esse tipo de comportamento de menino mimado", responde Paulo Branco.
Em 10 de Junho de 2016, organiza-se uma reunião para tentar salvar o filme. Sem resultado. Gilliam pede garantias financeiras. "Vou ter de anular tudo imediatamente e mandar-vos todos para casa", barafusta Paulo Branco. Em 6 de Agosto cumpre a ameaça. Por mail, ordena a Gilliam que aceite as suas condições. Em resumo, Paulo Branco deverá ser o único patrão, incluindo na escolha das equipas técnicas.
Inaceitável para Gilliam. "Todas as tuas exigências são totalmente incompatíveis com o contrato escrito que assinei", responde a Branco, lamentando também o seu "comportamento desleal e enganador". Amy Gilliam, por seu lado, fala menciona num mail o "comportamento de um tirano e de um intimidador". Reacção imediata do produtor: suspensão imediata e ilimitada da realização do filme, mas prolongando os direitos sobre o argumento. É de novo a maldição de D. Quixote.
Protegido pelos seus contratos, sólidos como betão armado, Paulo Branco aguarda a contra-ofensiva. Que não tarda. São apresentadas queixas judiciais em Espanha, na Grande Bretanha e em França, tendo em vista que Gilliam recupere os direitos de autor, de realizador e de argumentista. Sem eles é difícil relançar o projecto. Mas os dois primeiros julgamentos, em 2017, em Paris (Maio) e Londres (Dezembro), dão razão a Paulo Branco.
Apesar disso, Gilliam insiste e resolve fazer o filme. Consegue um outro produtor, reúne os 16 milhões de euros e inicia a rodagem na primavera de 2017, com Jonathan Price que substitui Palin. "Seguiu todas as minhas recomendações, todos os meus conselhos", indigna-se Paulo Branco, que se considera esbulhado. "Por isso fui ver o seu contrato, depositado no CNC." Foi aí que descobriu algo bem curioso: "Gilliam solicitou o pagamento de 750 mil euros no Panamá! É isto um ídolo da esquerda britânica, o meu acusador? Eu nunca teria aceitado depositar o dinheiro no Panamá! E como é que nestas condições beneficiou de fundos públicos, nomeadamente de Eurimages?"
Realmente, Terry Gilliam é detentor, desde 1980, de uma sociedade, a BFI, com sede no Panamá, por intermédio do gabinete Mossack Fonseca, no âmago do escândalo dos "Panamá papers"... "Assumo e é perfeitamente legal em relação aos fisco britânico", assegura o advogado de Gilliam
"Branco bloqueia o filme e impede a sua estreia porque é um perverso que orquestrou um assalto organizado."

Gilliam é louco

Várias mediações foram já propostas tanto por Paulo Branco como pela sua advogada, Claire Hocquet, que exigem 3,5 milhões de euros de indemnização, para autorizar a exploração comercial do filme. "Se resolveram avançar mesmo sem acordo, usaremos todos os recursos do direito", previne a advogada. "Não vou ceder, insiste Paulo Branco. Agiram como se eu estivesse acabado, ultrapassado. Gilliam é um louco e um mitómano."
"Paulo Branco faz tudo para dinamitar a estreia do filme", replica Sarfati, o advogado de Gilliam. "O  sentido da sua chantagem é este: Ou me pagam 3,5 milhões de euros, ou destruo o filme e destruo Gilliam."
Cabe agora aos magistrados do Tribunal da Relação de Paris decidir, meditando talvez este aforismo de Cervantes: "Aves com as mesmas plumagens, voam sempre nos mesmos bandos."

Nota final do tradutor

Conforme neste blogue se escreveu na altura, o incidente das filmagens no Convento de Cristo, que alarmou a opinião pública nacional, na sequência de um programa na RTP1, foi afinal apenas mais um pequeno episódio orquestrado por Paulo Branco, na sua longa guerra contra Terry Gilliam.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Erros jornalísticos lamentáveis


"Câmara de Tomar disponível para ajudar a pagar obras na igreja de São João Baptista"


Câmara de Tomar disponível para ajudar a pagar obras na igreja de São João Baptista

"O município [de Tomar] informou que também está disponível para se juntar à Fábrica Paroquial da Igreja, dona do edifício, para que esta possa aceder ao IFRRU (Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas). A Igreja de São João Baptista foi construída no final do século XV e tem pinturas, no seu interior, datadas do século XVI. Foi classificada como Monumento Nacional em 1910."

O conceituado semanário regional O Mirante publica, na sua edição online de hoje, uma notícia da qual Tomar a dianteira 3 copiou o título e o final. Isto porque se trata de dois erros jornalísticos lamentáveis, conforme se passa a demonstrar.
De acordo com o próprio corpo da notícia, a Câmara de Tomar não "está disponível para ajudar a pagar obras na igreja de S. João". Está disponível, isso sim, para eventualmente se candidatar a fundos europeus destinados a obras de recuperação do património, o que não é bem a mesma coisa. A estrada da Beira não é a beira da estrada.
Quanto à conclusão da notícia, é simplesmente de bradar aos céus, mais a mais tratando-se da Igreja. A Câmara de Tomar estará disponível para aquilo que melhor entender. Não poderá contudo juntar-se à Fábrica Paroquial da Igreja, dona do edifício, porque se trata de uma rotunda falsidade, não podendo o município particpar em acções manifestamente contrárias à verdade e portanto à legalidade dos factos.
Tratando-se da Igreja de S. João Baptista, a história é bem conhecida em termos de propriedade. Desde que ficou concluída a sua ampliação, no primeiro quartel do século XVI (e não no último do século XV, como refere a notícia), passou a ser capela real. Primeiro de D. Manuel e depois dos seus sucessores, numa localidade dependente do prior da Ordem de Cristo, por sua vez dependendo directamente de Roma, em virtude do provilégio templário da diocese nula.
Em 1834, o templo foi nacionalizado, tal como todos os outros, passando a monumento nacional, património do Estado, em 1910. Só mais tarde, em virtude da Concordata entre Portugal e a Santa Sé, a Igreja católica passou oficialmente a poder usar S. João Baptista sem quaisquer encargos materiais, leia-se sem pagar renda. Por conseguinte, não só a Comissão fabriqueira não é dona do templo, como nunca o foi, desde a sua fundação, pelo que a ideia retrógrada do confisco neste caso não colhe. A República, como herdeira legal da coroa, herdou também as capelas antes reais.
Noutra terra e noutro país, o assunto seria agora devidamente esclarecido na informação local e regional. Tratando-se de Tomar, geralmente terra de meias tintas, o mais provável é que fique tudo como está. Para que eventualmente, um dia destes, algum beato mais exacerbado venha garantir publicamente que sim senhor, a Igreja de S. João pertence à Igreja, pois em Abril de 2018 O Mirante noticiou que "o município de Tomar informou que também está disponível para se juntar à Fábrica Paroquial da Igreja, dona do edifício", e ninguém desmentiu... 
Por vezes é assim que se consegue reescrever a História.


Tomar a dianteira 3 apoia

É quase unânime a opinião segundo a qual este blogue é do contra. Compreende-se. Numa terra com uma população cujas principais qualidades não são de certeza a participação cívica, nem a leitura, nem a análise, quem age de forma diferente só pode ser uma ovelha ranhosa. Que destoa no rebanho. Com todo o respeito pelas outras. Isto para acrescentar que, apesar dessa reputação, de tempos a tempos, Tomar a dianteira também é a favor. 
De resto, pensando bem, quando se é contra, é-se implicitamente a favor do oposto. Um exemplo recente: Quando aqui se escreveu questionando o facto de, contrariando a tradição, não terem desmontado o açude do Mouchão, estava-se a apoiar de facto a solução oposta -a desmontagem do açude. Outro tanto acontece quando se alerta nomeadamente para a falta de sanitários públicos. Subentende-se que se apoiaria a construção ou reabilitação desses equipamentos, caso houvesse vontade municipal para tanto.

Sanitários próximos de Sta. Maria dos Olivais

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Sanitários antigos na Cerrada dos cães

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Sanitários da Rua da Fábrica de fiação

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Porta norte dos novos sanitários da Cerrada dos cães

Pois agora é disso mesmo que se trata. De sanitários e de apoio explícito e antecipado. Na reunião de ontem, 02 de Abril, o executivo municipal aprovou por unanimidade os pontos 10 e 11 da OT, determinando a transferência para a Junta de freguesia urbana, em regime de comodato, das sentinas públicas junto à igreja de Santa Maria e na Rua da Fábrica da fiação. 
Crê-se que a ideia terá sido do senhor Augusto Barros, presidente da junta urbana. Tratando-se de um  autarca capaz, mais de  obras que de palavras vãs, resta apoiar aplaudindo, e aguardar que as coisas melhorem. O que também não é assim muito difícil, tendo em conta a triste situação actual.
Aproveitando o ensejo e mesmo tendo em conta que alguns consideram tratar-se de um assunto de caca, aqui se pede à autarquia e ao senhor Augusto Barros que transfiram também para a Junta os antigos sanitários da Cerrada dos câes, lá em cima, junto ao castelo. Estão fechados desde a abertura da cafetaria do Castelo,  em cujo subsolo ficam as novas instalações sanitárias, mas impõe-se a sua reabertura quanto antes, por dois motivos: 1 - Para aceder às novas casas de banho, só passando pelo interior da cafetaria, uma vez que o concessionário mantém a porta norte sempre fechada, ou impedida com uma cadeira; 2 - Por incrível que pareça, as novas instalações sanitárias não têm acesso para deficientes nem para  carrinhos de bébé (ver foto supra).
De Tomarense franco para Tomarense franco: -É para quando, ó ti Augusto?

terça-feira, 3 de abril de 2018

Cada vez pior

É consensual dizer que, apesar de situada a hora e meia de Lisboa, agradável e com um património invejável, Tomar é pouco ou nada atractiva para os investidores e empresários. Para tal situação contribuem dois factores principais, igualmente conhecidos: 1 - Uma burocracia muncipal asfixiante e de uma lentidão desesperante; 2 - Custos permanentes nitidamente mais elevados que noutros concelhos da zona.
Sobre o primeiro ponto e unicamente para os mais ditraídos, menciona-se mais um caso que dá ganas de arrepelar os cabelos. Da ordem de trabalhos da reunião camarária de hoje, 02/02/2018, consta o ponto 03 - Plano de pormenor do Parque desportivo ao Açude de pedra. Um assunto do tempo do Paiva, portanto com mais de dez anos. Pois resolveram agora iniciar alterações para adaptação à classificação como monumento de interesse público, e respectiva zona especial de protecção", nos termos de uma Portaria de 13 de Maio de 2013. Mais de 40 anos após o encerramento da Fábrica de Fiação, agora é que resolveram classificar uma parte ínfima do seu património? Com que intuito?

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Vista aérea do Açude de pedra

Será que este pretenso escol de funcionários superiores e eleitos municipais que há em Tomar, vivem neste mundo? Estarão convencidos que os cidadãos estão todos ao serviço da autarquia e devem submeter-se sem discussão às suas delongas e decisões, por mais despropositadas e serôdias que sejam?
Na área dos custos permanentes, água cara e taxas exorbitantes, os tomarenses já estão habituados. Pois preparem-se que vêm aí mais aumentos. Basta ler, com alguma atenção, a ordem de trabalhos da reunião camarária de hoje:
a) - Ponto 04 da Ordem de Trabalhos: Os SMAS conseguiram um saldo positivo de 361 mil euros em 2016, mas registaram um prejuízo de 239 mil euros em 2017;
b) - Ponto 07 da OT: 1ª revisão orçamental dos SMAS, no valor de73 mil euros.
c) - Ponto 23 da OT: Contratação de empréstimo de 1 milhão e100 mil euros para os SMAS.
d) - Ponto 31 da OT: Actualização da taxa de recursos hídricos (TRH) para 2018.
Já percebeu, ou quer que lhe faça um desenho? Em vez de criar condições para atrair empresas e investidores, reduzindo a burocracia e as despesas improdutivas, baixando tarifas e taxas, em Tomar estamos cada vez pior. Com a aprovação tácita dos tomarenses. Mesmo daqueles que depois protestam pela calada por isto e mais aquilo, não se dando conta da origem do mal que os e nos afecta.
Uma pergunta a fechar: O empréstimo dos SMAS-Tomar ainda será para pagar dívidas deixadas pelos malandros do PSD?