sexta-feira, 6 de abril de 2018

Portugal visto por residentes franceses

Leitura recomendada a alguns técnicos superiores da autarquia, quanto a tempos, prazos, burocracia...

Numa reportagem que os interessados podem consultar aqui, (caso saibam ler francês e sejam assinantes), o LE MONDE dá a conhecer as reacções de franceses que escolheram Portugal para viver. Há duas grandes categorias, os pensionistas e os jovens empreendedores.
O título da peça é prometedor: "Franceses cada vez mais atraídos pelas sereias da vida lisboeta." Todavia, a chamada de título já anuncia algumas reservas: "Impostos mais baixos, qualidade de vida, efervescência lusitana... há cada vez mais franceses a fixar-se em Lisboa. Mas o paraíso sonhado nem sempre comparece ao encontro marcado."
Segue-se um belo texto informativo, assaz longo, do qual se respigaram unicamente as opiniões negativas, que coincidem em geral com as nossas próprias queixas. Ora leia:
"O eldorado português? Uma simples frase feita, se imaginam que é  tudo mais fácil por aqui. Trabalhamos como loucos. A burocracia põe-nos a cabeça à roda. É um bocado a selva." (Anne, 30 anos, advogada, parisiense, agora fornecedora de refeições ao domicílio).
"Há segurança, qualidade de vida e simpatia dos portugueses. Mas cuidado! Os medicamentos custam cinco vezes mais caro que em França." (Lucien Muller, reformado, a viver em Alcochete)
"Teoricamente, o serviço "Empresa na hora" permite criar uma empresa rapidamente. Na prática, levou-nos mais de uma semana, e provocou-nos algumas dores de cabeça. É impossível completar o processo sem a ajuda de um bom advogado." (Dorian Liégeois, 35 anos, director de empresa start-up)



"Fomos conquistados pela atmosfera da cidade e resolvemos comprar uma casa em construção. Um sonho e também o início de todas as chatices. As obras atrasaram-se e causaram-nos suores frios. Terminou tudo bem, mas aprendemos muito sobre as diferenças culturais. Aqui em Portugal a relação com o tempo e com os prazos é diferente. Convém compreender português e conseguir a colaboração de bons profissionais, nomeadamente um contabilista." (Greg Henriques e esposa Virginie, 35 anos, quadros superiores)
"O erro clássico é imaginar que em Portugal tudo funciona tão bem como em França." (Magali Jumilus, 29 anos, criadora de moda)
No final da peça, a própria jornalista Marie Charrel, correspondente do Le Monde em Madrid, acaba por  dar também  a sua opinião: "O aumento do custo de vida e a falta de lugares no Liceu francês, por exemplo, podem vir a provocar a redução  do contingente francês."
"É o melhor que nos pode acontecer. Vão ficar só os que gostam mesmo de Portugal", segredou-nos um francês da Baixa, já com uma atitude bem portuguesa."

Marie CHARREL, Le Monde Economie, 05/04/2018, às 06H16
Resumo, tradução e adaptação de António Rebelo, UPARIS VIII

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O homem que matou D. Quixote

Lembra-se do escândalo das filmagens, que provocaram estragos no Convento de Cristo? Então, caso queira ficar a compreender melhor o que se passou, faça favor de ler o que segue. Leva algum tempo, porém vale a pena, porque é jornalismo de alto gabarito, coisa cada vez mais rara nos tempos que correm.

"O homem que matou D. Quixote, o projecto louco de Terry Gilliam, continua amaldiçoado

É a Arlésienne da 7ª arte. O homem que matou D. Quixote, do realizador americano, está pronto para estrear nas salas. Mas continua bloqueado. (A Arlésienne é o título de um conto de Alphonse Daudet, que viveu entre 1840 e 1897, que se usa como figura de estilo, para mencionar uma personagem da qual se fala, mas que nunca aparece. Nota do tradutor.)

LE MONDE, 04/04/2018, 10H06, Gérard DAVET, jornalista, e Fabrice LHOMME, jornalista
Tradução e adaptação de António Rebelo, UPARISVIII

"É melhor confiar sempre  em Sancho Pança, fiel servidor do peculiar cavaleiro D. Quixote, os dois heróis da obra de Miguel de Cervantes. "Cada um é como Deus o fez, e muitas vezes bem pior", sentenciou a dada altura o criado, pragmático como poucos.
Por ter negligenciado tal ponto de vista, eis que duas grandes figuras da sétima arte continuam a afrontar-se. De um lado o mítico produtor Paulo Granco, 67 anos, com mais de 300 filmes de autor no seu activo. Do outro, o legendário realizador Terry Gilliam, 77 anos, criador inspirado de Brasil e de O exército dos doze macacos,  bem como genial inspirador dos Monty Python. O último episódio do duelo vai ter lugar quarta-feira, 4 de Abril, perante o Tribunal da Relação de Paris.
Aos pés destes dois gigantes do cinema mundial, uma só vítima: um filme O homem que matou D. Quixote, um projecto acarinhado por Terry Gilliam desde há 25 anos, mas várias vezes enterrado e ressuscitado. Até chegou  a dar origem a um documentário, Lost in La Mancha, (2002), mostrando uma primeira tentativa -calamitosa- de rodagem em 2000, com Jean Rochefort e Johnny Depp. Tudo se conjugou então contra Terry Gilliam, até mesmo a sua própria negligência: chuva diluviana, Rochefort doente, sobrevoo constante do local de rodagem por aviões militares... Sem contar os cavalos tão famélicos como Rossinante, o do "verdadeiro" D. Quixote...
E o azar continua: finalmente rodado e montado em 2017, pronto para a distribuição, O Homem que matou D. Quixote está agora bloqueado por causa do violento conflito entre Branco e Gilliam. O Festival de Cannes está pronto para mostrar o filme. Vai a justiça conceder-lhe essa oportunidade?

"Não sou nenhum santo"

E no entanto, tudo parecia resolvido, ou quase... Foi no Festival de Berlim, em Fevereiro de 2016: Paulo Branco, com ar de pirata cansado, que gosta de meter o nariz por todo o lado, entre duas corridas de cavalos -a sua outra paixão além do jogo- foi abordado por um produtor italiano: Porque não reassumir a produção do Homem que matou D. Quixote? Único óbice, há que disponibilizar 16 milhões de euros, o orçamento aquém do qual Terry Gilliam não aceita descer para para realizar o seu velho fantasma. Com Paulo Branco é tudo muito simples, pelo menos no início.  Já financiou tantos filmes, com habilidades e outros artifícios... "Não sou nenhum santo, reconhece. Há várias lendas sobre a  minha pessoa, que correm no mundo do cinema, e algumas são verdadeiras..." Mas dispõe de uma enorme rede de relações. Manuel de Oliveira, Raul Ruiz ou Chantal Akerman poderiam confirmar, se ainda estivessem vivos. Resumindo, vamos a isso. Um filme considerado impossível? Excitante. Arranjar 16 milhões de euros em seis meses? Nada de extraordinário.
O argumento está pronto e os planos de rodagem quase concluídos. Também, já passou tanto tempo... O filme deve estar concluído em onze semanas, em Portugal e em Espanha, no Outono de 2016. O Convento de Cristo, na cidade portuguesa de Tomar, foi reservado para a rodagem. Os actores principais são contratados: Adam Driver, cuja reputação está no topo de Holywood, e Michael Palin, um dos fundadores dos Monty Python. Driver vai receber 610 mil euros, Palin 285 mil e Gilliam 750 mil. A filha, Amy Gilliam, é contratada como directora de produção. Estão previstos cursos de equitação, em Londres e Nova Iorque, em regime de urgência, para Driver e Palin.
"Eu avançava de modo prudente, recorda Paulo Branco, porque na maior parte dos filmes de Gilliam os orçamentos explodiram. Mas compreendi logo que ele odiava os produtores. Comecei então a ter dúvidas, numa altura em que assegurava grande parte do financiamento. Na parte contrária, a mesma desconfiança. "Branco começou a reduzir despesas, sem prevenir Gilliam" garante o advogado Sarfaty, contratado pelo realizador britânico de origem americana, que acrescenta: "Tinham-nos avisado. Branco é autoritário, carismático, autocrata e pouco fiável. Já enterrou várias empresas... E não tinha o dinheiro."
É um facto que Branco já teve várias insolvências, que de resto admite abertamente. A produção de filmes é um desporto de alto risco. Mas conseguiu montar em 2012 uma outra longa-metragem de grande orçamento: Cosmopolis, de David Kronenberg, uma referência. O que dá garantias a Gilliam num primeiro tempo.
No entanto, tudo indica que, desde o início, a desconfiança era mútua. LE MONDE acedeu aos mails trocados entre os agora duelistas e garante que são muito elucidativos.

Terry Gilliam, uma promessa de loucura




Primeiro foi Michael Palin a queixar-se ao seu amigo Gilliam: Afinal Paulo Branco oferecia-lhe apenas 100 mil euros. O realizador inglês escreve logo, em 24 de Março de 2016, ao seu produtor: "A oferta dos 100 mil euros a Palin foi recebida como uma bofetada,  e foi ainda mais desagradável para mim tentar acalmá-lo. Não te conheço ainda o suficiente para confiar em ti ou não confiar."
O relacionamento torna-se mais tenso. E o orçamento? Paulo Branco vai fazendo o possível. Solicita todos os seus amigos. Jack Lang, antigo ministro francês da cultura, tenta convencer Delphine Ernotte, a patroa de France Télévisions, Gilles Pélisson, o responsável máximo de TF1, ou Vincent Bolloré, de Canal+, a ajudar o amigo português.
Paulo Branco tenta afirmar a sua posição, num mail a Gilliam: "Este projecto, para que se torne uma realidade, deve ter um verdadeiro e único produtor, um capitão. (...) Tudo numa perfeita transparência e permanente discussão orçamental." O "capitão" é naturalmente Paulo Branco Gilliam, cheio de vontade de fazer o filme, resolve ignorar os conselhos dos seus amigos. Escreve-lhes a 26 de Março de 2016, nestes termos: "Obrigado a todos pelos vossos conselhos, advertências e ameaças, mas a única maneira de fazer o filme este ano é lançar-se na loucura...com o Paulo." Nunca terá imaginado ter tanta razão naquilo que escreveu.
Em 29 de Abril de 2016, Gilliam cede os seus direitos de autor-realizador a Alfama, a sociedade de Paulo Branco, mediante um contrato sólido, no qual o produtor se compromete a  respeitar a transparência e os desejos do criador. Antes, em 31 de Março de 2016, Alfama tinha também adquirido os direitos do argumento, junto do produtor britânico RPC. Tudo parece portanto correcto em termos jurídicos.

Multiplicam-se os conflitos

Em 18 de Maio de 2016, no Festival de Cannes, acontece a revolta. Gilliam e Branco anunciam o projecto à imprensa. Apesar de Gilliam não ter feito nada de notável desde há tempo, o nome é uma promessa de loucura. Uma obra-prima é sempre possível, mesmo aos 77 anos. Sobretudo com Paulo Branco, o instigador de milagres. Mas nos bastidores, as coisas vão de mal a pior...
Paulo Branco mostra uma impetuosidade que incomoda. Amazon, que vai investir 2,5 milhões no filme, começa a desconfiar do português e decide retirar-se. Precisamente no dia 17 de Maio de 2016, na véspera da conferência de imprensa, conforme comprova este mail de Matthew Heintz, um dos dirigentes de topo de Amazon, furioso por ter constatado que a sua empresa já era citada, quando ainda não havia qualquer contrato assinado: "Nunca demos o nosso acordo para que fosse tornado público o nosso compromisso... Ainda que admiremos as opções de Paulo Branco e o seu palmarés, tendo presentes os contactos já tidos com ele, não desejamos prosseguir as negociações."
Desagradável. Tanto mais que Paulo Branco rompeu também as negociações com outros investidores pressentidos. A sociedade Kinology, por exemplo. Num mail lapidar, esta empresa afirma "Não faremos o filme juntos". E os conflitos vão-se multiplicando. Caso a caso, Paulo Branco decide, de forma autoritária: a cabeleireira é demasiado cara, o assistente-realizador também, tenta impôr a sua irmã como encarregada de guarda-roupa, discute com Amy Gilliam, recusa Michael Palin, demasiado velho e que não sabe montar a cavalo. Quer também filmar em formato digital, para facilitar os efeitos especiais, mas Gilliam prefere o clássico formato 35 milímetros. E depois há ainda as datas que já não convêm: chove em Outubro, é mlhor aguardar pela Primavera de 2017, e por aí fora.

Um odor de "Panamá papers"

O filme tem de entrar em pré-produção, mas não há condições. "Vai sendo tempo de pôr as cartas na mesa (...) Tenho infelizmente a impressão que é tudo uma questão de dinheiro, ataca Gilliam. "Não aceito esse tipo de comportamento de menino mimado", responde Paulo Branco.
Em 10 de Junho de 2016, organiza-se uma reunião para tentar salvar o filme. Sem resultado. Gilliam pede garantias financeiras. "Vou ter de anular tudo imediatamente e mandar-vos todos para casa", barafusta Paulo Branco. Em 6 de Agosto cumpre a ameaça. Por mail, ordena a Gilliam que aceite as suas condições. Em resumo, Paulo Branco deverá ser o único patrão, incluindo na escolha das equipas técnicas.
Inaceitável para Gilliam. "Todas as tuas exigências são totalmente incompatíveis com o contrato escrito que assinei", responde a Branco, lamentando também o seu "comportamento desleal e enganador". Amy Gilliam, por seu lado, fala menciona num mail o "comportamento de um tirano e de um intimidador". Reacção imediata do produtor: suspensão imediata e ilimitada da realização do filme, mas prolongando os direitos sobre o argumento. É de novo a maldição de D. Quixote.
Protegido pelos seus contratos, sólidos como betão armado, Paulo Branco aguarda a contra-ofensiva. Que não tarda. São apresentadas queixas judiciais em Espanha, na Grande Bretanha e em França, tendo em vista que Gilliam recupere os direitos de autor, de realizador e de argumentista. Sem eles é difícil relançar o projecto. Mas os dois primeiros julgamentos, em 2017, em Paris (Maio) e Londres (Dezembro), dão razão a Paulo Branco.
Apesar disso, Gilliam insiste e resolve fazer o filme. Consegue um outro produtor, reúne os 16 milhões de euros e inicia a rodagem na primavera de 2017, com Jonathan Price que substitui Palin. "Seguiu todas as minhas recomendações, todos os meus conselhos", indigna-se Paulo Branco, que se considera esbulhado. "Por isso fui ver o seu contrato, depositado no CNC." Foi aí que descobriu algo bem curioso: "Gilliam solicitou o pagamento de 750 mil euros no Panamá! É isto um ídolo da esquerda britânica, o meu acusador? Eu nunca teria aceitado depositar o dinheiro no Panamá! E como é que nestas condições beneficiou de fundos públicos, nomeadamente de Eurimages?"
Realmente, Terry Gilliam é detentor, desde 1980, de uma sociedade, a BFI, com sede no Panamá, por intermédio do gabinete Mossack Fonseca, no âmago do escândalo dos "Panamá papers"... "Assumo e é perfeitamente legal em relação aos fisco britânico", assegura o advogado de Gilliam
"Branco bloqueia o filme e impede a sua estreia porque é um perverso que orquestrou um assalto organizado."

Gilliam é louco

Várias mediações foram já propostas tanto por Paulo Branco como pela sua advogada, Claire Hocquet, que exigem 3,5 milhões de euros de indemnização, para autorizar a exploração comercial do filme. "Se resolveram avançar mesmo sem acordo, usaremos todos os recursos do direito", previne a advogada. "Não vou ceder, insiste Paulo Branco. Agiram como se eu estivesse acabado, ultrapassado. Gilliam é um louco e um mitómano."
"Paulo Branco faz tudo para dinamitar a estreia do filme", replica Sarfati, o advogado de Gilliam. "O  sentido da sua chantagem é este: Ou me pagam 3,5 milhões de euros, ou destruo o filme e destruo Gilliam."
Cabe agora aos magistrados do Tribunal da Relação de Paris decidir, meditando talvez este aforismo de Cervantes: "Aves com as mesmas plumagens, voam sempre nos mesmos bandos."

Nota final do tradutor

Conforme neste blogue se escreveu na altura, o incidente das filmagens no Convento de Cristo, que alarmou a opinião pública nacional, na sequência de um programa na RTP1, foi afinal apenas mais um pequeno episódio orquestrado por Paulo Branco, na sua longa guerra contra Terry Gilliam.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Erros jornalísticos lamentáveis


"Câmara de Tomar disponível para ajudar a pagar obras na igreja de São João Baptista"


Câmara de Tomar disponível para ajudar a pagar obras na igreja de São João Baptista

"O município [de Tomar] informou que também está disponível para se juntar à Fábrica Paroquial da Igreja, dona do edifício, para que esta possa aceder ao IFRRU (Instrumento Financeiro para a Reabilitação e Revitalização Urbanas). A Igreja de São João Baptista foi construída no final do século XV e tem pinturas, no seu interior, datadas do século XVI. Foi classificada como Monumento Nacional em 1910."

O conceituado semanário regional O Mirante publica, na sua edição online de hoje, uma notícia da qual Tomar a dianteira 3 copiou o título e o final. Isto porque se trata de dois erros jornalísticos lamentáveis, conforme se passa a demonstrar.
De acordo com o próprio corpo da notícia, a Câmara de Tomar não "está disponível para ajudar a pagar obras na igreja de S. João". Está disponível, isso sim, para eventualmente se candidatar a fundos europeus destinados a obras de recuperação do património, o que não é bem a mesma coisa. A estrada da Beira não é a beira da estrada.
Quanto à conclusão da notícia, é simplesmente de bradar aos céus, mais a mais tratando-se da Igreja. A Câmara de Tomar estará disponível para aquilo que melhor entender. Não poderá contudo juntar-se à Fábrica Paroquial da Igreja, dona do edifício, porque se trata de uma rotunda falsidade, não podendo o município particpar em acções manifestamente contrárias à verdade e portanto à legalidade dos factos.
Tratando-se da Igreja de S. João Baptista, a história é bem conhecida em termos de propriedade. Desde que ficou concluída a sua ampliação, no primeiro quartel do século XVI (e não no último do século XV, como refere a notícia), passou a ser capela real. Primeiro de D. Manuel e depois dos seus sucessores, numa localidade dependente do prior da Ordem de Cristo, por sua vez dependendo directamente de Roma, em virtude do provilégio templário da diocese nula.
Em 1834, o templo foi nacionalizado, tal como todos os outros, passando a monumento nacional, património do Estado, em 1910. Só mais tarde, em virtude da Concordata entre Portugal e a Santa Sé, a Igreja católica passou oficialmente a poder usar S. João Baptista sem quaisquer encargos materiais, leia-se sem pagar renda. Por conseguinte, não só a Comissão fabriqueira não é dona do templo, como nunca o foi, desde a sua fundação, pelo que a ideia retrógrada do confisco neste caso não colhe. A República, como herdeira legal da coroa, herdou também as capelas antes reais.
Noutra terra e noutro país, o assunto seria agora devidamente esclarecido na informação local e regional. Tratando-se de Tomar, geralmente terra de meias tintas, o mais provável é que fique tudo como está. Para que eventualmente, um dia destes, algum beato mais exacerbado venha garantir publicamente que sim senhor, a Igreja de S. João pertence à Igreja, pois em Abril de 2018 O Mirante noticiou que "o município de Tomar informou que também está disponível para se juntar à Fábrica Paroquial da Igreja, dona do edifício", e ninguém desmentiu... 
Por vezes é assim que se consegue reescrever a História.


Tomar a dianteira 3 apoia

É quase unânime a opinião segundo a qual este blogue é do contra. Compreende-se. Numa terra com uma população cujas principais qualidades não são de certeza a participação cívica, nem a leitura, nem a análise, quem age de forma diferente só pode ser uma ovelha ranhosa. Que destoa no rebanho. Com todo o respeito pelas outras. Isto para acrescentar que, apesar dessa reputação, de tempos a tempos, Tomar a dianteira também é a favor. 
De resto, pensando bem, quando se é contra, é-se implicitamente a favor do oposto. Um exemplo recente: Quando aqui se escreveu questionando o facto de, contrariando a tradição, não terem desmontado o açude do Mouchão, estava-se a apoiar de facto a solução oposta -a desmontagem do açude. Outro tanto acontece quando se alerta nomeadamente para a falta de sanitários públicos. Subentende-se que se apoiaria a construção ou reabilitação desses equipamentos, caso houvesse vontade municipal para tanto.

Sanitários próximos de Sta. Maria dos Olivais

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Sanitários antigos na Cerrada dos cães

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Sanitários da Rua da Fábrica de fiação

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Porta norte dos novos sanitários da Cerrada dos cães

Pois agora é disso mesmo que se trata. De sanitários e de apoio explícito e antecipado. Na reunião de ontem, 02 de Abril, o executivo municipal aprovou por unanimidade os pontos 10 e 11 da OT, determinando a transferência para a Junta de freguesia urbana, em regime de comodato, das sentinas públicas junto à igreja de Santa Maria e na Rua da Fábrica da fiação. 
Crê-se que a ideia terá sido do senhor Augusto Barros, presidente da junta urbana. Tratando-se de um  autarca capaz, mais de  obras que de palavras vãs, resta apoiar aplaudindo, e aguardar que as coisas melhorem. O que também não é assim muito difícil, tendo em conta a triste situação actual.
Aproveitando o ensejo e mesmo tendo em conta que alguns consideram tratar-se de um assunto de caca, aqui se pede à autarquia e ao senhor Augusto Barros que transfiram também para a Junta os antigos sanitários da Cerrada dos câes, lá em cima, junto ao castelo. Estão fechados desde a abertura da cafetaria do Castelo,  em cujo subsolo ficam as novas instalações sanitárias, mas impõe-se a sua reabertura quanto antes, por dois motivos: 1 - Para aceder às novas casas de banho, só passando pelo interior da cafetaria, uma vez que o concessionário mantém a porta norte sempre fechada, ou impedida com uma cadeira; 2 - Por incrível que pareça, as novas instalações sanitárias não têm acesso para deficientes nem para  carrinhos de bébé (ver foto supra).
De Tomarense franco para Tomarense franco: -É para quando, ó ti Augusto?

terça-feira, 3 de abril de 2018

Cada vez pior

É consensual dizer que, apesar de situada a hora e meia de Lisboa, agradável e com um património invejável, Tomar é pouco ou nada atractiva para os investidores e empresários. Para tal situação contribuem dois factores principais, igualmente conhecidos: 1 - Uma burocracia muncipal asfixiante e de uma lentidão desesperante; 2 - Custos permanentes nitidamente mais elevados que noutros concelhos da zona.
Sobre o primeiro ponto e unicamente para os mais ditraídos, menciona-se mais um caso que dá ganas de arrepelar os cabelos. Da ordem de trabalhos da reunião camarária de hoje, 02/02/2018, consta o ponto 03 - Plano de pormenor do Parque desportivo ao Açude de pedra. Um assunto do tempo do Paiva, portanto com mais de dez anos. Pois resolveram agora iniciar alterações para adaptação à classificação como monumento de interesse público, e respectiva zona especial de protecção", nos termos de uma Portaria de 13 de Maio de 2013. Mais de 40 anos após o encerramento da Fábrica de Fiação, agora é que resolveram classificar uma parte ínfima do seu património? Com que intuito?

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Vista aérea do Açude de pedra

Será que este pretenso escol de funcionários superiores e eleitos municipais que há em Tomar, vivem neste mundo? Estarão convencidos que os cidadãos estão todos ao serviço da autarquia e devem submeter-se sem discussão às suas delongas e decisões, por mais despropositadas e serôdias que sejam?
Na área dos custos permanentes, água cara e taxas exorbitantes, os tomarenses já estão habituados. Pois preparem-se que vêm aí mais aumentos. Basta ler, com alguma atenção, a ordem de trabalhos da reunião camarária de hoje:
a) - Ponto 04 da Ordem de Trabalhos: Os SMAS conseguiram um saldo positivo de 361 mil euros em 2016, mas registaram um prejuízo de 239 mil euros em 2017;
b) - Ponto 07 da OT: 1ª revisão orçamental dos SMAS, no valor de73 mil euros.
c) - Ponto 23 da OT: Contratação de empréstimo de 1 milhão e100 mil euros para os SMAS.
d) - Ponto 31 da OT: Actualização da taxa de recursos hídricos (TRH) para 2018.
Já percebeu, ou quer que lhe faça um desenho? Em vez de criar condições para atrair empresas e investidores, reduzindo a burocracia e as despesas improdutivas, baixando tarifas e taxas, em Tomar estamos cada vez pior. Com a aprovação tácita dos tomarenses. Mesmo daqueles que depois protestam pela calada por isto e mais aquilo, não se dando conta da origem do mal que os e nos afecta.
Uma pergunta a fechar: O empréstimo dos SMAS-Tomar ainda será para pagar dívidas deixadas pelos malandros do PSD?

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A tradição e a Estalagem

A Rádio Hertz cumpriu a tradição  (uma expressão em tomarês). Noticiou a peta do 1º de Abril e, mais tarde, para que dúvidas não houvesse, esclareceu que tinha sido mesmo uma brincadeira. Cumpriu a tradição e foi certeira. Usou um tema que preocupa os tomarenses interessados no futuro da nossa terra. Com efeito, o problema da Estalagem de Santa Iria tem todos os ingredientes para se transformar em mais uma daquelas doenças crónicas de que enferma a cidade. 
Que doenças crónicas? As ruínas do Convento de Santa Iria, a ex-esquadra da PSP, o ex-Parque de campismo, a falta de balneários capazes e de bancadas no ex-estádio municipal, agora simples campo de treinos, a estrada do Convento que ficou demasiado estreita, os autocarros de turismo que não podem descer à cidade, a falta de instalações sanitárias, a ausência de planos adequados e fecundos, a ligação rápida e não poluente cidade-castelo, a falta de investimento, a falta de emprego, e por aí adiante.

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Dois aspectos do ex-convento de Santa Iria

Abreviando, se excluirmos a ponte da estrada da Serra, os arruamentos em Palhavã, o realojamento de algumas famílias, os arranjos na Sinagoga, a reparação de  quatro arcos dos Peções e a regulamentação do estacionamento na cidade, tudo o resto está praticamente como há cinco anos atrás. Não anda nem desanda. E os residentes são cada vez menos. Por alguma razão será.
Retomando o caso da estalagem, a situação não será a melhor. O autor destas linhas já solicitou documentação sobre essa matéria, que não recebeu no prazo legal, pelo que  recorreu à CADA, após o que, se necessário, passará para o foro judicial. Diz o povo que nunca é bom sinal quando se procura esconder algo, contrariando a Lei. Chamam-lhe tentativa de encobrimento.
Conforme aqui foi escrito anteriormente, é pouco provável que alguém arrisque candidatar-se à concessão da estalagem, sem que a mesma sofra antes uma considerável remodelação, que pelo menos lhe duplique o total de camas. Simplesmente porque, nas actuais condições, aquilo não pode ser rentável de modo algum, excepto se a transformarem num lupanar. E mesmo assim teriam de ser pensionistas com muita classe, para atrair clientela de fora.
O óbice principal da inevitável remodelação até pode não ser a falta de meios da autarquia, uma vez que há fundos europeus. O grande desafio será obter a concordância dos senhores técnicos superiores municipais, para quem qualquer alteração de cércea ou de aspecto exterior é logo à partida considerado um crime gravíssimo. O que significará meses, talvez até anos, de manobras burocráticas, capazes de dissuadir  o mais corajoso, tolerante e paciente empresário. Como desabafava um deles aqui há tempos, quando questionado sobre o facto de se ter afastado do vale do Nabão -O problema em Tomar nem é propriamente a corrupção. São os custos exorbitantes, porque tempo é dinheiro. Mais claro é difícil.
Nestas condições, jogando pelo seguro, a actual maioria é bem capaz de também cumprir a tradição, tal como os seus antecessores fizeram em relação ao ex- Convento de Santa Iria. Anunciam a abertura do concurso para a concessão, no estado em que se encontra, e aguardam. Caso não apareçam interessados, que é de longe o mais provável, adormecem o processo, à espera de melhores dias, que naturalmente nunca mais chegam. Será mais um engulho para a próxima maioria.
"Dá tempo ao tempo irmão. O tempo dá-te todas as respostas."

domingo, 1 de abril de 2018

O problema é da interioridade? Ou da falta de habilidade?

É a desculpa habitual. Quando os tomarenses mostram preocupação perante a fuga da população local, os senhores da actual maioria têm a resposta na ponta da língua. Dizem que o fenómeno é geral e  atinge todas as cidades do interior. Quando algum interlocutor avança com o exemplo de Ourém, cuja população aumenta, apesar de também estar no interior, disparam logo, com ar enfastiado, "esses têm Fátima!"
Pois bem, aqui temos outro caso para meditar. Está no EXPRESSO-ECONOMIA de 29/03/2018 e refere-se a Bragança:




O mapa abaixo, igualmente copiado do EXPRESSO-ECONOMIA, mostra bem que Bragança é a mais recuada e interior de todas as cidades portuguesas. A tal ponto que fica mais perto de Madrid que de Lisboa.
Além dessa desvantagem, há outras. Não tem nenhum monumento Património da Humanidade, não está a 35 quilómetros de Fátima, nem a 50 de Alcobaça e Batalha, igualmente Património Mundial. Ou a 60 da Nazaré, outro grande centro turístico.
O quadro seguinte mostra, sem margem para dúvidas que, embora sem grandes vantagens competitivas e bem mais longe de Lisboa que Tomar, Bragança já conseguiu estabilizar a sua população, que agora irá certamente crescer, tendo em conta o alto volume de investimento. 138 milhões de euros não é pouca coisa nos tempos que correm
Vejamos o quadro comparativo, em termos de eleitores inscritos, que é como quem diz de população:

ELEITORES INSCRITOS NOS CADERNOS ELEITORAIS

                                       2001             2013            2017

BRAGANÇA                 33.471          36.647         36.115

TOMAR                        39.338          37.310        34.814

Tal como o célebre algodão do anúncio da TV, os dados oficiais do MAI não enganam. Em relação a Bragança, lá nos confins de Trás os Montes, Tomar que tinha mais 5.867 eleitores inscritos  em 2001, passou a ter menos 1.301 em 2017. É um trambolhão e dos grandes. Menos 4.524 eleitores inscritos, em 16 anos. Em vez de crescer, Tomar mirra. Com uma agravante de peso  e determinante: O senhor presidente da câmara de Bragança, (que não conheço), já demonstrou que tem ideias, tem planos, tem entusiasmo, sabe o que quer e como lá chegar.
Infelizmente, a senhora presidente tomarense é simpática, boa pessoa, tem presença, fala muito bem, mas fica-se pelas palavras vãs. Parece recusar ver o óbvio: é forçoso mudar de caminho.
Até quando vai prolongar-se o drama dos tomarenses que gostam mesmo  da sua terra? Até quando vão continuar mudos e quedos? A experiência mostra que, sem planos não há investimento e sem  investimento não há empregos produtivos, nem criação de mais valia. Só com obras para enfeitar e  festas à borla, não vamos lá de certeza.
Não vale a pena tentar sacudir a água do capote. Nem adianta procurar desacreditar os mensageiros quando as mensagens desagradam. Os factos são teimosos. Quanto mais os queremos esconder, mais eles aparecem.
Somos todos culpados. Uns mais do que outros.

anfrarebelo@gmail.com