terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Declarações de voto demolidoras

Acabo de ler as declarações de voto dos vereadores PSD, na reunião camarária de 27 de Novembro passado. Referem-se às alterações ao plano de pormenor Flecheiro-Mercado e à "reabilitação" da Praceta Raul Lopes. Tanto num caso como no outro, são demolidoras. Assentam exclusivamente em argumentação técnica e de bom senso, excluindo posicionamentos políticos, que no caso seriam descabidos. São ainda mais demolidoras essas declarações, por dois motivos centrais. Primeiro porque denotam que a intenção real é a oposta -edificar em vez de demolir, uma vez que os eleitos laranja até votaram favoravelmente as propostas da maioria PS. Depois porque nelas sobressai o manifesto improviso dos projectos em causa.
De acordo com as observações dos social-democratas, dir-se-ia que os ditos projectos em foram executados e apresentados à discussão apenas para procurar cumprir normas detestadas e, sobretudo, para procurar calar a oposição e a quase inexistente opinião publicada local. Fica até a ideia de que se trata de prática habitual, que visa obter posteriormente determinados resultados, nomeadamente quanto mais trabalhos mais, melhor. Se calhar por causa das escorrências respectivas...
No meio de tanta incompetência técnica (que até pode ser deliberada, tendo em vista as tais escorrências), lá apareceu uma pequena luz de esperança. A maioria socialista, apoiada nesse ponto pela oposição, resolveu recuar quanto ao projecto da Praceta Raul Lopes, aceitando a sua revisão antes de o submeter à discussão pública. Não é pouca coisa, numa terra em que um eleito actualmente em funções já disse na cara de um comentador local "Quanto mais refila, pior é."
Resta ter esperança que a maioria socialista ouse proceder de igual forma, regressando ao início, nos casos da Várzea Grande e da entrada sul. Quanto mais não seja por uma questão de prioridades e de coerência. Será lógico mandar instalar pistas cicláveis ao lado de um acampamento cigano? Não será melhor acabar primeiro com o dito acampamento? Será coerente pretender embelezar a Várzea grande, o que vai acabar com o tradicional campo da feira e reduzir drasticamente o estacionamento, quando mesmo ao lado, em pleno centro histórico, há artérias urbanas sem rede moderna de águas ou de esgotos? Não seria melhor começar pelo básico?
Perguntarão alguns instalados à manjedoura municipal o que é o básico. Em Tomar, como em Tegucigalpa ou em Luang Prabang, o básico é uma santíssima trindade -água, esgotos e luz. O resto é complementar.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Saber, saber dizer e saber fazer

Nos seus comentários citados no texto anterior, António Paiva foi categórico. Sem usar o termo, desmentiu que não haja verbas disponíveis para o saneamento. Acrescentou que exigem engenho e trabalho, sendo que os políticos são eleitos para isso mesmo -para trabalhar.
Ao referir uma questão tão sensível como a do saneamento, tanto no centro histórico como no resto do concelho, Paiva acertou em cheio. Tomar é realmente uma vergonha a nível nacional nessa matéria, uma vez que apenas 50% da população beneficia de saneamento em condições. Admitindo que os respectivos dados estatísticos municipais sejam fidedignos. Ao ponto a que chegaram as coisas, não surpreenderia se os ditos 50% correspondessem afinal a 30 ou 40%, empolados no papel para enganar incautos. Não seria caso virgem.
No saneamento como no resto, a experiência vem demonstrando, ao longo dos mais de quarenta anos de eleições livres e directas que já levamos, que convém escolher os melhores. E esses são os que basicamente sabem, sabem dizer e sabem fazer. Infelizmente, aqui em Tomar, por falta de escolha ou simples erros do eleitorado, temos tido sempre, (com a notável excepção do próprio Paiva), gente que sabe, ou julga que sabe, até sabe dizer e diz bem, mas quanto a saber fazer, é uma verdadeira desgraça. As asneiras sucedem-se, mas o orgulho desmedido, a auto-suficiência e a necessidade, impedem que apareçam as melhores soluções para o concelho.
O excesso de orgulho impede que dêem o braço a torcer. A auto-suficiência doentia não deixa pedir ajuda. A necessidade material impossibilita a demissão, porque "cá fora" viriam ganhar muito menos. Além do "penacho", a ascensão social, o reconhecimento público. Uma coisa é ser eleito, ter sido escolhido; outra muito diferente em termos de auto-estima é não passar de um obscuro funcionário público de província. Nestas condições, de asneira em asneira, de carência em carência, de palavreado em palavreado, com o êxodo populacional a acentuar-se de dia para dia, a pergunta impõe-se: -Até quando vai o concelho aguentar esta cada vez mais evidente decadência?
Uma vez que felizmente vivemos em democracia, não adianta perguntar quem nos acode. Ninguém nos virá acudir. Temos de ser nós a meter mãos à obra. Como? Antes de mais realizando e participando em debates sérios e abertos. O resto virá por acréscimo. No quentinho, a ver novelos e futebol na televisão, é que não vamos ter de certeza grande futuro.

Sem comentários

Sur les 303 stations du métro parisien, neufs seulement sont accessibles en fauteuil roulant, soit environ 3% du réseau métropolitain.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Comida requentada e ajustes estranhos

Não é para mim das tarefas mais agradáveis esta de comentar comentadores. Assim uma espécie de comida requentada, coisa de que nenhum cozinheiro digno desse nome gosta, porque um verdadeiro profissional de cozinha é sempre um criador. Nunca um imitador. Muito menos um usurpador. Este início para justificar que tenha de comentar uma vez mais as intervenções de António Alexandre e António Paiva, na Rádio Hertz, que pode ouvir aqui.
Como proceder de outro modo, quando se está a milhares de quilómetros de Tomar e a actividade política local é o que é? Para se ter uma ideia mais precisa do entorpecimento mental que é cada vez mais evidente pelas margens nabantinas, o qual emparceira com um também cada vez mais óbvio incremento do cabotinismo atente-se no seguinte episódio pacóvio, tão reles e triste que até me deu vontade de chorar.

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Espectadores no Festival Bons sons

O nosso colega Tomar na rede publicou uma notícia sobre as iluminações de Natal, que mais uma vez são o que são. O possível, quando reina o mais absoluto conformismo. Nessa notícia, há um detalhe pitoresco, para não dizer outra coisa: "Para este trabalho, a Câmara contratou por ajuste directo a Empresa José Noivo-Luz e som, Lda por 29.458 euros, valor que inclui os serviços de sonorização do Festival Bons Sons, em Cem Soldos, e o Festival Estátuas Vivas, em Tomar."  Três em um.
Perante tal salada, que mistura uma realização camarária (iluminação de Natal), uma mista (Estátuas vivas) e uma privada (Bons sons), quando apareceu um comentário, fiquei todo contente. Pensei para comigo, "até que enfim que alguém mais se arrisca a criticar." Engano meu. O comentário, de um anónimo como convém, perante matéria tão sensível, é afinal apenas tomarense dos novos tempos: "Muito bonito".
Indo agora, em estilo mais despachado, aos comentários dos comentadores. Mais uma vez, Paiva e Alexandre demoliram completamente a actual política camarária, sem atacar os autarcas. Alexandre referiu que, no estado actual das coisas, Tomar não tem condições para atrair grandes empresas. Paiva corroborou e acrescentou: não é aceitável que haja uma fila de espera para o parque empresarial, pois há outros locais adequados no concelho.
Quanto às obras em curso, Paiva insistiu que a primeira prioridade é o saneamento/rede de águas, a começar pelo centro histórico, onde cheira mal nalgumas ruas, sobretudo por tempo quente, devido à existência de um só colector, não protegido por sifões. Pediu até aos autarcas para não gastarem dinheiro em pavimentações, sem antes fazerem a rede de saneamento, porque são verbas deitadas à rua. Em sentido próprio e sentido figurado.
No que se refere à adjudicação camarária acima referida, há também pano para mangas. Com efeito, sabendo-se que a principal preocupação de quem executa contabilidade, sobretudo pública, deve ser a clareza, no caso em apreço qual a vantagem de uma tal salada? Quanto custa afinal aos contribuintes a Iluminação do Natal? E a sonorização do Festival de Estátuas vivas? E a sonorização do Festival Bons sons?
Que se saiba, a organização deste último cobrou entradas, que não eram nada baratas (e fizeram muito bem, porque assim é que deve ser nas sociedades evoluídas), obteve isenção de taxas, conseguiu um subsídio camarário de 50 mil euros, e afinal a Câmara até assumiu o custo da sonorização? Que raio de política cultural é esta? Qual foi o montante total dos auxílios da autarquia?
Quando é que tencionam publicar as contas do Festival bons sons 2017? A autarquia está a tentar dissimular o quê?
Citando o comentador anónimo antes referido, mas com outro sentido: "Muito bonito". Como quem diz, "Isto está cada vez mais bonito!"


sábado, 2 de dezembro de 2017

Alcobaça e Tomar

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Alcobaça e Tomar, Ordem de Císter  e Ordem de Cristo. Durante séculos o abade daquela era o visitador, que é como quem diz o inspector ou fiscalizador desta. Prática que deixou marcas, como não podia deixar de ser. Quase dois séculos após a extinção das Ordens religiosas em Portugal, seguida da nacionalização dos seus bens, em 1834,  leia aqui o estado das coisas em Alcobaça.
Durante a leitura, tenha a bondade de recordar a questão do quadro da igreja de S. João Baptista, que foi para Santarém, das obras de S. Gregório, durante as quais desapareceu um catavento manuelino com mais de quinhentos anos, das obras da fachada de S. João Baptista, das obras exteriores de Santa Maria dos Olivais, e assim sucessivamente.
Alcobacenses e tomarenses. Tão perto, tão parecidos e todavia tão diferentes.

LINHACEIRA: ESCOLA NOVA PARA QUE ALUNOS?

Tomar a  dianteira 3 já antes tratou o tema, a propósito de um comentador anónimo, mas de alto gabarito intelectual. Conforme se pode recordar clicando aqui, esse comentador criticou, em escrita pseudo-infantil, o facto de irem edificar uma nova escola, ignorando se haverá alunos para a frequentar dentro de 10/20 anos. Mais recentemente António Paiva e António Alexandre voltaram a abordar o assunto, esclarecendo que não dispunham de dados demográficos.

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Procurando esclarecer tal matéria de forma fundamentada, recorreu-se a um meio expedito, bastante mais acessível que os dados do INE -os inscritos nos cadernos eleitorais da Freguesia da Asseiceira, a qual integra a Linhaceira. O que se constatou não abona nada a favor de quem resolveu mandar edificar a nova escola.
Eis a evolução dos eleitores inscritos na Freguesia da Asseiceira, desde 1993, ano em que são facultados pela primeira vez, no Portal do Eleitor, os resultados de cada freguesia:

Temos assim que a evolução dos eleitores inscritos tem sido negativa e cada vez mais acentuada, excepto entre 2005 e 2009, em que se registou um ligeiro aumento:

De acordo com estes dados oficiais, da CNE e do MAI, em 24 anos, entre 1993 e 2017, a freguesia da Asseiceira, que integra a Linhaceira, perdeu 552 eleitores inscritos, o que corresponde a menos 17,75%. É muito e muito grave, sobretudo porque as perdas se acentuaram com a crise que começou em 2008, tendo chegado a 8,21% nos últimos quatro anos. Nestas condições, conviria que quem resolveu adjudicar a construção da escola explicasse aos eleitores tomarenses em que dados, demográficos ou outros, se baseou para tomar tal decisão. Sob pena de, caso o não faça, cair no descrédito total, ao mostrar que a autarquia tomarense, no fim de contas, decide conforme calha, ao acaso das pressões e dos fundos europeus.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O costume

Refere a agência Lusa, num despacho datado de Coimbra, 27 de Novembro, que o "Programa rotas de Sefarad encerra, com uma execução de 95% e um investimento superior a 7 milhões de euros. A cerimónia foi presidida pela directora da Direcção Regional de Cultura do Centro, entidade operadora do referido projecto. Acrescenta o longo texto da Lusa que "Rotas de Sefarad, Valorização da Identidade Judaica Portuguesa no Diálogo de Culturas" foi lançado em 2014, "tendo como entidade promotora a Rede de judiarias de Portugal e um financiamento assegurado de 4 milhões de euros sendo quatro milhões do Fundo EEGRANTS, mais 705 mil euros do Estado. A estas verbas "juntaram-se ainda os cerca de 2,5 milhões de euros, assegurados pelos municípios onde foram realizadas intervenções." 
O fundo EEGRANTS, segundo a mesma notícia da Lusa, é um mecanismo europeu financiado pela Noruega, Luxemburgo e Lichenstein, que financiou em grande parte 17 intervenções materiais, que a directora da DRCC referiu nominalmente:
  1 - Memorial e Centro de documentação Bragança sefardita
  2 - Hejal - Centro paroquial de Nª Sª da Vitória - Porto
  3 - Sinagoga de Vila Nova de Paiva
  4 - Museu Bandarra - Trancoso
  5 - Memorial Aristides Sousa Mendes
  6 - Sinagoga de Malhada Sorda - Almeida
  7 - Casa da História Judaica - Sabugal
  8 - Museu judaico - Belmonte
  9 - Casa memória sefardita - Penamacor
10 - Casa judaica e dos cristãos novos - Castelo Branco
11 - Centro de diálogo interculturas - Leiria
12 - Sinagoga de Tomar
13 - Sinagoga de Castelo de Vide
14 - Presença judaica na Idade Média - Torres Vedras
15 - Museu Damião de Góis - Alenquer
16 - Casa da história judaica de Elvas
17 - Casa da Inquisição - Reguengos de Monsaraz

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Aspecto da sinagoga de Tomar

Perante tudo isto, duas constatações  se impõem. Desde logo que o nome do programa está desfasado da realidade. Não bate a bota com a perdigota. Em toda a Península Ibérica, houve e há judeus sefarditas, não sefarads, que é uma designação anglo-saxónica. Portanto, o programa devia ter sido designado "Rotas sefarditas", como de resto resulta claramente da "Casa memória sefardita", em Penamacor, ou do "Centro de documentação Bragança sefardita". A usual ganância perante fundos europeus, aliada à tradicional ignorância de quem ocupa lugares por nomeação política, deram nisto.
Em segundo lugar, este programa evidenciou uma vez mais a triste realidade deste país. Havendo fundos europeus para gastar, são mais que muitas as autarquias e outras instituições a candidatar-se.
Desta vez até o Centro paroquial de Nª Sª da Vitória, no Porto, se candidatou. O que não deixa de ser curioso e sombrio, quando vêm à memória as fogueiras da Santa Inquisição. Triste vitória.
Seria demasiado laborioso ir auditar cada uma das intervenções mencionadas. No que se refere à Sinagoga de Tomar, simples obras de reboco e pintura que teriam sido suficientes, (como bem sabem os que se interessam por estas coisas do património), redundaram numa intervenção orçada em perto de 300 mil euros, cuja utilidade prática global não convence ninguém. É o costume. Havendo fundos europeus disponíveis, há que candidatar-se, para gastar quanto mais melhor. Depois logo se vê.
Entretanto, enquanto a autarquia de Reguengos de Monsaraz promove a Casa da Inquisição (ver 17 supra), em Tomar o primeiro tribunal da Inquisição construído de raiz com essa afectação e a respectiva prisão, ambos da primeira metade do século XVI, continuam inexplicavelmente fechados ao público. Se calhar aguardando que haja fundos europeus para os abrir aos turistas. Uma tristeza.
Você, caro leitor tomarense, com longa vivência nabantina, sabe do que estou a falar? Seria capaz de indicar numa planta da cidade, se um turista lhe pedisse, onde fica o Tribunal da Inquisição e a Prisão da Inquisição?
Pois é...