domingo, 15 de outubro de 2017

Adeus TAP portuguesa? Ou simplesmente adeus TAP?

Não é de todo a área de intervenção deste blogue, mas o assunto pareceu assaz importante para merecer uma excepção, até porque pelo menos dois leitores assíduos trabalham na TAP. 
Abordando numa página inteira as dificuldades crescentes das companhias aéreas europeias, o Le Monde, refere nomeadamente, na sua edição papel datada de sábado, 14/10, o desaparecimento da belga SABENA e da suiça SWISSAIR, bem como a compra pela BRITISH AIRWAYS da espanhola IBÉRIA e da maior parte da falida AIR BERLIN pela também alemã LUFTHANSA.


A mesma peça refere igualmente a recente falência da britânica MONARCH, que deixou em terra mais de cem mil passageiros com bilhetes já pagos, bem como  a  ALITALIA,  que terá de declarar falência, caso não encontre nova parceria de negócios até amanhã, 16/10,  terminando de modo pouco ou nada tranquilizador para os admiradores e pessoal da TAP - Air Portugal:
"Pior ainda, estas companhias [que operam sobretudo no longo curso] são agora também atacadas por baixo,  pelas companhias de baixo custo como a NORWEGIAN", assinala Stéphane Albernhe, presidente da sociedade de conselho Archery Strategy Consulting - ACS. Um ataque em tenaz que poderá vir a provocar mais baixas. Para sobreviverem, essas companhias aéreas têm de fazer reformas, "mas têm de as fazer com grande celeridade, porque caso contrário morrem." 
Segundo os especialistas, as próximas participações de falecimento poderão ser as da escandinava SAS ou da portuguesa TAP, ambas com dificuldades crónicas."

Guy Dutheil, Le Monde, Economie et Entreprise, 14/10/2017, página 5
Tradução, adaptação e destaques de António Rebelo, UPARIS VIII

Objectivos opostos - 5

Comparando Tomar e Toledo - 3

Antes de iniciar este texto, será melhor ler aqui, aqui e aqui. Caso contrário pode muito bem ficar um bocado baralhada ou baralhado.

Apesar de tantas opções opostas, há também um sector em que os bons autarcas de Tomar e os maus autarcas de Toledo convergiram -o dos parques de estacionamento. Tal como António Paiva mandou fazer em Tomar, também os eleitos das terras de D. Quixote e Sancho Pança, dotaram em tempo oportuno a sua cidade de parques de estacionamento. Aí termina porém a convergência.
Enquanto em Tomar o excelente Paiva encravou um parque de estacionamento em pleno núcleo histórico, e outros demasiado acanhados junto ao Convento de Cristo, principal monumento da cidade, da região e do país, todos sem instalações sanitárias de acesso livre, os péssimos autarcas toledanos viram bastante maior e muito mais longe. Mandaram instalar parques de estacionamentos cobertos e descobertos, devidamente equipados e com milhares de lugares, fora das muralhas, como mostram parcialmente estas fotos:




Segundo informações recolhidas por Tomar a dianteira 3, há em Toledo, cá em baixo, fora das muralhas, capacidade para estacionamento de mais de dois mil ligeiros e 250 autocarros. Só o parque coberto para autocarros, com vários pisos enterrados, tem lugar para 120 veículos.
E para subir?, perguntarão aqueles tomarenses que, como diz o jornalista tomarense e meu amigo, António Freitas, "coitados nunca saíram do buraco". Para subir, os autarcas toledanos permitem que os seus eleitores e os turistas escolham. Ou sobem a pé, que é o mais saudável e económico, ou vão por aqui:









Pois é! Após quatro lances de escadas rolantes, residentes e turistas chegam aqui:



Onde dispõem de amplas e modernas instalações sanitárias no subsolo (entrada pelo lado direito da foto), de um posto de informação, de uma loja de recordações, de distribuidores automáticos de bebidas e deste magnífico panorama de Toledo, lá em baixo, fora da muralhas:


Daqui, os residentes vão à sua vida e os turistas vão calcorrear as ruas do centro histórico, aproveitando para comprar aqui e ali, que é afinal o que interessa, sobretudo aos comerciantes toledanos. Compras sentado no pópó, ou com o pópó à porta, só na Net, nos hipermercados, nos Macdonalds...e no Convento de Cristo, quando há lugares, o que é raro durante a alta estação. 
Perceberam agora, senhores autarcas tomarenses? O turismo enquanto tal não desenvolve a economia tomarense, nem cria empregos. As despesas dos turistas é que podem ajudar substancialmente as depauperadas finanças e o investimento locais. Mas para isso é primordial que os turistas gastem, que passem pelas lojas. O que não acontece com eventos generosamente financiados pela autarquia, mas sem entradas pagas. Ou com os autocarros e pópós acumulados junto ao castelo e ao convento, cujos passageiros chegam, visitam e põem-se na alheta. Por essa via, nunca mais vamos conseguir sair da cepa torta. É apenas mais uma versão moderna da velha agricultura portuguesa, que era "a arte de empobrecer alegremente".
Ou será que vai tudo bem, sou eu que estou a  ver mal, e a população tomarense continua a diminuir apenas por mero acaso?

sábado, 14 de outubro de 2017

Tudo muito divertido mas...

Ao que li, a inauguração da Feira de Santa Iria correu muito bem e foi muito divertida e tudo. O costume. Na circunstância, Bruno Graça declarou que provavelmente será este o último ano em que a feira se realiza na Várzea grande, uma vez que as obras ditas de requalificação daquele espaço público vão começar em breve. O ainda vereador da CDU foi logo secundado pelo actual vice-presidente, Hugo Cristóvão, que confirmou a inevitável mudança de local da multicentenária feira.
Até aí tudo muito bem. Seguiu-se mesmo um convite inesperado da senhora presidente Dª Anabela Freitas para uma volta de carrossel, prontamente aceite por todos, com destaque para o ainda presidente da Assembleia Municipal e para o futuro líder da oposição José Delgado. No meu entender de pobre parolo, mais um acto que evidencia o comportamento muito tomarense dos reeleitos e dos novos eleitos.
Como os leitores de TAD3 sabem, os autarcas dividem-se em dois grandes grupos. O grupo A mostra as obras que tem feito. O grupo B, como não tem obras para mostrar, vai-se mostrando. Um pouco como aqueles turistas que, em vez de fotografarem paisagens e monumentos, vão-se entretendo a fazer selfies, decerto considerando que eles  é que são o motivo da viagem e o enquadramento geográfico apenas um cenário. Novos tempos, novos hábitos...

Foto mediotejo.net

O caso nem seria grave, mesmo tendo em linha de conta a tomada de posse e a primeira sessão da Assembleia Municipal de Tomar a realizarem-se num cine-teatro, transformando assim actos administrativos que deviam ser solenes num mero espectáculo, não fora a dimensão dos problemas em causa, de cuja abordagem pública os membros do próximo executivo fogem como o diabo foge da cruz. Percebe-se porquê.
No caso do novo local para a feira, nada dizem porque não têm a menor ideia sobre tal matéria. Que como habitualmente nesta desgraçada terra é bem capaz de ser decidida em cima da hora e em cima do joelho. Bem gostaria de estar enganado.
Quanto às obras ditas de requalificação da Várzea grande, será dinheiro europeu deitado ao vento, pois dois motivos principais. O primeiro deriva da evidente má qualidade e inadequação do projecto face às necessidades da cidade. O outro implica que, mais cedo que tarde, quando finalmente a autarquia resolver mandar elaborar um plano local de turismo digno desse nome, tal documento terá de recomendar  a construção de um parque de estacionamento de superfície e subterrâneo, em toda a área da Várzea grande (excepto palácio da justiça) e do ex-Convento de S. Francisco, incluindo dependências do ex-RI 15. A inevitável construção desse equipamento fundamental e inadiável, vai implicar forçosamente a destruição da maior parte da "requalificação" entretanto efectuada, por não haver outro local tão adequado, por razões que seria demasiado longo explicar aqui. Mas como é dinheiro de Bruxelas e os tomarenses se calam a tudo...

Objectivos opostos - 4

Nota prévia
A estatística da Google mostra que os textos sobre turismo, Tomar e Toledo são muito menos lidos que os outros. Dado que o autor e o estilo são os mesmos, a conclusão impõe-se: Algum leitorado de Tomar a dianteira prefere o véu diáfano da fantasia à nudez forte da verdade. Se calhar é também por isso que os resultados eleitorais foram o que foram e que Tomar está como está. 

Comparando Toledo e Tomar  - 2

Prosseguindo no âmbito da crítica construtiva favorável aos autarcas tomarenses, cabe recomendar a leitura atenta das peças anteriores sobre este mesmo tema. Aí se informa que Toledo tem em proporção menos de metade dos funcionários municipais de Tomar -626 para 83 mil habitantes em Toledo, (incluindo 119 polícias), contra 500 para 40 mil habitantes em Tomar. Ai se escreve também que o Conselho municipal de Toledo, equivalente da nossa Assembleia Municipal, conta apenas 25 eleitos, contra 32 em Tomar. 
Gastando assim muito menos que Tomar em despesas fixas e permanentes, Toledo beneficia além disso de receitas muito superiores. Segundo o INE espanhol, a capital de Castilla La Mancha tem 340 hotéis e 115 alojamentos locais, que em conjunto registaram em 2016 906.390 pernoitas, sendo 646.135 de espanhóis e 256.315 de estrangeiros. Para se ter uma comparação mais sólida, 906 mil pernoitas representam 3 noites passadas em Tomar por cada um dos 300 mil visitantes do Convento de Cristo. Se houvesse capacidade hoteleira instalada para isso, bem entendido. Só que em Tomar não há 34 hotéis, quanto mais agora 340. E pelo caminho que as coisas levam, nunca haverá.
Assim poupados e com verbas abundantes, os autarcas toledanos vão asneirando, em vez de se guiarem pelas conhecidas boas práticas dos seus homólogos tomarenses. Além de terem suprimido as algas no Tejo, limitaram singularmente o trânsito automóvel dentro das muralhas, o tal centro histórico, onde residem cerca de 10 mil pessoas. De que maneira? Mandando instalar pilaretes inteligentes, como o desta fotografia:

Quando se aproxima um veículo com o identificador adequado, o pilarete do meio baixa e o carro pode passar. O dito identificador é fornecido pela autarquia unicamente aos residentes com garagem, bombeiros, ambulâncias, polícia, médicos e enfermeiros. Os outros não entram.
Em Tomar, como é sabido, vem todas as manhãs e todas as tardes um bombeiro num veículo da corporação, levantar e baixar os pilaretes ao fundo da Corredoura. O quartel dos bombeiros fica a menos de 250 metros dos pilaretes, mas andar a pé cansa. Sobretudo aqueles bombeiros que, como se sabe, em geral apagam os fogos montados nos seus veículos...

Referi antes que os autarcas de Toledo vão fazendo asneiras, porque parto do princípio que os eleitos tomarenses têm feito, estão a fazer e farão o melhor que podem e sabem em prol de Tomar e dos tomarenses.. E como não tem sido nem é nada disto, mas o exacto oposto, os toledanos só podem estar no mau caminho. Tou certo ou tou errado?

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Objectivos opostos - 3

COMPARANDO TOLEDO E TOMAR

Abordei aqui em tom irónico o caso dos autarcas de Toledo, que mantêm o Tejo limpo de algas, ao invés do que acontece em Tomar, decerto para proteger os peixes nabantinos do calor do verão, segundo se pode deduzir das declarações de um biólogo anteriormente citado neste blogue.
Pelo retorno obtido sobre essa peça, concluí ser indispensável avançar informação mais detalhada sobre Toledo, de forma a que os leitores saibam realmente do que se está a falar. Então, aqui vai. 
Toledo tem actualmente 83 mil habitantes, dos quais cerca de 10 mil residem no interior das muralhas. Nas eleições municipais de 2015, a abstenção foi de 28,06%, os brancos 1,68% e os nulos 1,58%. Recorde-se que em Tomar, menos de 35 mil eleitores, a abstenção foi de 43,06%, os votos brancos chegaram aos 3,68% e os nulos aos 2,85%. O que nos dá uma abstenção bruta (abstenção+brancos+nulos) de apenas 31,32% em Toledo, contra 49,60% em Tomar. É obra!
O conselho municipal de Toledo, equivalente à nossa Assembleia municipal, conta com apenas 25 membros, contra 32 em Tomar. Desses 25 concejales, 9 são do PP, 9 do PSOE e os restantes sete de duas outras formações políticas locais.

Foto Tomar a dianteira 3

O Excelentíssimo Ayuntamiento de Toledo, dá emprego a 626 pessoas. Segundo a própria classificação daquele órgão, esses 626 empregados pertencem a duas categorias: 421 funcionários e 205 trabalhadores. Cabe relembrar que, para menos de metade da população toledana, Tomar emprega à volta de 500 cidadãos, todos funcionários. 
Apesar deste evidente fosso, haverá decerto quem ainda tente justificar o injustificável -um corpo de funcionários municipais nitidamente excedentário, no qual ainda por cima escasseiam os trabalhadores e abundam os chefes sem tarefas efectivas atribuídas. É evidente que os ditos funcionários não são os culpados de tal estado de coisas e têm direito, como qualquer outro cidadão, a ganhar a sua vida por conta de outrem, neste caso na administração local. Este texto não é portanto contra eles, ou contra quem quer que seja. Visa apenas alertar e esclarecer os eleitores.
Agravando singularmente a situação comparativa, os 626 empregados do município de Toledo incluem 119 elementos da polícia municipal e 74 dos bombeiros, num total de 193. Ou seja, dado que Tomar não tem polícia municipal, Toledo dispõe de menos funcionários que Tomar, para mais do dobro da população. Têm razão os publicitários de nuestros hermanos peninsulares. España es diferente. Ó se é!
Por isso a gasolina custa em Espanha menos 30 cêntimos/litro. Fora o resto, que não é nada pouco. Mas como escreveu Voltaire, colocado-o na boca de Pangloss, em Portugal e sobretudo em Tomar, vai tudo bem no melhor dos mundos possíveis
Só falta saber até quando.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Cabotinismo e novo-riquismo na política local




Estes três editais, copiados da edição de hoje, 12/10/2017, d'O MIRANTE, mostram bem quão profunda é a crise que nos assola. Já não só crise económica, mas infelizmente também de valores, de princípios e de respeito pelas instituições.
Ao contrário do que vai acontecer em Almeirim ou Santarém, que sempre é a capital de distrito, nesta nossa desgraçada terra alguém resolveu, num evidente acto de puro cabotinismo, marcar  a posse da Assembleia Municipal, da Câmara Municipal e a eleição do presidente da Assembleia Municipal, para o Cine-teatro paraíso. Porquê? Para quê? Obviamente só para alardear, para se mostrar, para dar espectáculo, pois temos os melhores Paços do Concelho do distrito, com um excelente salão nobre, que existe para isso mesmo -para os actos políticos solenes de todo o concelho.
Alguém, no seu perfeito equilíbrio psíquico e com um mínimo de respeito pelo protocolo, explícito ou implícito, está a ver o próximo governo da nação empossado fora do Palácio de Belém, sede oficial de quem lhe dá posse? Alguém concebe semelhante acto no Pavilhão Atlântico, por exemplo? E no entanto, em Tomar, uma pobre cidadezinha cada vez mais pequena em termos económicos e de população, a política autárquica agora virou espectáculo. Popularucho, ainda por cima.
Os usuais lambe-botas, agora também conhecidos, graças ao Miguel Esteves Cardoso, como culambistas, vão dizer se calhar que em Ferreira do Zêzere a tomada de posse dos novos eleitos também vai ter lugar no Centro cultural. Respondo-lhes antecipadamente: 1 - Porque o salão nobre dos Paços do Concelho de Ferreira não é tão grande como o de Tomar; 2 - Porque o auditório de um centro cultural não é a mesma coisa que um cine-teatro; 3 - Porque, finalmente, a pergunta impõe-se: Desde quando é que Ferreira do Zêzere deve servir de exemplo para Tomar?
Pobre capital templária, que merecia melhor sorte!

Uma presidente excelente em oralidade

São conhecidas as minhas discordâncias políticas com a Sra. D.ª Anabela Freitas. Tenho-as escrito ao correr do tempo e assim demonstrado que a senhora é, na prática, alérgica à crítica. Acontece. Só lamento que confunda divergências políticas com questões pessoais. O que a levou, pelo menos num caso preciso, a enveredar pela falta de cortesia, nada recomendável numa eleita pelo povo. Coisas.
O que antecede não impede, antes valoriza, o que vou dizer. A Sra. D.ª Anabela Freitas também tem qualidades, evidentemente. Uma delas é uma excelente oralidade, a qual ficou bem patente na sua intervenção de despedida do mandato que agora termina. Segundo o excerto de gravação da Rádio Hertz, que pode ouvir aqui, em dois minutos e vinte seis segundos arranjou maneira de discriminar os vereadores de forma subtil, para depois rematar com uma frase de mestre, que lamentavelmente é falsa. Vamos aos factos.
Fazendo as suas despedidas, a senhora presidente dirigiu-se aos "vereadores do PSD" e ao "vereador Bruno Graça", mas logo a seguir referiu o "doutor Pedro Marques". Circunstância que só pode ser significativa, porquanto João Tenreiro também é licenciado em direito e advogado, tal como Pedro Marques. Mas não teve direito ao "doutor". É bem feito! Quem o manda ser do PSD e por isso adversário da senhora do PS, agora com maioria absoluta?
Algo semelhante ocorreu com Bruno Graça, ex-coligado com a senhora presidente. Licenciado e mestre em engenharia, o ex-vereador CDU é portanto engenheiro desde os tempos em que Pedro Marques ainda andava de calções, e a senhora presidente no jardim de infância. Apesar disso, também não teve direito ao protocolar "engenheiro" antes do nome. Decerto porque, na ocasião em que falou, a Sra. D.ª Anabela Freitas já não precisava dos seus préstimos, na qualidade de apêndice utilitário da maioria relativa do PS, que entretanto se transformou em absoluta, logo mudando alguns comportamentos, que se vão tornando sibilinamente mais arrogantes. E a procissão ainda nem saiu da igreja.
Mas o detalhe mais significativo da referida intervenção presidencial parece-me ser uma sentença inspirada, eventualmente obra de algum conselheiro em comunicação, daqueles estipendiados por ajuste directo. Dirigindo-se especificamente ao "doutor" Pedro Marques, (como se ele já  fosse, por exemplo, seu chefe de gabinete), disse a Sra. D.ª Anabela Freitas esta frase espantosa: "Como sabe, só somos criticados por duas coisas, é por tudo e por nada."
Trata-se evidentemente de mero desabafo de alguém alérgico às divergências e à crítica, que são afinal colunas mestras do edifício democrático. Digo mero desabafo, uma vez que a senhora não pode ignorar que o que disse é falso. Totalmente falso.
Julgo saber do que falo, por dois motivos. Desde logo porque em Tomar a informação que temos não critica os autarcas da maioria, devido a um fenómeno que M. Villaverde Cabral denuncia aqui, e que resumidamente é este: Quando a esquerda alcança o poder, a sua primeira e principal preocupação é controlar a informação.
No caso específico de Tomar, ninguém critica  e só é publicado aquilo que convém aos instalados no poder. Isto porque a informação, tanto a nível geral como local, se divide em dois grupos: O primeiro, que integra os órgãos que são a voz livre dos seus jornalistas e/ou comentadores (o Expresso ou o Público, por exemplo), o outro, que engloba os meios que apenas publicam a voz do dono.
Aqui no vale do Nabão  os cidadãos bem informados sabem qual é a situação. Os jornalistas só escrevem ou dizem o que os patrões deixam, porque emprego a quanto obrigas. Os patrões, por sua vez, só deixam avançar o que não ofenda a sensibilidade exacerbada dos detentores do poder, porque caso contrário estes cortam-lhes os víveres e adeus órgão de informação. Não se trata por conseguinte de cobardia ou incompetência, mas apenas de realismo. Tanto dos donos como dos jornalistas e comentadores.
Depois, segundo motivo, sendo a informação local o que tem sido, só eu e mais um ou dois estamos em condições de "cortar a direito", doa a quem doer. E a Sra. D.ª Anabela Freitas sabe bem ser falso afirmar, como o fez, que a criticam "por tudo e por nada". A partir do momento em que se resolvesse ir por aí, julgo que a senhora passaria a dormir menos repousadamente. Os outros comentadores críticos agirão por necessidade e/ou educação. Quanto a mim, nada me limita, a não ser a minha vontade. Mas prefiro ter uma presidente em boa forma física e psíquica, mesmo se nem sempre concordo com o que diz ou faz. Porque é nesse ponto preciso que política e vida privada se mesclam. A crítica política pode provocar ou agravar bastante alguns problemas de saúde.
Criticar é uma coisa. Agredir é outra. Nalguns casos, as maiorias absolutas tendem a tornar os vencedores algo agressivos. E depois fazem constar que Tomar a dianteira é que é demasiado agreste. Feitios, diria o Raúl Solnado. Ou, visto de outro ângulo, convirá talvez citar aquele velho provérbio árabe, segundo o qual "As viagens enriquecem bastante. Mas toma cautela; se mandares o teu burro à Meca, ele vai regressar tão asno como antes da viagem." E andar na política é afinal uma extraordinária viagem ao mundo do labor e da convivência humana.