segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A acelerada agonia do Nabão

Há risco de propagação de insectos portadores de virus tipo zica, dengue, chicungúnia, paludismo...

Cada vez mais conspurcado com esgotos ricos em matéria orgânica, sobretudo fosfatos, o Nabão vai agonizando de forma até agora irremediável. São já bem visíveis três tipos de algas, que a médio prazo acabarão por cobrir toda a superfície da água.
O primeiro grupo é o das algas tradicionais, acastanhadas e sem folhas:







O segundo grupo, mais recente mas de desenvolvimento muito mais rápido, é o das algas de dominância verde, com folhas persistentes:




Quanto ao terceiro grupo, integra as algas em fermentação, as quais vão formando à superfície um autêntico tapete, cuja cor predominante é o amarelo esverdeado:


Naturalmente, nenhum grupo é puro. São todos mais ou menos mistos. Ou 2 - 3:


Ou 1 - 2 - 3:



Em todos os casos, há cada vez mais superfície aquática coberta pelas algas. Quando todo o rio estiver coberto de algas, a água deixará de poder regenerar-se, devido à ausência de luz solar directa em quantidade e intensidade suficientes. O Nabão deixará então de ser o rio que sempre conhecemos até agora. Passará a ser um pântano de água salobra, habitat ideal para toda a espécie de insectos, alguns dos quais potenciais portadores de virus de doenças graves.
Quem mora no centro histórico sabe bem que as colónias de melgas e companhia têm vindo a aumentar exponencialmente. E não há insecticida que lhes consiga pôr cobro, porque quanto mais se matam, mais aparecem, graças ao excelente viveiro em que se transformou o nosso amado  rio.
Situação irremediável? No meu entender não. Mas há que tomar medidas corajosas o mais rapidamente possível. Quanto mais tarde, mais difícil será. Assim sendo, logo que seja desmontado o açude do Mouchão, creio que se deverá proceder como segue:
A - Despejar o rio parcialmente, procedendo à recolha do peixe e dos patos. O peixe será colocado em tanques adequados à sua sobrevivência até à posterior devolução ao rio. Os patos serão guardados em recintos próprios, igualmente até à respectiva devolução ao seu habitat usual.
B - Despejar completamente o rio e iniciar os trabalhos com os seguintes veículos: uma máquina de lagartas, com picões para dragar o leito do rio; uma pá carregadora para ir recolhendo toda a matéria orgânica antes dragada pelo tractor de lagartas; vários camiões para transporte de todos os detritos recolhidos.
Se assim não procederem, o Nabão vai morrer. E depois? Quem terão sido os responsáveis? Só os poluidores? Ou também e sobretudo os que nada terão feito para evitar o desastre?



Uns sacam outros pagam - 4

Atrás do muro que ladeia a estrada junto ao Casal de Santo António, eis o Tanque da Cadeira d'el-rei, o maior da actual Mata nacional dos 7 montes, anteriormente Cerca conventual:

 Vista do tanque, de leste para oeste. À esquerda a casa da água, de cúpula semi-esférica.

 O fundo do tanque coberto de ervas, a mostrar que há muito deixou de haver ali água. À direita a casa da água, início do canal que termina no Convento de Cristo.Do lado esquerdo o acesso ao canal que passa por baixo da estrada e permite aceder ao aqueduto.

O conjunto é de uma harmonia e monumentalidade despojada, realmente impressionantes.

 Infelizmente, do lado poente esta neste estado calamitoso:

O que me preocupa já nem é propriamente o facto de o muro de suporte estar escorado. O que me causa alguma angústia é que as escoras estão ali há mais de 20 anos. E ainda não houve tempo para endireitar o muro! Até a árvore, compadecida, se vai inclinando também, certamente por simpatia.

O Tanque da Cadeira d'el-rei, que distribuía  a água pela Cerca até ao Tanque dos Frades, através deste sistema:



O que aqueduto, que como vimos antes entra na Cerca junto ao Tanque da Cadeira d'el-rei, termina aqui, na fachada sul do Convento de Cristo: 


Terminus do aqueduto. As duas janelas mais à direita, no piso superior, são respectivamente, da esquerda para a direita, do aposento do D. Prior e do Corredor do Cruzeiro. As duas do piso inferior são do Refeitório conventual.

Apesar de relativamente pequeno, tem apenas 320 metros, o sector do aqueduto entre o Tanque da Cadeira d'el-rei e o Convento de Cristo está sob dupla tutela. Propriedade do estado, tutelado pela DGPC - Ministério da Cultura, passa dentro da Mata Nacional dos sete montes, tutelada pelo Parque nacional da Serra de Aire e Candeeiros - Ministério do Ambiente. Apesar dessa dupla tutela está assim:


 Arruinado, sem as lajes de protecção...


 Coberto de lixo, que não é limpo há décadas...


Há zonas em que já abateu, e outras em que já nem se consegue ver por onde passava...

A postagem já vai longa. Haverá mais em Uns sacam outros pagam - Conclusão, amanhã. Entretanto obrigado pela vossa pachorra, caros leitores.

domingo, 13 de agosto de 2017

Uma artéria urbana hortícola

Foi um choque. Um murro no estômago. Ia pela Avenida Dr. Vieira Guimarães, mais conhecida como Estrada do Convento e lembrei-me de meter o nariz das Escadinhas do Alto da Piçarra, que ligam à Rua do Pé da Costa de Baixo. O que vi foi isto, que me parece muito pouco tranquilizador:



Dois problemas graves a ter em conta. A evidente falta de limpeza por parte dos serviços camarários competentes e o facto de por ali já não passar ninguém há muito tempo. Se fosse ainda ponto de passagem, a vegetação estaria pisada, o que não é o caso.
Temos assim uma artéria urbana que mostra uma realidade incontroversa: O centro histórico de Tomar é cada vez mais um povoado fantasma em certos sectores. Quem acode?

Uns sacam outros pagam - 3

Cabe pedir desculpa por insistir pesadamente no grave problema do Aqueduto dos Pegões. Alguém tem de denunciar tal situação, sob pena de tudo continuar na ignorância e no esquecimento, tão confortáveis e convenientes para a tutela do Convento de Cristo.
Foi escrito anteriormente que, além dos Pegões Altos, há mais dois troços do aqueduto filipino com grande interesse histórico e monumental -A Mãe de água ou Casa da água da Porta de Ferro, entre o Casal Novo e os Brazões, e o Tanque da Cadeira d'el-rei. A Mãe de água faz parte do sector mais afastado do aqueduto e por isso mesmo menos conhecido. Já o Tanque da Cadeira d'el-rei está mesmo à mão de semear, ali junto ao Casal de Santo António, logo após o Casal do Láparo. É pouco conhecido porque está escondido pelo muro da Mata dos sete montes e também porque muitos tomarenses não sabem sequer o que é a Cadeira d'el-rei e onde fica.
A cadeira d'el-rei é exactamente aquilo que se vê nesta fotografia:


Trata-se de uma lápide embebida no muro, que indica o local onde esteve a cadeira d'el-rei Filipe II de Portugal, terceiro de Espanha, aquando da inauguração do Aqueduto de abastecimento de água  ao Convento, em 1614.
Porquê precisamente aqui? Porque é o limite entre os terrenos foreiros, pertencentes aos habitantes da comunidade, nos termos dos forais em vigor à época, e a propriedade privativa da sede da Ordem de Cristo, a Cerca dos Frades, resultante da reforma de 1529, que expulsou a população de Santa Maria do Castelo, no interior das muralhas, para a vila baixa, e a do Vale de S. Martinho, onde estão agora os claustros da Hospedaria, de Santa Bárbara e de D. João III, para S. Miguel de Porrais, agora Carregueiros.
A construção do aqueduto filipino resulta dos incómodos sofridos pela corte de Filipe II de Espanha, aquando das cortes de Tomar de 1581. Inicialmente previstas para Lisboa, as referidas cortes realizaram-se em Tomar porque a comitiva espanhola foi avisada de que grassava em Lisboa uma epidemia de peste, o que praticamente a forçou a ficar por aqui. Durante os cerca de seis meses de forçada estada nabantina, foram grandes os padecimentos, pois não havia água corrente no convento mais rico de Portugal, coisa inimaginável já na época, sobretudo porque até no mosteiro de Alcobaça, congregação bem mais pobre, corria um rio na respectiva cozinha.
Uma vez aclamado rei de Portugal, como Filipe I, Filipe II de Espanha ordenou imediatamente que se providenciasse um aqueduto para abastecimento de água ao Convento de Cristo. Terminados os estudos prévios e o respectivo projecto, do italiano Filippo Terzi, logo se iniciaram os trabalhos de construção, em 1593. Vinte anos mais tarde, em 1613, a obra grandiosa estava concluída, vindo a ser inaugurada por Filipe III de Espanha, segundo de Portugal, em 1614, conforme consta da lápide acima reproduzida.
Vale a pena aprofundar um pouco mais esta questão, pois ela pode ajudar a compreender a actual atitude do governo e de muitos tomarenses em relação ao aqueduto. Estas fotos mais detalhadas mostram que o texto da lápide foi intencionalmente picado,de forma  a evitar que se pudesse ler:




Vale-nos na circunstância o cronista português João Baptista Lavanha, que trabalhou para os Filipes. Segundo deixou exarado, a lápide rezava algo como: Filipe I o começou, Filipe II o acabou, o que os braços de tantos reis portugueses não conseguiram fazer. Vai daí, os patrioteiros da época não gostaram mesmo nada, sobretudo porque era verdade, tendo tornado o texto ilegível ainda em 1640, senão mesmo antes e pela calada.
Temos assim que, lá bem no fundo de cada um de nós, o aqueduto continua a ser uma obra espanhola feita por um italiano, logo maldita para todos os efeitos. Aceitou-se e protegeu-se relativamente enquanto fazia falta, por não haver outro remédio. Agora que há em toda aquela zona água da rede com fartura, mesmo se demasiado cara, que se lixe o Aqueduto dos Pegões!
Trata-se, no entender de Tomar a dianteira, de uma visão tacanha das coisas, conforme se tentará demonstrar nos próximos capítulos.

sábado, 12 de agosto de 2017

Finalmente outro rumo?

Na recente entrevista à Rádio Hertz, cuja videogravação pode ver aqui, (dura 50 minutos), Anabela Freitas tencionava falar do programa eleitoral do PS. Afinal falou de muita coisa, excepto disso mesmo. Ela própria lamentou o facto, já no final, dizendo que não falara do programa eleitoral. António Feliciano, sempre oportuno, apressou-se a reenviar a bola: "Haverá outras ocasiões", referiu.
Gente maldosa dirá que aquilo estava muito bem ensaiado. Diz-se que se vai apresentar o programa eleitoral, abordam-se outros assuntos menos complexos e depois lamenta-se não ter havido tempo para entrar nesse tema. Não irei por aí. Recuso-me a crer que a candidata socialista seja assim tão ardilosa. Tanto mais que até avançou dois detalhes que considero de extrema importância:
A - Referindo-se aos resíduos sólidos, vulgo recolha do lixo, disse que têm mesmo de passar a regime de outsourcing, um palavrão inglês que significa terceirização, recursos exteriores, subcontratação = concessão ou "privatização" na linguagem do PCP.
B - Aumentar as receitas, sem todavia agravar as taxas em vigor.
No que se refere ao primeiro ponto, alegou ser indispensável dar esse passo porque os camiões precisam de ser substituídos, o pessoal é pouco e está velho, os circuitos actuais tem de ser totalmente modificados. Noutros termos, o município não tem recursos para adquirir camiões novos e/ou assegurar a manutenção dos actuais, que é cada vez mais cara; o pessoal escasseia, por causa das férias, das baixas, das 35 horas e por aí fora; os circuitos de recolha têm de ser consideravelmente melhorados.
Quanto ao segundo ponto, aumentar as receitas sem agravar as taxas em vigor, só adoptando a táctica da geringonça: ir diminuindo as despesas de forma encapotada. É o que me parece que Anabela Freitas tenciona fazer, caso consiga a reeleição. Concessionando a recolha do lixo e até, num segundo tempo, a totalidade dos SMAS (água, saneamento e tratamento de esgotos), consegue com uma cajadada matar uma quantidade de coelhos.
Além de deixar de suportar as despesas fixas e aleatórias com camiões de recolha, com contentores, com pessoal e com o aterro, para referir por agora apenas os resíduos sólidos, o município passará a pagar à concessionária uma verba fixa, com periodicidade a decidir, e consegue ainda diminuir substancialmente o total de funcionários municipais. Ou seja: aumenta as receitas disponíveis graças à redução das despesas, tudo de forma permanente. Sem austeridade. À moda de Centeno.
É claro que se trata de uma solução que a CDU jamais aceitará. Tenho até a impressão que  essa privatização ainda não foi tentada apenas e só para manter a actual coligação. Ou o vereador da CDU terá integrado o conselho de administração dos SMAS por mero acaso? O futuro o dirá.

Uns sacam outros pagam - 2

Abordou-se no escrito anterior a curiosa e triste situação do Aqueduto dos Pegões, parte integrante do Convento de Cristo, Património da Humanidade. Administrado pela DGPC, ex- IGESPAR, a partir da Ajuda, em Lisboa, encontra-se há muito em péssimo estado de conservação e acelerada degradação. Conscientes desse facto, cidadãos dignos dessa qualidade juntaram-se e têm participado gratuitamente em várias campanhas de desmatação junto daquela obra de arte. Alertada, a presidente da Câmara entendeu dever apoiar essa acção cívica, tendo o executivo deliberado adjudicar obras de conservação de alguns pilares, cuja inclinação é já de 8%. Entretanto, Lisboa continua tranquilamente a cobrar as entradas no Convento, que rendem cerca de um milhão e meio de euros por ano, mas não quer saber do aqueduto para nada. E são mais 300 mil euros que o município de Tomar aplica numa obra que devia ser da responsabilidade da DGPC. 
Além dos Pegões altos, o longo aqueduto filipino de abastecimento de água ao Convento de Cristo, tem dois outros pontos importantes em termos de monumentalidade. Refiro-me  à Casa da água ou Mãe de água da Porta de ferro, situada entre os Brasões e o Casal Novo, e ao Tanque da Cadeira d'el-rei, na Mata dos sete montes, a antiga Cerca conventual.
Quanto à edificação da Porta de ferro, se nada for feito com urgência, o mais provável é que se perca para sempre. Porque a sua vergonhosa situação actual é esta:

Os acessos são seguramente os mesmos e com a mesma qualidade de há quatrocentos anos:





O aspecto exterior é tal que uma simpática moradora dos Brazões, quando lhe perguntei  qual o melhor caminho pedestre para a Casa da Água, foi franca: -Você não a consegue encontrar, porque aquilo está tudo coberto de mato. E não é que quase tinha razão? Encontrei-a porque já ali tinha estado no século passado com colegas meus, mas está mesmo tudo coberto de mato:





Apesar de tão lamentável situação, com um autêntico matagal na cobertura, a velha abóbada de berço, de finais do século XVI, ainda resiste e não deixa entrar água:


 E o interior está relativamente apresentável, tendo em conta os seus mais de quatro séculos. Aqui vemos parte da bacia de decantação:

 

E aqui, ao fundo, a nascente:

Concluindo por agora, aqui temos a arruinada porta de entrada estilo renascença, encimada pela cruz de Cristo filipina e a porta de ferro que dá o nome à nascente e à casa da água. Além desta, o aqueduto recolhe a água de mais duas nascentes -a da Boca do Cano e a do Vale do Feto.



É tudo isto que nos arriscamos a perder, se nada for feito com urgência. Porque todo  o aqueduto carece de manutenção quanto antes e está seco, entre outras razões devido ao desvio  da água. Há até o caso de um agricultor da zona que no século passado resolveu cortar parte do aqueduto para poder passar com o seu tractor. E a situação mantém-se, tanto quanto sei, perante a passividade da câmara e da junta de freguesia. Que se calhar nem sabem da ocorrência... 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Uns sacam outros pagam - 1

Toda a informação local e alguma  regional destacam o início das obras de reabilitação nos Pegões Altos. Com razão. Trata-se de obras urgentes e indispensáveis, única forma segura de evitar a derrocada de dois ou três arcos daquele monumento que é parte integrante do Convento de Cristo. Custeados pelo Município de Tomar, os trabalhos agora iniciados só estarão concluídos já depois das próximas eleições, lá para Dezembro. São 300 mil euros que poderiam ser aplicados noutras iniciativas municipais, caso a DGPC que gere o Convento de Cristo, soubesse honrar os seus compromissos. Infelizmente, a situação actual mostra que tal não é o caso. Tomar a dianteira tem até muitas dúvidas que no Palácio Nacional da Ajuda algum responsável conheça mesmo o Aqueduto dos Pegões. A começar pela própria directora do monumento, agora em final de comissão de serviço em Tomar.
Estas duas fotos mostram o local dos trabalhos e um aspecto geral dos Pegões Altos, que são apenas a parte mais conhecida e monumental de um aqueduto filipino com cerca de seis quilómetros de extensão, inaugurado em 1613, após vinte anos de trabalhos:

 O local das obras, que visam estabilizar os arcos visivelmente inclinados para a esquerda.

 Um aspecto da grandiosidade dos Pegões altos.

Urgentes e indispensáveis, as obras em curso são apenas uma pequena gota num oceano de miséria. Atravessado o aqueduto rumo aos Brasões e ao Casal Novo, ao mesmo tempo que é possível visualizar a grande complexidade da construção, surgem mazelas por toda a parte:

Esta foto, obtida na direcção oeste - leste, mostra que o aqueduto forma um gigantesco S.

A casa da água, situada do lado oeste, tal como a sua irmã gémea a leste, há muito que deixou de cumprir a sua função de refrigério dos monges, que se sentavam nos bancos laterais, e de decantação da água vinda das nascentes a noroeste. A bacia de decantação serve agora de contentor de lixo.
Mais adiante, onde ainda são respeitados os limites da propriedade pública, (dois metros e meio de cada lado do aqueduto), avultam os roubos das lajes de cobertura ao longo dos tempos:




Mas o pior fica para o próximo escrito. (Maneira hábil de ganhar coragem para dizer mais coisas muito desagradáveis.)