quarta-feira, 31 de maio de 2017

Sobre informação, competência e coragem

Na Conferência Internacional do Estoril, que contou com a participação de Aldo Moro, António Di Pietro, Baltazar Garzón e Carlos Alexandre, o juíz italiano que conduziu a operação Mãos limpas, foi bem claro: "Se a informação não é livre, independente e transparente, a democracia está em causa."
Magistrado culto e de boa educação. Di Pietro teve em conta que "em casa de enforcado nunca é conveniente falar de cordas". Por isso terá omitido que, além de livre, independente e transparente, a informação também deve ser capaz e corajosa. 
De que podem servir a liberdade, a independência e a transparência, quando faltam a capacidade, a competência e a coragem para publicar ocorrências menos convenientes para quem sustenta os órgãos informativos?

Quem avisa, amigo é...

Na sondagem em curso aqui no Tomar a dianteira constata-se o pouco interesse dos leitores que já votaram em relação a listas de independentes. Consequência muito provável do naufrágio dos IpT. E eventual desconhecimento da realidade envolvente. Cristina Peres escreve hoje no EXPRESSO curto isto:


A explicação da Raquel Albuquerque está no Expresso online e o estudo citado é da insuspeita Fundação Francisco Manuel dos Santos. A titulo de achega para melhor compreensão, relembra-se que nas autárquicas de 2013, no concelho de Tomar a abstenção bruta (abstenção + votos brancos + votos nulos) chegou aos 55%. O que significa que, em cada cem eleitores inscritos, apenas 45 votaram num candidato. E nessa altura ainda concorria uma lista de independentes. 
Caso a tendência se mantenha, como vai ser em Outubro próximo, muito provavelmente sem lista de independentes?

Autarcas a brincar ao turismo - 3

Os dois textos anteriores, que pode ler clicando aqui e aqui, descrevem por alto o trajecto entre a Praça da República e o Açude de Pedra, ou Açude da fábrica, através do multicentenário Caminho português de Santiago. agora com novo percurso, inventado pela Câmara. É provável que tenha sido obra de algum funcionário superior, daqueles que julgam que o mundo só existe desde que nasceram. Vai daí, fruto também de ensino de qualidade duvidosa, estão absolutamente seguros de que a Ponte de Peniche é de origem romana, o que está por demonstrar. Tal como acontece com as apressadamente baptizadas ruínas de Sellium, ali atrás do quartel dos bombeiros. E se fosse uma ponte romana, mesmo bastante pequena, mereceria o percurso pedestre agora proposto como Caminho de Santiago. Mas não é, até prova em contrário.
De qualquer forma, ponte romana ou não, o percurso é bastante pitoresco, porém difícil, perigoso e absolutamente despropositado enquanto Caminho de Santiago, porque representa uma perda de tempo, ao alongar o citado Caminho, conforme mostra o mapa, extraído do googlemaps


Sendo o tradicional Caminho de Santiago via estrada nacional 110, a amarelo e em diagonal no mapa, que vão os mal informados caminheiros fazer pelo agora inventado  percurso camarário, marcado a vermelho?
E não se trata apenas de alongar o caminho sem qualquer necessidade. Antes fosse só isso! Infelizmente não é.
Sem qualquer indicação prévia e adequada na área urbana, trata-se na verdade de um trajecto muito perigoso para turistas, porque bastante inóspito e longe de tudo. Caso haja uma doença súbita, uma entorse, uma queda, um assalto, um roubo, um estupro, quem acode e como? Os veículos não têm por onde rodar e os helicópteros não podem pousar, por causa da vegetação.
Nestas problemáticas condições, se um dia destes há um desastre, ou se um ou vários mariolas, vendo por ali passar turistas apetitosas e/ou outros com a bolsa bem guarnecida... O turismo tomarense sofrerá um rombo enorme, pois a informação correrá mundo em segundos. E depois?
Assim sendo, parece óbvio que a melhor solução será admitir o erro crasso cometido e retirar os pontos de sinalização do Caminho de Santiago, o qual nem sequer é ou foi por ali, conforme já referido. Ou então, no mínimo e para não dar o braço a torcer, completar a sinalização na área urbana, a partir da esquina da Rua do Centro Republicano, com avisos semelhantes a este rascunho, pelo menos em português, espanhol, francês e inglês:

Caminho português de Santiago, pela estrada Tomar-Coimbra

CUIDADO!!!

Desvio rural muito pitoresco de ... quilómetros. 
Percurso praticável mas inóspito, perigoso e sem vigilância. 
Socorro demorado e muito problemático em caso de acidente ou incidente, por falta de condições de acesso. 
Recomendado unicamente a grupos de caminheiros em boa forma física.

Autarcas a brincar ao turismo - 2

Nota prévia

Antes de iniciar a leitura desta peça, convém ler a anterior, para melhor compreensão.

Mesmo sem qualquer certeza de estar a percorrer o caminho adequado continuou-se. Mais cem metros andados e surgiu a ansiada sinalização:


Aleluia! Estava-se no caminho certo. Em vez de uma, duas sinalizações. A do caminho de Santiago, em fundo azul e outra, a amarelo, pintada no tronco, que se supõe ser de algum itinerário pedestre de índole local. Reconfortado, seguiu-se pelo caminho indicado. Que a partir dali é um simples carreiro de pé posto, também designado como caminho de cabras. As fotos seguintes são bem explícitas:




Entretanto, a sinalização do Caminho de Santiago deixou de existir, vêem-se apenas as setas amarelas:


Junto ao Açude de pedra, de cuja comporta é possível constatar o estado lamentável do rio Nabão, com o leito em grande parte coberto por espadanas, que são aquela vegetação aquática,


o caminho pedestre tem aspectos de picada tropical, tal é a vegetação envolvente:


E quanto a sinalização, apenas uma pouco visível flecha amarela, no tronco de um cipreste centenário:


Não sendo propriamente turista em terra gualdina, Tomar a dianteira 3 resolveu inverter a marcha, atravessando a Vala da fábrica, pois do lado oposto o caminho é plano e bem mais confortável. Mas os caminheiros referidos no escrito anterior continuaram, muito provavelmente rumo à Ponte de Peniche.
Regressando tranquilamente a casa, houve ainda ocasião para sacar duas fotos que vale a pena reproduzir:


À noite, apesar de algo cansado, devido a esta caminhada da manhã e à da tarde, o sono tardou a vir. Alguma angústia com os sucessivos dislates autárquicos, cujas consequências eventuais nem sempre são tidas em conta. Matéria para a próxima crónica: Autarcas a brincar ao turismo - 3


terça-feira, 30 de maio de 2017

Autarcas a brincar ao turismo - 1

O turismo pedestre está agora na  moda em Portugal, uma vez amplamente conhecidas lá fora as nossas excepcionais condições de paz civil e de segurança. As caminhadas estão na ordem do dia e os nossos vizinhos espanhóis fazem o melhor que sabem para aumentar a afluência de peregrinos a Santiago de Compostela, o mais célebre destino de romagem da cristandade, logo a seguir a Jerusalém.
Tomar a dianteira 3 tomou conhecimento com satisfação de que a autarquia resolvera finalmente sinalizar o troço tomarense do Caminho Português de Santiago. Agora com a obra concluída, tendo em conta os conhecidos antecedentes, pés ao caminho para ver como estão as coisas. O percurso começou ao cimo da Corredoura, a primeira sinalização para quem vem do Castelo dos Templários pela Calçada de Santiago, ou S. Tiago em português:


A localização não é a mais adequada, mas sempre é melhor que nada. Descida a Corredoura, ultrapassada outra indicação no cruzamento à entrada da Ponte Velha, continuou-se até à Rua do Centro Republicano, onde houve uma surpresa:


Gente que anda por estas ruas nabantinas há mais de sete décadas, confessou a Tomar 3 a dianteira que estava convencida de que o Caminho de Santiago era pela estrada nacional 110, rumo a Coimbra. Donde a dúvida provocada por aquela seta apontando para esquerda. Seria um engano?
Trezentos metros mais adiante surgiu a resposta:


Ao fundo da Av. Egas Moniz, para quem venha da Rua de Coimbra rumo ao ex-Parque de campismo, lá está mais uma seta, desta vez apontando para a direita, na direcção das ruínas da Fábrica de Fiação.
Ultrapassando o que resta da velha unidade industrial, lá se foi ladeando a Vala da fábrica, com uma família de mochileiros estrangeiros caminhando cem metros mais à frente:


Gente habituada a caminhadas de turismo pedestre, como mostra a posição dos braços, destinada a inverter a força da gravidade na circulação sanguínea. E logo a seguir, acabou-se o asfalto:


Nova dúvida para Tomar a dianteira 3, apesar de tomarense: Será mesmo por aqui o secular Caminho Português de Santiago?
Resposta no próximo escrito.



Uma explicação seria bem-vinda

Dizia ontem uma senhora para a outra, quando ambas transitavam na Ponte velha, que aquela piroseira nos envergonha  a todos. Referia-se ao grafito ou mural que conspurca o muro de suporte da antiga Horta Torres Pinheiro, o qual não resulta todavia de qualquer acto de vandalismo. Trata-se de uma obra contratada pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, via Câmara de Tomar. Paga portanto com dinheiro dos contribuintes, ainda que eventualmente através de fundos europeus.
A localização aberrante, assim como a composição incoerente e maldosa do referido painel, têm concentrado de tal forma a reprovação pública, que o outro mural do mesmo autor, frente ao padrão sebástico de S. Lourenço, continua praticamente ignorado. E no entanto...
Perante o grafito "Velhos do Restelo" fica-se com a ideia que o seu autor é um excelente executante, todavia menos feliz na escolha dos temas, dos protagonistas e da respectiva localização. O mural da antiga passagem de nível confirma esses quatro aspectos -execução, tema, figuras e localização- conquanto exiba um manifesto falhanço. O cálice da extremidade direita aparece deformado em certas posições, conforme mostra mais explicitamente a segunda fotografia. Na primeira, só a base do cálice surge deformada



Além dessa óbvia falha na execução, a composição com cores quentes e envolventes não parece coadunar-se nem com o local, nem com a série de motivos representados, que interpreto como uma crítica à cupidez da igreja. Outrossim, tão pouco se entende porquê nesta terra e naquele local. Perante isto, admitindo que possa estar  equivocado, o ideal seria que o grafiteiro explicasse  aquela sua obra, oralmente ou por escrito. Quererá fazê-lo? Afinal trata-se de uma obra que lhe foi encomendada e paga, como já antes referido, o que justifica o pedido de esclarecimento.
Conta-se aliás por aí uma patusca anedota, também sobre uma pintura mural e a respectiva explicação pelo seu autor. Ei-la: 
Um emigrante rico de retorno à pátria, comprou um arruinado solar do século XVII, que depois mandou restaurar. Durante as obras de restauro, levou lá vários amigos, os quais foram unânimes: aquele grande salão era magnífico, mas com janelas de um só lado não ficava bem. A imensa parede cega chocava. Ficaria melhor com tapeçarias historiadas, ou então com uma pintura mural.
Chamou um artista pintor, o Violant lá do sítio, acertaram o preço e o contratado perguntou-lhe que tema pretendia ver pintado. -Pode ser a vida, porque a minha foi bem dura em tempos, avançou o proprietário. -Pois seja, respondeu o pintor. - Mas não volte cá senão quando eu o avisar que o trabalho está pronto.  Entretanto quero metade do preço combinado. O restante paga depois de ver o trabalho. Assim foi.
Três meses mais tarde, o artista preveniu o proprietário que a obra estava pronta. Combinado o dia e a hora, encontraram-se no imponente solar restaurado. Chegados ao salão, o pintor destapou o mural, até então coberto com panos brancos, e o ex-emigrante até mudou de cor. Na longa e alva parede apareceu uma pintura em forma de S, com mais de uma dezena de vultos masculinos nus, em tamanho natural, cada um sendo sendo penetrado pelo de trás e penetrando o da frente.
Chocado, o ex-emigrante perguntou: -Para si, a vida é isto? -Pois não vê que sim?! A bem dizer, não fazemos outra coisa senão ser penetrados e penetrar os outros. Está sempre a acontecer. -Mas olhe que eu nunca participei em nenhum acto homo, nem activo nem passivo, retrucou o proprietário, nada contente. -Azar o seu, concluiu o artista. Tem sido sempre o primeiro da fila.
Azar o meu. Neste caso dos grafitos pagos pelo erário público, como contribuinte involuntário, também me estou a ver no primeiro lugar da fila. Mais um vez!

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ofender a pobreza com porco no espeto

O  presidente da Junta da freguesia onde nasci, fui baptizado, resido e sou eleitor, Augusto Barros, apresentou a sua candidatura no recinto do Mercado Municipal. No acto estiveram presentes cerca de duas centenas de pessoas. Adiante se perceberá porquê tanta gente. Não tendo sido sequer informado, não compareci. Sempre ouvi dizer que a casamento e baptizado, não vás sem ser convidado.
Foi melhor assim. Com efeito, segundo relata Tomar na rede aqui, teria ficado bastante incomodado, com dois aspectos. Primeiro, porque Hugo Costa voltou a bater nos mesmos do costume. Como se, passados quase quatro anos, isso ainda tivesse algum interesse.

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Em segundo lugar, porque encerrou os discursos a senhora presidente da Câmara e também candidata, que  terá sido menos feliz na sua intervenção. Pode ler-se no Tomar na rede que "Destacou o trabalho da Junta na área social, reconhecendo que há ainda muita pobreza encoberta, com a qual se mostrou preocupada." 
Tão preocupada que logo a seguir participou no "lanche onde não faltou o porco no espeto". Lamentar a pobreza antes de um lanche com porco assado no espeto, além de manifesto mau gosto, por evidente incongruência no propósito, acaba por ofender a pobreza. Mesmo a encoberta, que inclui a pobreza de espírito. Porque já dizia o outro: Ou há moralidade, ou comem todos. Porco no espeto, neste caso.
Quanto ao candidato Augusto Barros, o seu trabalho está à vista de todos, pelo que tenciono votar nele mais uma vez. Mesmo sem ter sido convidado. Porque, se alguns se vendem por um prato de lentilhas, outros há que nem por causa de discursos inadequados, ou de um lanche com porco no espeto, mudam de opinião.