segunda-feira, 15 de maio de 2017

O que Tomar poderia ser

Terminaram as filmagens, no Convento de Cristo, de "O homem que matou D. Quixote". Tal como terminara antes a rodagem da recente telenovela da SIC, também em Tomar. Em ambos os casos centenas de empregos ocasionais e milhões em receitas para cafés, restaurantes, hotéis, bares... Tudo isto apesar de sermos como somos e de estarmos como estamos: de costas para o futuro, de costas para a inovação, de costas para a organização, de costas para a eficácia, de costas para a competitividade, a tal gana de vencer, a tal fé que arrasta montanhas.
Até os marroquinos, que não tem propriamente fama de liderar o progresso, têm sabido adaptar-se às solicitações e necessidades dos europeus. A cidade do cinema às portas de Ourzazate, por exemplo, é disso a prova. Enquanto isso, em Tomar continuamos sem projectos robustos e adequados, talvez aguardando milagres. O que se compreende dada a proximidade de Fátima; mas que só pode preocupar quando um estudo mais cuidado revela que doravante até na cidade das aparições os milagres já são outros, sendo que um deles, de onde derivam muitos dos outros é mesmo bem conhecido. Dá pelo nome de turismo e implica planos, recursos técnicos e outras estruturas que por enquanto Tomar não tem.
Aguardemos que os tomarenses amantes da sua terra arranjem ânimo para abrirem os olhos e verem as coisas como elas são. Sem lentes ideológicas, por mais lindas que sejam as cores com pintam o Mundo.

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Imagens da Cidade do cinema, nos arredores Ourzazate, no sul de Marrocos.

Tais pais tais filhos

Numa daquelas iniciativas municipais que têm tendência a ocorrer sobretudo em anos de eleições autárquicas, reuniu a Assembleia Municipal Jovem, no salão nobre dos Paços do Concelho, e a Rádio Hertz acompanhou os trabalhos. Como que a mostrar que se tratava de uma iniciativa eleitoral, da oposição só compareceu o vereador da CDU.
Abriu os discursos o senhor presidente da Assembleia Municipal, logo seguido da senhora presidente da Câmara, que a dada altura recorreu à errada expressão "tem a haver com", em vez de tem a ver com, o que não parece nada indicado perante duas ou três dezenas de alunos. Mas aconteceu. (Ver adenda no final deste comentário).

 Captura de ecrã do video da Hertz

Confesso que, habituado a aulas de 50 minutos durante 36 anos, não consegui paciência para ir mais além, no vídeo que tem quase 82 minutos. Dessa minha audição resultou um rol de propostas que passo a indicar: Maior ligação ao rio Nabão, com a instalação de um parque aquático; facultar mais actividades desportivas gratuitas em todo o concelho; aulas gratuitas de tiro com arco e incremento das actividades culturais; loja de produtos informáticos topo de gama; cinema na cidade e no concelho; disponibilização de bicicletas municipais de uso gratuito; marcação de percursos pedestres no concelho; reabertura dos campos de futebol que estão em manutenção; requalificação  e construção de novos sanitários públicos; colocação de cadeiras de plástico nas bancadas do estádio; reabilitação do cinema; construção de um centro comercial; mais eventos culturais e atléticos; instalação de um parque de diversões. Uma bela série, plena de realismo, salvo uma ou outra excepção, como por exemplo o caso dos sanitários públicos.

Captura de ecrã do video da Hertz

Puxou a Hertz para título da notícia, (bem a meu ver), uma importante reivindicação dos jovens deputados: Cinema na cidade e no concelho. É assim mesmo. Não basta o esforço da cedência gratuita semanal do Cine Teatro Paraíso, ao Cine Clube de Tomar, (do qual sou sócio), nem as sessões cinematográficas estivais à ilharga da piscina Vasco Jacob. Tem de haver cinema com as últimas novidades e por esse concelho fora. Pago pelos contribuintes todos, via orçamento municipal, está claro. Diria até mais. Uma piscina em cada freguesia logo que possível, não seria nenhum luxo. Idealmente com fornecimento gratuito de toucas e fatos de banho. De grandes marcas, pois então!
Está visto que no espírito desta juventude, formação profissional, emprego, investimento produtivo, habitação condigna, projectos geradores de mais valias, rigor orçamental, organização, adequação à realidade local, trabalho, trabalho e mais trabalho, é tudo uma seca das antigas. A Câmara só deve servir para garantir empregos pouco cansativos, dar subsídios, promover actividades desportivas e culturais gratuitas, disponibilizar bicicletas, facilitar transportes a preço reduzido, providenciar a recolha do lixo e facultar a ocupação de  tempos livres à população.
Tais pais tais filhos.

ADENDA

A senhora presidente da Câmara é uma boa oradora e está habituada a falar de improviso. Infelizmente não parece preocupada com a pontuação dos seus discursos, o que torna difícil transcrever os mesmos. No caso da expressão errada acima referida, foi possível reproduzir por escrito isto: ..."No caso são sete elementos que deriva daquilo que está na Lei autárquica que tem a haver com o número de habitantes que cada concelho tem..."
A expressão correcta teria sido "tem a ver com" = está relacionada com, resulta de... Pelo contrário,  a expressão usada pela senhora presidente remete para "tem a haver com" = lucra com, o que não faz qualquer sentido, uma vez que a Lei autárquica não lucra nada com o número de habitantes que cada concelho tem. E, estando com a mão na massa, a forma correcta teria sido: são sete elementos que derivam daquilo que está na Lei autárquica. Ou melhor ainda: são sete elementos, em conformidade com o estabelecido na Lei autárquica.

Celebrar as vitórias alheias

É bom, faz bem à saúde psiquíca alimentando o ego, celebrar as vitórias. E como estamos nesta altura bem servidos! A vitória de Macron contra Le Pen, a vinda do Papa, que é uma vitória para os católicos portugueses, a canonização de dois dos três pastorinhos, que é outra vitória, o triunfo do Benfica ao conquistar o campeonato pela quarta vez consecutiva e sobretudo, sobretudo porque inesperada, a vitória de Salvador Sobral na Eurovisão. Os tomarenses, pois é principalmente para eles que escrevo, têm portanto muito para celebrar.
Durante as celebrações, mas sobretudo a seguir, conviria ir lembrando, ou pelo menos não esquecer que todas estas vitórias não caíram do céu, nem aconteceram por mero caso. Tal como todas as anteriores, resultaram de trabalho árduo, perseverança, organização e ganas de vencer. Tudo coisas que têm faltado e faltam em Tomar.

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Foto zap. aeiou.pt

Significa isto que os tomarenses não têm qualidades? Nem pensar. Os meus conterrâneos sempre tiveram e têm, na sua maior parte, muitas qualidades. Infelizmente não são as mais adequadas ao mundo actual. Mas têm. São em geral obstinados, conservadores, convencidos, arrogantes e hipócritas, por exemplo. Pelo que não vão faltar vitórias em Tomar, quando chegar a vez dessas qualidades de muitos tomarenses estarem na ordem do dia. Como muito bem escreveu o nosso presidente Marcelo a Salvador Sobral, "Quando somos muito bons, somos os melhores dos melhores." Tem razão o nosso presidente. O problema dos tomarenses já é só conseguirmos ser muito bons. O resto virá naturalmente por acréscimo.
Ao ler isto, que não é nada agradável para muitos, como em geral acontece com a verdade, alguns cogitarão que estou a falar de cor. Enganam-se. Para citar apenas um exemplo na área política tomarense, quando na década de oitenta do século passado, organizei e participei no terreno na eleição intercalar dos Casais, o candidato do PS que eu apoiei, Augusto Brito, ganhou com 78% dos votos. O Jaime, que mais tarde veio a ser presidente da junta pelo PSD, aí está para o confirmar, se assim o entender.
78% nos Casais não estão ao alcance de qualquer um, penso eu. Tanto assim que nunca mais outro candidato esteve sequer perto. O que me leva a dizer que, quando falo de qualquer assunto, ou proponho qualquer projecto, posso estar errado. Mas nunca estou a falar de cor. Os meus críticos de estimação é que não fazem outra coisa. 

domingo, 14 de maio de 2017

Somos mesmo o país das maravilhas

Somos mesmo o país da maravilhas, pensamos nós, os portugueses. Os outros pensam em geral diferente. Acabo de ler no eco.pt uma maravilha de análise, escrita por Marta Santos Silva e com um título para mim de todo inesperado -Macron e Costa: o que os une e o que os separa. Sendo certo que logo após a brilhante vitória de Macron, o nosso primeiro se apressou a dizer que há grande convergência no que toca à Europa, a verdade é que mesmo aí as expectativas são diferentes. Macron pretende reformar a União Europeia para a reforçar. Costa, pelo contrário, pretende apenas reformas que possam conduzir a uma situação em que os países do norte paguem as dívidas do sul.
Quanto ao resto, não me parece que haja ou possa vir a haver qualquer convergência. Pelo contrário. Na área das alianças, por exemplo, Macron olha a partir da esquerda moderada para o centro e para a direita. Ao invés, Costa olha da esquerda para a extrema esquerda. E depois há as grandes reformas já anunciadas por Macron. Tenciona suprimir 120 mil lugares na função pública durante o seu mandato. Excluindo a efectivação dos precários, Costa vai suprimir quantos? Macron prometeu igualmente unificar os múltiplos regimes de aposentação existentes em França. Costa prometeu a unificação do regime das pensões privadas com as aposentações públicas para quando?
Sendo certo que na política é indispensável saber dar música aos eleitores, haverá alguma comparação nesta área entre Macron e Costa? Infelizmente também não. Macron já demonstrou várias vezes tocando, que é um pianista profissional de bom nível. Costa toca que instrumento?
Finalmente, em termos de preparação académica, Macron tem um master da Universidade de Paris X, o diploma de Sciences Po Paris e concluiu com brilho a prestigiada ENA. Além da licenciatura em direito pela Universidade de Lisboa, que outros graus académicos ostenta Costa?
De quando em vez, alguns jornalistas analistas saem-se com cada comparação... Porque, ou estou a ver mal, ou o título da dita análise devia ser Macron e Costa: tudo os separa. Até a atitude perante o outro. Costa quer-se colar, tipo mosca do coche. Macron mal sabe quem é Costa.

Contra a corrente

"...Mas um dos principais sinais das próximas autárquicas não está nos partidos. Está, isso sim, no número de independentes que tomam conta de freguesias e câmaras. A tendência não é nova e atingiu aliás o ponto mais alto em 2013, quando Rui Moreira conquistou a câmara do Porto. Esse momento, importantíssimo para a cidade,  foi um sinal de aviso para os partidos em geral e em particular para PS e PSD. Foi a primeira vez que um movimento independente ganhou uma câmara de primeiro plano. ...
... O que o movimento liderado por Rui Moreira mostrou foi que uma lista encabeçada por alguém com prestígio local, grande notoriedade, meios financeiros e capacidade de comunicação, pode ganhar eleições locais sem precisar dos partidos. O exemplo que Rui Moreira deu há quatro anos, bem como a sua recente rutura com o PS, dificilmente serão casos isolados.
Alguém que queira ser autarca e ache que o pode fazer sem partido, não tem qualquer incentivo a fazê-lo pela via clássica, já que o eleitorado tem uma natural simpatia -pelo menos no início- pelos movimentos independentes... ..."

Ricardo Costa, Expresso, 13/05/2017 (O destaque a azul é de Tomar a dianteira 3)


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Estes excertos da crónica de Ricardo Costa, director do Expresso (e, a título de curiosidade, só para os mais distraídos, irmão do primeiro-ministro António Costa) tendem a evidenciar que uma vez mais, na área política, Tomar navega contra a corrente. Ao longo dos anos, quando a tendência era filiar-se e concorrer pelos partidos, o PS local, que até agora liderou quatro mandatos em onze, apenas teve um filiado, neste caso uma filiada, como presidente da Câmara. A actual. Os outros três mandatos foram um de Luís Bonet, que concorreu como independente e só muito mais tarde veio a aderir ao PS, e dois de Pedro Marques, também como independente, que nunca aderiu ao partido.
Inesperadamente, aparece agora em Tomar um movimento retrógrado. Sem qualquer explicação cabal sobre os motivos, à maneira dos autoritários, os IpT resolvem não concorrer como tal e estão em vias de se transformar num grupo de políticos-carrapatos no PS. Deseja-se naturalmente boa sorte a todos. Não se compreende  contudo como poderá vir a funcionar uma coligação com o PS, por fagocitagem deste, entre eleitos que de facto nunca se entenderam ao longo do actual mandato.
Convirá também ter em conta que, na política, as coisas não acontecem como no mercado, onde um quilo de peras, mais meio quilo de maçãs, somam sempre quilo e meio. Na política é um bocadinho mais complexo. Os eleitores de cada uma das tendências mancumunadas raramente estão todos pelos ajustes.
Parece claro que a peculiar coligação em curso pretende repetir os resultados de 2013: PS 5.479 + IpT 3094 = 8.573 votos, contra apenas 5.198 do PSD. É porém provável que desta vez, estando os laranjas nabantinos livres do desgaste do poder, os resultado sejam semelhantes aos de 2005: PS 4.235 + IpT 4.946 = 9.181, contra... 9.993 do PSD!
Basta portanto que o PSD queira e saiba encontrar os meios para vencer, nomeadamente a união interna, uma boa campanha eleitoral e um programa robusto, articulado, adequado e realista, para matar à nascença o inesperado cambalacho político  PS-IpT, aceitável mas nitidamente contra a corrente. Porque afinal, se Ricardo Costa tem razão, sobretudo no que está a azul, porque é que em Tomar o grupo independente falhou em 2005, 2009 e 2013?

sábado, 13 de maio de 2017

Ao sábado acontece cada uma...

Clica uma pessoa no conceituado Tomar na rede e depara-se com esta sequência de temas: Duas caminhadas à escolha, Propostas para este sábado, Negociações entre PS e Independentes continuam, União de Tomar: eleições adiadas por atraso nas contas. Perante isto, forçoso é reconhecer que se trata de um cardápio de respeito. Eventualmente, até muito bem articulado, embora assim à primeira vista possa não parecer.
Desde logo, se há Duas caminhadas à escolha é provavelmente porque PS e IpT ainda não resolveram qual o caminho a trilhar até Outubro. Por isso têm as Propostas para este sábado, numa situação algo complicada, devido às eleições adiadas por atraso nas contas, apesar de a direcção unionista já estar fora de prazo, uma vez que o mandato terminou em Março.

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Foto Médio Tejo

Desconfio que, consciente de tais coincidências, o experiente José Gaio arranjou maneira de ser subtilmente irónico. Escreve ele, a concluir a sua notícia sobre as conversações PS-IpT, que "A integração de membros do IpT nas listas do PS e eventual ocupação de alguns lugares de nomeação política em troca do apoio dos IpT são os assuntos em cima da mesa."
Nesta altura da maratona eleitoral em curso, há ainda muitas perguntas sem resposta: O que terá levado os IpT a não concorrer? Porquê juntar-se ao PS e não à CDU, de onde vieram nomeadamente Fernando Oliveira, Rosa Dias, João Simões e José Neto? Que lugares estão em discussão? Pedro Marques novamente vereador, mas agora a tempo inteiro? E se o PS não ganhar, mesmo com a muleta IpT?
Tudo isto leva a supor que aquele "são os assuntos em cima da mesa" com que Tomar na rede fecha a postagem, traz água no bico. José Gaio é um jornalista com muita experiência, que até já foi funcionário municipal. Não ignora portanto que na política, nos negócios e na vida corrente, mais importante que os assuntos em cima da mesa são os acordos por baixo da mesa.
Assim sendo, vem à memória aquela alegoria dos perús recheados. Já se sabe que até Outubro os eleitores vão ter de escolher entre várias dessas aves. E também já se sabe qual o recheio. Só falta apurar quais os perús que entretanto foram comidos.

Burlesco

Já se notara antes que, não sendo a maioria relativa de primeira água, a oposição também não tem de que orgulhar-se. Estão uns para os outros, diria um cronista mais virado para o popularucho. Mesmo assim, há situação que são pouco concebíveis num executivo municipal. Ocorrências que mostram um total alheamento da realidade local. Factos que denunciam haver vereadores a caminhar ao lado dos sapatos. A reunião do passado dia 9 de Maio, forneceu mais um exemplo burlesco, vindo da oposição laranja.


Ignora-se com que intuito real, João Tenreiro e Beatriz Schulz, ambos do PSD, avançaram com uma proposta para o restabelecimento dos circuitos turísticos em veículos de tracção hípica. Os conhecidos trens de cavalo, vulgo charretes. Conforme se pode ler aqui, a citada proposta veio a ser rejeitada, tendo Anabela Freitas justificado a decisão com um argumento inatacável. Segundo a presidente, continua em vigor um regulamento municipal sobre essa matéria, que até foi publicado em Diário da República, pelo que o executivo apenas pode pronunciar-se sobre requerimentos apresentados pelas próprias entidades interessadas em explorar tal valência turística, o que ainda não aconteceu, concluiu a autarca socialista.
Apesar da evidente justeza da argumentação de Anabela Freitas, Beatriz Schulz e João Tenreiro insistiram pesadamente no assunto, chegando a primeira a dizer que estavam "incrédulos" face a semelhante decisão. A vereadora laranja foi até mais longe, lendo uma declaração na qual afirma que a coligação local não considera o turismo prioritário. Demonstraram assim ambos os representantes do PSD uma triste e cruel situação. Não só não tinham feito antes o necessário trabalho de casa, como nem sequer entenderam cabalmente a resposta da presidente.
Na verdade, trata-se até de algo caricato, pois teria bastando aos senhores vereadores oposicionistas abordar previamente o assunto com a maioria PS-CDU, para constatar que se tratava de uma proposta despropositada. Tipo mais papista que o papa, uma vez que os verdadeiros  interessados nada requereram.
Ainda sem programa nem equipa conhecida, com Boavida a soltar-se em demasia, quando interpelado pela informação local, e perante intervenções infelizes, como esta da dupla Tenreiro-Schulz, parece cada vez menos provável que em Tomar o PS possa perder as próximas autárquicas. Apesar de todas as tranquibérnias anteriores. 
Os tomarenses têm os autarcas que elegeram.