sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Crónica nabantina com porcos

Agoniado pelo cheiro nauseabundo que lhe invade o lar e irrita a pituitária, um cidadão residente no arrabalde nascente da urbe, numa moradia que lhe custou somas avultadas, decidiu queixar-se à câmara e a outras autoridades. Afirma que um vizinho próximo mandou fazer uns barracões e neles instalou 15 porcos, animais que, como o seu próprio nome indica, acrescento eu, são limpíssimos. E se forem javalis, conforme também já li noutra fonte, ainda mais limpos são. Mas a carne também é mais saborosa...
Apresentada a queixa em Agosto passado, disse  o citado cidadão, logo um fiscal camarário o informou que "estava tudo em conformidade". Pouco tempo depois, mas ainda em Agosto, um técnico superior da autarquia, um arquitecto, deslocou-se ao local, certamente porque alguém o lá mandou. Tendo constatado a veracidade da reclamação e conhecendo eventualmente o relatório do fiscal supra referido, atestando a conformidade, foi taxativo. Os barracões nunca foram licenciados. Nem nunca poderão vir a ser, julgo eu. Pois se, aqui há anos, a câmara recusou emitir licença para uma criação de caracóis nas Algarvias, alegando que não estavam asseguradas as condições mínimas para o tratamento dos efluentes respectivos, vai agora autorizar uma suinicultura urbana com 15 animais?
Ou estou a leste da questão, ou 15 porcos cagam mais diariamente que 15 dúzias de caracóis numa semana. Mesmo que sejam daquela variedade do sul de França, onde lhes chamam justamente "cagouilles". Por conseguinte...


Cansado de aguardar e decerto com a glândula pituitária cada vez mais exacerbada, o munícipe reclamante voltou a protestar respeitosamente na reunião camarária do passado dia 7. Quase três meses após se ter queixado, tudo continua na mesma, referiu em substância. Perante o que, o polivalente vereador Cristóvão disse que o executivo ia proceder à necessária notificação para que o munícipe prevaricador proceda à demolição dos ilegais barracões da sua suinicultura. Urbana e não obstante artesanal e ilegal. Custa a crer, mas acontece. Mesmo em plena área urbana, é possível construir coisas ilegais sem que a fiscalização camarária disso se dê conta. No meu entender, deve ser por causa daquela campanha a favor da integração  dos invisuais no mercado de trabalho. São acolhidos na função pública autárquica e depois dá nisto. Porque não há pior cego que aquele que não quer ver, reza o adágio popular.
E o não querer ver por conveniência é uma prática muito antiga. Um exemplo, já com barbas: Aqui há cinco décadas, um munícipe agradecido (na altura ainda não havia cidadãos, foi antes de 1974) deslocou-se a casa do então zelador municipal (encarregado geral) e ofereceu-lhe um presunto. O honrado funcionário aceitou o presente, mas retrucou: -Então olhe lá, o raio do porco era coxo?! Neste ano de 2016, não estou a ver nenhum eleitor a oferecer só um presunto, nem tão pouco um funcionário municipal a reclamar de forma implícita e truculenta. Outros tempos, outros usos, outros níveis. E que níveis! Pelo que, tem toda a razão a senhora presidente. A onze meses das próximas eleições, numa cidade de funcionários públicos e ex-funcionários públicos, agora aposentados, gerida por funcionários públicos teoricamente às ordens de funcionários públicos eleitos, com mentalidade de funcionários públicos sentados, o mais aconselhável e menos perigoso em termos eleitorais é mesmo prometer publicamente que "vai ser aberto um conjunto de procedimentos internos para averiguar o que se passou." Um simples, rápido e eficaz processo disciplinar, seguido da inevitável punição do ou dos funcionários em causa, poderia desencadear um desastre de proporções incalculáveis. Como sucede por vezes naqueles edifícios com muitos séculos. Quando se procura substituir um ou outro barrote manifestamente imprestável, o telhado vem abaixo. Afinal, constata-se depois, estava tudo podre, mas não se notava assim à primeira vista. Só após o incidente é que se percebeu enfim porque chovia antes dentro do prédio e ninguém tomava providências.
Entretanto avulta também o problema do suinicultor ilegal. Que precisa de ganhar a sua vida, como qualquer outro cidadão. Deixar tudo como está, já se viu não ser possível. Não só devido à pertinente e reiterada reclamação do vizinho prejudicado. Também e sobretudo porque seria um mau exemplo. Uma nova versão do triunfo dos porcos. Que, como bem sabe quem é lido, são todos iguais, mas há sempre uns mais iguais que outros. Resta portanto encontrar uma solução, se possível vantajosa para ambas as partes.
A câmara é dona da estalagem de Santa Iria, que concessionou, mas cujas rendas não recebe há anos, segundo consta na cidade. Ao lado, nos terrenos anexos ao ex-estádio, a autarquia acaba de concessionar por 20 anos um terreno público, destinado a edificar um local para café, pastelaria e gelataria, com livraria anexa, para mostrar que somos uma terra de cultura. Tudo com projecto já aprovado. Nesta mesma linha, o executivo municipal poderia decerto encontrar um terreno onde o suinicultor ora em falta pudesse continuar a ganhar a sua vida de forma legal, erguendo pavilhões antes aprovados pela autarquia.
Mesmo que depois o vereador Pedro Marques viesse declarar que duvidava da rentabilidade da coisa para o concessionário, como já fez em relação à futura pastelaria anexa ao ex-estádio, sempre ficaria a boa acção, em prol do desenvolvimento local, graças ao investimento privado.
Governar não é só gargarejar. É também e sobretudo decidir. Resolver. Acertar e cometer erros. Porque só não erra quem nada faz.

Carta a um candidato conterrâneo

Senhor Doutor:

Desejo-lhe saúde, alegria e boa sorte na sua futura campanha eleitoral.
Li pausadamente, como sempre procuro fazer, a sua entrevista publicada n'O Templário desta semana. Apesar da frase "Não sou daqueles que só dizem está mal", que considero infeliz, porque o mostra como formatado à tomarense, o que é igual a cidadão conformado, animou-me a sua evidente modéstia, ao limitar-se a dar a entender que tem uma carreira académica como docente doutorado. Não simples licenciado, ostentando o DR. Doutor com as letras todas. Daqueles que, após a licenciatura,  a tese de mestrado e mais uns anitos de investigação, apresentaram e defenderam uma tese de doutoramento, num estabelecimento idóneo, credenciado para o efeito. Sei do que falo porque também assim procedi.
Não obstante a sua conformidade aos costumes nabantinos, lá foi dizendo que em Tomar "Alguma coisa está mal. Não se facilita a vida a quem quer investir... ...tenho conhecimento que há projectos há 17 anos à espera de aprovação."
Teve até a coragem cidadã de acrescentar que "Os concelhos à nossa volta são mais atractivos, o turismo tomarense não cresce de forma planeada e sustentável...  a área cultural e do turismo tem de ser a chave de desenvolvimento do concelho."
Concordo e aplaudo tudo isso. Sobretudo a chave do desenvolvimento que o senhor propõe para o concelho. Outro tanto não posso dizer, pelo menos por enquanto, àcerca desta sua afirmação, que me deixou intrigado: "Temos o Fórum Romano no centro da cidade, num estado de absoluto abandono... É triste".



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Foto Tomar a dianteira

Em relação a esse assunto, para não alongar demasiado,  peço licença para formular as seguintes questões: 1 - O senhor, que é um arqueólogo credenciado, está seguro, tem a certeza, que aquilo a que se refere, (ver fotos) é mesmo o que resta de um antigo fórum romano? Para além das muito difundidas, porém fortemente contestadas, (como decerto não ignora), elucubrações de Salete da Ponte e das fontes por ela referidas a título credenciário, que afinal não passam, regra geral, de citações do tipo "pescada de rabo na boca" ou "toma lá, dá cá, toma lá, dá cá", o senhor poderia indicar-me  outras fontes insuspeitas, ou espólio das escavações ali efectuadas, susceptíveis de fundamentar a sua afirmação, segundo a qual o que existe nas traseiras do quartel dos bombeiros de Tomar são mesmo as ruínas de um fórum romano? Não serão antes vestígios das fundações de uma das duas igrejas (S. Pedro Fins e Santa Maria de Selho), provadamente existentes naquela zona, pelo menos até ao século XVIII?

Cordialmente,

António Rebelo
anfrarebelo@gmail.com

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Filhos ingratos/irmãos desavindos

Não sei qual a reacção dos tomarenses a esta notícia d'O MIRANTE. A mim deixou-me triste. Pareceu-me parte do enredo de uma telenovela das mais baratas. Daquelas indianas, ou mexicanas. Até imaginei dois títulos possíveis, qual deles o mais apelativo: Titulo A - Volta pai querido, que estás perdoado.Título B -Não ao regresso do  paí-cadáver. Passo a tentar explicar. Tarefa difícil porque, na política tomarense, tudo é ultracomplexo. Tipo ornamentação da Janela do capítulo. Deve ser do peso da História, agora simples estória.
Creio ser do domínio público (até porque também já aqui foi escrito) que praticamente todos os actuais eleitos e militantes socialistas de Tomar são filhos políticos de Luís Ferreira. É igualmente do conhecimento geral, julgo eu, que o militante agora rejeitado e ostracizado pelos seus camaradas foi, durante mais de 10 anos, o dirigente, o treinador e o armador de jogo da equipa socialista tomarense. Goste-se ou não, é a verdade factual. Todos lhe devem portanto algo.
Após uma série de trapalhadas ainda por explicar cabalmente, umas da área política, outras do domínio privado, o principal esteio do PS em Tomar viu-se afastado, pelos seus próprios filhos políticos, de todos os cargos que detinha. Excepto o de eleito municipal, em que decidiu colocar-se na prática como independente.

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As mais recentes notícias, visivelmente alimentadas pela sua ex-companheira, mas ampliadas por outros eleitos e/ou funcionários, socialistas ou não, designadamente esta última, onde se escreve que podemos até estar perante uma farsa, pois o carro de Ferreira terá sido visto ultimamente com alguma frequência à porta da ex-companheira, permitem no meu entender, pelo menos duas interpretações divergentes..
Há os que dizem que tudo isto visa apenas apresentar Anabela Freitas como uma vítima das circunstâncias e do seu malvado ex-companheiro. Forma ardilosa de justificar o seu mau desempenho político como presidente. Assim como quem diz: -Eu bem queria e até sou capaz de fazer muito melhor, mas aquele malandro não me deixou e as circunstâncias também não ajudaram nada.
É a interpretação veiculada por várias fontes da autarquia, geralmente bem informadas, que a decência cívica e as normas jornalísticas impedem todavia de identificar.
Outros referem que seria demasiado simples e alinham outra versão bem diferente. Segundo eles, ansiosos e algo desorientados, porque órfãos do seu pai político-dirigente-treinador-armador de jogo-colador de cartazes, os eleitos e militantes rosa locais dividiram-se em dois clãs adversos. Um a favor do regresso imediato a todos os seus cargos anteriores do dirigente injustamente afastado, que tanta falta tem feito e vai fazer. Sobretudo agora, que se aproximam novas eleições. É o grupo A - "Volta pai querido, que estás perdoado". O outro, integra todos os que participaram mais activamente no assassinato político do pai ideológico odiado, assim conseguindo resolver o seu evidente  complexo de Édipo. -É o grupo B - "Não ao regresso do pai-cadáver". O que se compreende, pois se Luís Ferreira conseguir, graças designadamente à acção do grupo A -"Volta pai querido, que estás perdoado", reaver todas a rédeas que já deteve e guiou, é bem capaz de agir depois à boa maneira de Salazar, embora não seja católico praticante: "Deus nosso senhor manda perdoar. Não manda esquecer."
Por isso, salvo melhor e mais fundamentada opinião, Anabela Freitas  faz parte do grupo B, o que a empurra para queixas e denúncias que não prestigiam ninguém. Nem a ela, nem aos filhos ideológicos ingratos, agora também irmãos desavindos.
Resta portanto aguardar os próximos episódios dos próximos capítulos desta telenovela nabância, cuja conclusão está prevista só para Outubro de 2017, e na qual tudo pode ainda acontecer. Que pecados andaremos nós tomarenses a remir, para termos de aturar todas estas cenas canalhas?!?

Jornalismo cego, surdo e com preconceitos

Pela segunda vez em menos de um ano, a informação global (jornais, rádios, televisões, net) errou estrondosamente. Almejando condicionar os seus ouvintes e  leitores, como sempre fazem sem por vezes disso sequer se darem conta, centenas de milhares de briosos profissionais da informação confundiram, deliberadamente e uma vez mais, opinião  pública com opinião publicada. No primeiro caso recente, o do Brexit, -pois terá havido decerto muitos outros antes, porém com menor repercussão- a comunicação social foi praticamente unânime. Difundiu a ideia dominante mais conveniente, segundo a qual a Inglaterra não ia sair da Europa, porque os partidários do Brexit iam ser derrotados. Viu-se.
Agora, a mesma comunicação social global avançou outra vez a ideia mais conveniente: Hilary Clinton ia ganhar, embora por pequena margem, porque Trump é intragável. Não tem boas maneiras, agindo como um carroceiro, vocábulo fora de uso mas muito adequado.
Contagem feita, o imprevisto aconteceu. Trump derrotou a opinião publicada com os votos da opinião pública. Há portanto algo de podre no reino da comunicação social. Algo tão grave que mesmo os profissionais mais prestigiados procuram evitar pedir desculpa ao seu vasto auditório, o que seria natural, após o terem ludibriado reiteradamente. Nem sempre com as melhores intenções. O que arrasta consigo uma situação bem delicada: a urgente necessidade, para todos os órgãos de informação, de recuperar quanto antes, ainda não se vê bem como, a credibilidade perdida. Sem o que, doravante, estarão na prática a escrever e a falar para o boneco. Pelo menos no que diz respeito aos consumidores de informação mais atentos, que deixaram de acreditar no publicado como algo de sagrado. E sem fiabilidade...

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Vendo as coisas de fora e sem outro interesse que não seja a verdade, julgo que tão lamentável situação é, em suma, o produto inevitável do mundo à parte em que vive essa categoria profissional. Mundo rodeado de barreiras sociológicas, os chamados preconceitos, que impedem os seus membros de ver ou ouvir o que se passa cá fora. Surgem assim as "verdades ou evidências da casa, ou da classe", que naturalmente excluem todas as outras, sobretudo se sustentam o contrário.
Descendo à terra natal, que é o âmbito normal deste blogue, a informação tomarense não tem meios materiais nem humanos para grandes feitos. Não está portanto em condições de tentar com alguma eficácia condicionar o eleitorado local. O que não significa de modo algum que não haja tentativas nesse sentido, umas mais canhestras, outras nem tanto.
Como de resto sucede em todas as terras pequenas, salvo raras excepções, jornais e rádios obedecem à voz do dono, o que é natural. E o dono age em função dos interesses de quem lhe paga para inserir publicidade, ou para qualquer outra tarefa legal e transparente. São as leis normais do mercado, contra as quais nada tenho. Salvo em caso de abuso evidente. Pouco provável nas margens nabantinas, onde a frontalidade é planta rara, o que propicia as chamadas práticas encapotadas. Tipo gato escondido com o rabo de fora.

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Julgo portanto útil alertar os políticos domésticos, (sobretudo os instalados no poder) para a necessidade de relativizar as coisas enquanto é tempo. Não se iludam, nem se deixem iludir com promessas vãs. Não é porque jornais e rádios locais difundem o que vos convém e este modesto blogue, remando contra a maré, porque nada tem a perder ou espera ganhar, ousa atacar-vos lealmente, mas sem dó nem piedade, que aqueles têm razão e Tomar a dianteira está errado. A eleição imprevista de Trump acaba de confirmar isso mesmo. Simulando não ter a noção das conveniências, o multimilionário americano ousou ser franco. Proclamou bem alto aquilo que muitos eleitores pensam realmente, e por isso gostam de ouvir. Ganhou folgadamente. Contra as conveniências urdidas pelos do costume.
Por conseguinte, convém não perder de vista que  as eleições são já ali adiante. O que exige muito cuidado com as tais barreiras sociológicas, que tendem a isolar do mundo exterior tal como ele é. O exercício do poder deslumbra, mas Ut flatus ventisic transit gloria mundi. Tal  um sopro de vento, a glória mundana é efémera. Ou, como traduziu o aluno cábula mas sabidão, A gloria mundana não vale um flato.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Informação que mete água

 Leitor amigo alertou-me para uma notícia que está na origem do título desta peça. Realmente, estou cada vez mais encantado com alguma informação local. Sobretudo com esta, que nitidamente mete água, no duplo sentido da expressão. O leitor fará o favor de julgar aqui. Resumindo: "Tarifário dos SMAS não sofre aumentos em 2017. Há no entanto duas alterações na factura do próximo ano... ...e a criação de uma taxa mensal de 30 euros, para grandes consumidores/proprietários de captações de água, no que concerne à recolha de resíduos sólidos."

Duas observações me parecem pertinentes a este propósito. A primeira, quanto à redacção da notícia, que me levou a recordar a frase muito usada pelos que, como eu, combateram no ultramar, por uma causa perdida de antemão, por razões políticas. Essa frase é mais ou menos esta: "Nunca matei ninguém, excepto na guerra em África." Assim estamos agora, com o preçário dos SMAS para 2017. Não sofre aumentos. Excepto para os que começam a pagar mais 30 euros mensais, quer queiram, quer não. Que seja custo da água consumida, ou taxa municipal, para quem paga vai dar ao mesmo. O que me leva à segunda observação.

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Foto manholemiscellany.blogspot.com

Salta à vista que a nova taxa agora aprovada tem por único fim ir ao bolso daqueles empresários ou particulares, que a dada altura,  agastados com os preços nada moderados, praticados pelos SMAS-Tomar graças ao regime de monopólio, resolveram auto-abastecer-se, mediante captação própria. O que os isenta de pagar água quase ao preço do vinho a granel e, parcialmente, das taxas obrigatórias, agregadas a cada factura. Trata-se portanto de uma espécie de retaliação do tipo "Têm andado a fugir aos nossos preços?! Pois agora tomem lá, que é para aprenderem a ter juizo e a portarem-se com urbanidade." 
E daí ?!, interrogarão aqueles leitores com mentalidade de funcionário público, com carreira vitalícia assegurada, sentado e sem mais preocupações. E daí, julgo eu, pode muito bem vir a ocorrer de novo aquilo que aconteceu há anos atrás, quando pelo menos uma bem conhecida empresa tomarense decidiu mudar as suas oficinas (e os inerentes postos de trabalho) para Torres Novas, por considerar abusiva a nova taxa de esgoto a que fora sujeita. Essa empresa continua com as suas oficinas em Torres Novas, como bem sabem os seus clientes de Tomar, obrigados a fazer a viagem, para as revisões obrigatórias, por exemplo.
Como em tudo, nesta matéria de taxas e outras obrigações ficais, há que agir sempre com extrema prudência. Quando assim não acontece, esperam-se mais ovos e afinal enxotam-se as galinhas poedeiras. Sobretudo quando, como é o caso, os serviços em causa são tutelados pela CDU, que não é propriamente a formação partidária preferida dos empresários e investidores. Sem os quais, contudo, não pode haver criação de postos de trabalho criadores de mais valia. E Tomar não está propriamente a crescer em termos populacionais, conforme aqui se tem demonstrado, com dados oficiais incontroversos. Essa é que é essa!

anfrarebelo@gmail.com

Esclarecimentos sobre a notícia anterior

Sei bem que os leitores terão entendido perfeitamente todo o conteúdo da notícia anterior. Não estou todavia tão seguro que dessa leitura tenham extraído algumas conclusões e formulado algumas perguntas, que considero importantes para o futuro da nossa amada Tomar.
A primeira conclusão a retirar é que os conselheiros de Paris, membros eleitos do órgão deliberativo da capital, debateram energicamente a transferência para empresas privadas da gestão do estacionamento nas ruas e praças de Paris, até agora gerido pela câmara municipal, mas ficaram-se por aí. Não abordaram questões secundárias, como por exemplo os ruas e praças a tarifar, ou as bolsas de estacionamento gratuito. Por uma boa razão: 1 - Exceptuando as zonas pedonais, nas quais só é permitido o trânsito automóvel para urgências, cargas ou descargas e acesso às garagens, tudo o resto é tarifado. 2 - Não há bolsas ou dísticos de estacionamento gratuito para ninguém, excepto casos de manifesta urgência (médico em serviço urgente, em casa de um doente, por exemplo).

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Sede da Câmara Municipal de Paris, na Praça da Câmara Municipal (Place de l'Hôtel de Ville). Cada bairro parisiense, num total de 20, tem a sua própria câmara, recebendo directivas da câmara da capital, em conformidade com as leis vigentes.

A segunda conclusão é que 155 conselheiros de Paris, de um total de 163, bastaram para aprovar uma deliberação sobre 140.000 lugares de estacionamento. Na mesma proporção, admitindo com muita generosidade que nas ruas e praças tomarenses existam  7 mil lugares de estacionamento, o que corresponderia a 5% da capacidade de Paris, bastariam em Tomar, na mesma ordem de ideias, 5% dos 163 deputados municipais (para usar a pretensiosa linguagem nabantina), ou seja 9 conselheiros, arredondando para cima. Assim sendo, como justificar a composição da nossa triste Assembleia Municipal, com os seus 21 membros eleitos directamente, mais 11 presidentes de junta, por inerência de função, num total de 32? Tendo em conta a manifesta dificuldade de expressão de alguns membros eleitos, mas não só, trata-se da montra concelhia da nossa pobreza intelectual?

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A presidente da Câmara Municipal de Paris (PS), eleita em 2014, cujo mandato termina em 2020.

Uma informação final. Cada conselheiro de Paris recebe 4095 euros mensais. Os vereadores recebem 4808 euros. A presidente da câmara de Paris, a socialista Anne Hidalgo, arrecada mensalmente 8.509 euros, acrescidos de 2.416 euros para despesas de representação.
Dado que Paris é uma grande metrópole, com mais de 4 milhões de habitantes, e os eleitos são poucos, podem ser bem pagos. Exactamente o oposto daquilo que, inexplicavelmente, ocorre em Tomar e noutras terras por este pobre país fora. A nossa tradicional megalomania tem destas coisas.
E depois admiram-se que o Trump tenha ganho e que haja cada vez mais Trumps neste país e por essa Europa fora. Vêm aí tempos bem difíceis, ó se vêm!

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Vem mesmo a propósito...

Numa altura em que a Câmara nabantina resolveu alargar timidamente a área de estacionamento tarifado de superfície, vem mesmo a propósito esta notícia, traduzida do Le Monde on line de hoje:

"O estacionamento tarifado nas ruas de Paris vai passar a ser gerido por empresas privadas, a partir de Janeiro de 2018.

O Concelho de Paris votou hoje favoravelmente o projecto controverso, mesmo no seio da própria maioria municipal, liderada pelo PS.


En une décennie, Paris a perdu plus de 15 % de ses places de parking de surface.
Foto Ana Arevalo/AFP/Le Monde on line

A concessão a empresas privadas da gestão dos 140.000 lugares de estacionamento tarifado nas ruas e praças de Paris, a partir de Janeiro de 2018,  foi aprovado pelo Concelho de Paris. Esta reforma vai permitir assegurar maior eficácia na cobrança das taxas respectivas, considerando a Câmara da capital que com o modelo actual as fraudes são superiores a 90%, o que representa um prejuízo anual da ordem dos 300 milhões de euros.
Os actuais guardas municipais que asseguram a vigilância do estacionamento, serão transferidos para outras missões de serviço público.
A proposta de alteração do modo de gestão do estacionamento de superfície em Paris provocou um vivo debate no Concelho de Paris, mesmo no seio da própria maioria socialista, com os seus adversários a denunciar uma "privatização encapotada". A votação final só foi possível após vários acordos de corredor e de última hora, tendo-se verificado 74 votos a favor (Socialistas e Radicais de esquerda), 68 votos contra (Comunistas, Partido de esquerda e Republicanos), e 13 abstenções (Ecologistas). A opção da UD-MoDem de conceder a liberdade de voto aos seus eleitos foi determinante.
Os Republicanos (Centro direita), que votaram contra, consideraram que a reforma é um "passo tímido na boa direcção", declarou Philippe Goujon, deputado e presidente da câmara do 15º bairro.
Para os comunistas, que lideraram com bastante ânimo a luta contra o projecto, a gestão do estacionamento na ruas da capital "deve continuar a ser exercida pelo serviço público". "Vamos ser explorados", disse Danielle Simonnet  (Partido de esquerda), considerando que "esta função é municipal e não deve escapar ao Estado".

Pergunta que se impõe: Segundo esta notícia,  em Paris os borlistas são mais de 90%. Em Tomar quantos serão? Vai dar a mecha pró cebo? Ou vão ser os do costume a ter de pagar as novas maquinetas e as aselhices camarárias?

AFP Le Monde on line, 08/11/2016
Tradução e adaptação de António Rebelo