sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Triste e preocupante fim de reinado

Exilado por opção própria, aqui a mais de sete horas de avião, procuro ainda assim seguir a actualidade do país e da minha amada terra natal. Leio as notícias nacionais na net e vejo a SIC internacional, que francamente não me agrada por aí além. Quase 15 minutos de publicidade e promoção caseira, após cada quarto de hora de notícias ou de outra programação, parece-me francamente demasiado. 
Um bocado o que acontece também com a informação escrita via rede. Mesmo sem ser assinante, consigo ler o essencial no Expresso, no DN, no Le Monde, no El País ou no Libé. A triste excepção é o Público, um jornal de unhas de fome. Mal se abre, cobrem logo o conteúdo com uma oferta de assinatura, naturalmente muito vantajosa. Pois que lhes façam muito bom proveito as assinaturas assim conseguidas, mas comigo não contem.

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Foto pstomar.blogspot.com

No âmbito local, estou bastante melhor. A Isabel do Templário presenteia-me com a edição electrónica daquele semanário, o que naturalmente agradeço. Consigo também ouvir episodicamente a Rádio Hertz e a Rádio Cidade de Tomar, via net, mas não dá muito jeito, devido à diferença horária, agora de menos 3 horas. Além disso, acedo quando necessário aos sites do Mirante, do Cidade de Tomar, da Hertz e do Tomar na rede, este ultimamente muito calado quanto a comentários de índole política...
Foi lendo ontem a página digital do decano da informação local que tive um sentimento ainda por explicar cabalmente. Porque, ao contrário do habitual,  em que praticamente tudo na minha cabeça é claro e está bem ordenado, neste caso estou algo confuso. Se por um lado até já previ parte do agora sucedido, conforme pode ser consultado aqui, por outro lado, não esperava um desmoronamento emocional infelizmente tão rápido.
Citando declarações da presidente Anabela Freitas, que ainda não tive ensejo de ler na íntegra, Cidade de Tomar mostra que a autarca líder do PS começa a dar sinais que poderão ser, para os tomarenses em geral, tudo menos tranquilizadores. Dizer, à boa maneira do senhor de Lapalisse, ou dos publicitários do "Omo lava mais branco""Espero o resultado que os tomarenses me quiserem dar", revela evidente cansaço psíquico, um ano antes do embate decisivo.  Informar que "apresentou queixa por difamação em relação a publicações nas redes sociais" é inquietante. Porque é a primeira vez que tal acontece em Tomar, um presidente em exercício queixar-se judicialmente de abuso de liberdade de opinião. Porque dito assim, sem mais especificações, lança suspeitas sobre todos os que usualmente escrevem na Internet. Porque, finalmente, revela falta de tolerância democrática ou, pior ainda, vontade de perseguir para intimidar, tipo presidente turco, passe o óbvio exagero.
A menos que se trate simplesmente de questões do foro íntimo. Mas, a ser assim, melhor seria tratá-las privadamente. Ou explicar tudo de forma clara e completa. Assim é que não. 

Até as oliveiras se foram...

Durante séculos, Tomar foi capital templária e a grande urbe desta zona do país. Sucessivamente, templários e cavaleiros de Cristo, afinal os mesmos mas com outra designação oficial, souberam engrandecer e ampliar a doação inicial de D. Afonso Henriques, na sequência da tomada de Santarém. O primevo "termo de Ceras" transformou-se pouco a pouco, mercê da sábia administração dos sucessivos mestres da Ordem, num vasto território, que ia até Castelo Branco e Pombal, para norte, até à Golegã para sul. Para o defender edificaram vários castelos, que ainda aí estão, no seu todo ou já só em ruínas. Para a sua exploração agrícola dividiram-no em comendas, que foram depois aforadas pelos seus respectivos beneficiários, os comendadores.
Uma vez que na época os impostos eram pagos em géneros, mandou a Ordem construir moinhos e lagares em todos os seus domínios, aos quais os foreiros eram obrigados a entregar a sua produção. Obrigação que permitia a recolha do então chamado "quinto da Ordem", ou seja os 20% que revertiam para a Ordem de Cristo, no cumprimento do estipulado no respectivo foro. E que deram origem ao contemporâneo vocábulo "quinta", para designar uma propriedade média ou grande.

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Em Tomar chegaram até nós os lagares e moinhos da Ordem. Podem ser vistos ali na Levada. Felizmente restaurados. Infelizmente inúteis, por manifesta incompetência de quem nos devia governar a nível local. Neles se processou durante séculos a transformação dos cereais em farinha e da azeitona em azeite. Dali saiu, por conseguinte, o essencial da riqueza que o Infante D. Henrique, entretanto nomeado administrador da Ordem de Cristo, em 1420, usou para iniciar a campanha dos Descobrimentos. Financiados, segundo Zurara, o cronista oficial do Infante, "pela sua fazenda e as rendas da Ordem de Cristo."
A segunda grande machadada na autonomia da Ordem de Cristo, após a inicial, que foi a imposição papal do Infante D. Henrique como seu governador, aconteceu em 1529, já os reis de Portugal eram também mestres da ordem por inerência, depois do então duque de Beja e mestre da Ordem de Cristo, ter sido inesperadamente aclamado rei, como D. Manuel I, no final do século XV.
Em 1529, reinando D. João III, o tomarense  António Moniz da Silva, frade Jerónimo que professara em Espanha, adoptara o nome eclesiástico de Frei António de Lisboa, e era confessor do rei, conseguiu do monarca mandato para reformar a Ordem de Cristo. Aprovada essa mudança, comendadores e cavaleiros foram expulsos, iniciou-se a construção do chamado Convento novo (a parte renascença do Convento de Cristo) e começou a formar-se a nova Ordem de Cristo com "20 noviços ignorantes", nas palavras do próprio Frei António.

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Sete anos mais tarde, a partir de 1536, o reino de Portugal passou a ter o Tribunal da Santa Inquisição, cuja primeira sede foi em Tomar e no Convento de Cristo, tendo Frei António como seu superior. Sabe-se o que veio a seguir, enquanto durou a temida instituição, que ainda hoje envergonha o catolicismo sincero.
Ordem de frades de cógula, vivendo dos proventos proporcionados pelos bens da desaparecida Ordem dos Cavaleiros de Cristo, a Ordem de Cristo reformada foi decaindo ao longo dos séculos, tendo sido extinta, os seus bens sido nacionalizados, e posteriormente vendidos em hasta pública, a partir de 1834. Restam-nos as construções que ninguém comprou, bem como aquelas que acabaram por retornar à posse pública, por manifesta inaptidão para melhor, como é o caso dos antigos Lagares e moinhos da Ordem de Cristo, depois Lagares del Rei, a partir de D. Manuel I.
Quanto ao multi-secular império do azeite, apanágio da Ordem de Cristo, cujos principais lagares eram em Tomar, eis como estamos em 2016. Até as oliveiras  se foram alhures. Grande parte para fogueira. O restante para climas menos agrestes em termos fiscais e outros. Em sentido figurado, claro.

Lagares de azeite na região do Médio Tejo – 2015
ConcelhoNº de lagares
Abrantes11
Alcanena3
Constância0
Entroncamento1
Ferreira do Zêzere5
Mação18
Ourém10
Sardoal4
Sertã7
Tomar8
Torres Novas7
Vila de Rei1
Vila Nova da Barquinha0*
Total – Médio Tejo75
Fonte: INE
*Embora não constando dos dados estatísticos do INE, Vila Nova da Barquinha tem a funcionar, pelo menos, do conhecimento do mediotejo.net, o Lagar do Casalinho nas Limeiras, Praia do Ribatejo.
Tabela copiada de um trabalho de José Gaio, a quem agradecemos, para a revista digital da Comunidade intermunicipal do Médio Tejo


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Juro solenemente ter concluído o ensino básico com distinção

Mário Cobra

Prezados patrícios, estimadíssimos possíveis patrocinadores:
A cena seguinte ocorreu algures, no então chamado Ultramar. Já lá vão mais de quatro décadas. Veio ordem para mudar as chapinhas de alumínio, que cada um trazia ao pescoço, para quando... Iam ser substituídas por outras em inox. Nova folha de matrícula para cada militar. Companhia formada, começou o ritual: nome, filho de e de, nascido em, habilitações escolares. Sabe ler, escrever e contar em português, com correnteza?
O médico da companhia era natural de Goa – Índia portuguesa. Respondidos os quesitos essenciais disse, quanto às habilitações escolares, Formado em medicina pela Escola Médica de Goa. Sabe ler, escrever e contar em português, com correnteza, interrogou o primeiro sargento da Companhia. –Ó primeiro, com franqueza. Já disse que sou formado em medicina... -Não foi isso que eu perguntei, replicou o primeiro. Sabe ler, escrever e contar em português, com correnteza? Sim ou não? –Sim! –Então vamos ao seguinte. Nome...
Os tempos são agora outros, bem diferentes. Já não se fazem perguntas descabidas sobre os conhecimentos básicos, porque felizmente já praticamente todos sabem ler, escrever e contar em português, porém em muitos casos sem correnteza nenhuma. Vamos portanto a um suponha-se.
Suponha-se este vosso expedito servidor   não licenciado, indigitado para tomar posse como consultor governamental, autárquico, ou mesmo de uma qualquer tertúlia dos discriminados do tachito. Cerimónia de posse com pompa e circunstância, em manhã soalheira, pombos adejando pelos varandins, salão nobre engalanado com os seus melhores brocados e outros panejamentos, muitas flores, sobretudo cravos vermelhos e rosas idem, cadeiras repletas de familiares e amigos. Chega o momento tão aguardado: “Juro solenemente, pela minha honra, eu seja ceguinho, caia-me já aqui a placa dentária, o anjo da guarda seja meu avalista, se não concluí com distinção o ensino básico.".
Graças ao altíssimo, a nenhum dos presentes ocorreu repetir as velhas perguntas do primeiro da companhia, pelo que, perante as instituições, posso jurar pela alminha de um ouriço-cacheiro que nunca apresentarei licenciaturas falsas, nem que a vaca da má sorte tussa. E se tossir, deixá-la tossir. No meu tempo de ingresso na universidade, premonitório como convinha, mostrei-me interessado em matricular-me na licenciatura em subvenções vitalícias, a mais propícia a uma promissora carreira curtíssima. Assim tipo “queca” de coelho: -É tão bom, não foi? 
Para meu desgosto e desencanto, fui logo informado que, para aceder a essa licenciatura em subvenções vitalícias, só matriculando-me primeiro nos partidos políticos com acesso ao poder. Aí, na sede do partido mais a jeito, chutaram-me com a profecia “Muitos são os candidatos,  poucos os escolhidos. Vai aparecendo, que quem não aparece esquece.”


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Foto ilustrativa. Qualquer relação com o tema desta crónica será mera coincidência. Fortuita.

Sendo assim, assumindo-me desde já como não licenciado, não serei caçado, porque nem coelho nem rato, quando a administração pública submeter os indigitados para os cargos públicos ao teste das habilitações, na maquineta da verdade. Como fazem nas instituições bancárias, procurando detectar notas falsas, só que neste caso com o objectivo de evitar licenciaturas tão falsas como as empedernidas beatas da paróquia. Bem as conhecemos, suas fingidas!
Apraz-me ainda informar que me submeto, da melhor vontade, à obrigação institucional de entregar a minha declaração de rendimentos. Porque, se houver justiça, ainda tenho a receber e muito. E quanto ao meu património, resume-se a um carro velho, em idade de reforma, o qual só ainda circula porque não há outra hipótese. Tem de dar o litro até gripar. Entretanto, lá vai indo aos mecânicos e levando as afinações possíveis contra a gripe.
Caso, apesar de tudo, seja mesmo necessário apresentar uma licenciatura, naturalmente que não terei qualquer dificuldade em a obter, porque se adquirem com relativa facilidade, nos meandros da conveniência e da desfaçatez. Naquele processo bem conhecido como “Toma lá, dá cá”. Seja portanto como der mais jeito. Com canudo ou sem canudo, como se dizia noutros tempos. E se for necessário um doutoramento, posso apresentar desde já o da mula ruça. Só me falta a alimária, o chapéu de chuva e a carapuça, mas isso arranja-se em menos de um fósforo. Alimárias não faltam, guarda-chuvas também não, e carapuças andamos nós todos a enfiar há décadas.

Resposta a um leitor

Em Tomar ainda estamos a tempo

Bem haja pelo seu escrito. Acedendo ao seu pedido, não o reproduzirei, para evitar que lhe possam reconhecer o estilo, nem mencionarei o seu nome. Porque é assim que, na minha ideia, as coisas devem ser sempre tratadas, entre pessoas civilizadas que discordam entre si, mas se respeitam mutuamente. Dizer livremente o que nos vai na alma e assinar por baixo. Solicitando depois, se necessário, as reservas usuais, quanto ao nome e à redacção.
Tem razão, logo no início da sua mensagem pouco amena, todavia correcta em termos de boas maneiras. Ao citar e comentar, ainda que de forma sucinta, César das Neves, apoiei implicitamente um modelo de sociedade que tem  mais a ver com os Estados Unidos ou a Holanda, do que com Portugal. Fi-lo por ter constatado que são sociedades capazes de viver sem sobressaltos de maior, de crescer economicamente e de resolver os seus problemas principais sem delongas nem dramas inúteis.
Para lhe dar um exemplo comparado concreto, os mexicanos têm segurança social assegurada pelo Estado e os americanos não. Apesar disso, como decerto sabe, são os mexicanos que procuram por todos os meios emigrar para os Estados Unidos, e não o inverso. (Ver foto)
Porque será?

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      Foto Carlos Romero.
      Vedação na fronteira México/Estados Unidos

Deseja outro exemplo? O que levará os emigrantes e refugiados que já estão em França, onde até há segurança social eficaz, uma administração cumpridora e um governo socialista, a tudo fazerem para alcançar a Inglaterra, com um governo de direita, conservador, que vai abandonar a União Europeia para evitar a livre circulação de cidadãos,  e cujo clima é bem mais agreste?
Outra vertente em que o senhor tem razão é aquela em que refere a política de António Costa e da actual geringonça. Com efeito, tendo em conta a composição social do país que somos, parece indispensável, tal como escreveu no seu texto, o voto dos pensionistas e dos funcionários para se ganharem eleições. Convém, contudo, interrogar-se a esse respeito, creio eu. Porque se assim fosse realmente, se bastasse favorecer esses dois importantes grupos sociais para vencer eleições, então há muito que teríamos o Jerónimo de Sousa ou a Catarina Martins, ou mesmo os dois, instalados em S. Bento, sem precisarem para isso do colo do PS. Cuidado portanto com certos raciocínios, que podem muito bem induzir-nos em erros graves, ao não integrarem uma análise assaz fina da realidade social..
Vindo agora para a triste e preocupante realidade tomarense, parece-me que ainda estamos a tempo de mudar de caminho, mesmo se considerarmos ser indispensável o voto dos pensionistas e funcionários para ganhar eleições. É verdade que, até agora, todos os vencedores têm ido por aí. Sobretudo no que diz respeito aos funcionários municipais, na prática os donos e senhores daquela casa, que vão arruinando, quero crer que sem disso se darem conta. Porque o oposto seria demasiado cruel e eu continuo a acreditar que são cidadãos bem intencionados, apenas demasiado orientados para os seus bolsos..
Posso estar errado, porém o meu entendimento é o seguinte: Assoberbados com a preocupação de conseguirem sempre  mais e mais, tanto os funcionários da autarquia como os políticos municipais se colocaram sucessivamente na situação nada confortável dos tóxicodependentes. Querem consumir sempre mais, sem cuidar de evitar que o excesso, a conhecida overdose, os venha a matar. No caso, que o excesso de vantagens e de hostilidade à iniciativa privada venha a arruinar sem remédio a economia local, colocando uns e outros em risco de desemprego. Parece-me que já faltou mais.
A terminar, uma clarificação que reputo indispensável. Não tenho informação suficiente para poder pronunciar-me quanto ao país em geral. Quanto ao concelho de Tomar, os funcionários municipais que, na minha tosca opinião,  são os verdadeiros inimigos da iniciativa privada e por conseguinte dos investidores, não passam, no fim de contas, de uma dúzia de tristes criaturas, que têm conseguido assustar os sucessivos executivos municipais. E uma ou mesmo  duas dúzias de votos não valem grande coisa, num universo de mais de 35 mil. Oxalá haja portanto, em 2017, candidatos com a coragem necessária para proclamar, durante a campanha eleitoral, "Comigo na Câmara, os eleitos mandam e os funcionários obedecem. Ou demitem-se."
Se assim vier a acontecer, ainda poderemos ir longe, como comunidade livre, orgulhosa do seu passado de séculos.
Esclareci as suas dúvidas, caro correspondente?
Pois mande sempre. Entretanto, peço-lhe que aceite as minhas cordiais saudações.
Sem reserva mental, porque tenho as mãos limpas e apenas pugno pelo bem comum, alheio a interesses pessoais..


quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Câmara de Tomar: PSD ajudando PS sem querer?

O PSD local é, como se sabe, liderado por João Tenreiro, jovem conterrâneo por quem tenho consideração e amizade. Não só por o saber intelectualmente desempenado, educado, bem formado, solidário e empenhado na resolução dos problemas da comunidade tomarense. Também por ser amigo dos seus pais e concordar com várias das suas opções. O que não me impede de o criticar com a imparcialidade possível.
Politicamente, há um detalhe importante que me parece que Tenreiro deveria ter em conta. Que é este: Decerto não por mero acaso, os seus companheiros de militância alcunharam-no, há já algum tempo, de "João Tenrinho". Epíteto que, após reflexão, lhe assenta muito bem. Porque o visado parece pensar e agir de forma escorreita, porém parcelar, demasiado lenta, e por isso menos adequada. 
Por outras palavras, a actuação excessivamente prudente dos actuais dirigentes laranja, tanto os vereadores como os outros, podendo parecer à primeira vista a mais apropriada, é no final nefasta, devido às consequências que origina. A principal das quais julgo alarmante, porque preocupante para o futuro político da comunidade nabantina. Refiro-me à frase assassina que por aí se ouve,  cada vez com maior frequência: -"A câmara PS não vale grande coisa (ou não presta, noutra versão), mas também não há melhor."


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                                   Foto Cidade de Tomar, com os meus agradecimentos.

Esta afirmação, à primeira vista trivial, numa terra de endémica má-língua, parece-me pelo contrário muito grave e profunda, porque indica afinal o futuro que nos espera, caso nada façamos para alterar quanto antes o triste estado actual das coisas. Numa curta frase, ela anuncia subliminarmente o funeral da democracia   em Tomar. Porque, sendo a democracia o governo escolhido pelo povo, e não havendo escolha real ("estes não prestam, mas os outros também  não são melhores"), adeus democracia, adeus eleições. Não vale a pena perder tempo com inutilidades. Haverá então cada vez maior percentagem de abstenções e os eleitos terão cada vez menor credibilidade. "Votei nestes que não valem nada, porque os outros ainda eram piores." Optar pelo menor dos males, em suma. Aceitar o fatalismo. Admitir que, enquanto comunidade, nunca mais vamos conseguir sair da cepa torta. Ultrapassar esta apagada e vil tristeza, como diria o poeta.
O que têm Tenreiro e os laranjas a ver com tão trágico estado de coisas? Não tudo, mas quase tudo, que os outros oposicionistas também não podem lavar as mãos como Pilatos. Mas o caso laranja é o mais grave. Porque é dali que os eleitores esperam a alternativa. Como sempre tem acontecido desde o 25 de Abril, período durante o qual os tomarenses já tiveram 5 Câmaras PSD, 2 AD, (ou seja 7 mandatos liderados pelos social-democratas) e apenas 4 PS. Que, agravando ainda mais a situação, conta neste mandato com apenas 3 eleitos em sete, um dos quais já se transformou em dissidente, por causas ainda não totalmente apuradas.
No mandato iniciado em 1993 conseguiu o PS quatro mandatos, tendo-se contudo esfrangalhado, tal como acontece agora, o que facilitou as vitórias do PSD em 1997, 2001, 2005 e 2009. Quatro triunfos seguidos, que terminaram como se sabe. Com um cabeça de lista obnubilado pela bem conhecida síndrome de deslumbramento pelo poder, que logicamente perdeu, apesar da igualmente evidente falta de consistência dos adversários vencedores.
Desta vez, infelizmente, apesar da conhecida fractura socialista,  com as suas hesitações, os seus adiamentos, as suas incapacidades, os seus erros tácticos  e estratégicos, a actual direcção laranja nabantina está afinal transmitindo, de forma implícita, aos eleitores tomarenses, que o melhor é votarem novamente no PS. Porque eles, PSD, não se sentem preparados para grandes opções. Para a alternância no poder. E muito menos para subsequentes programas audaciosos, que a gravíssimaa conjuntura tomarense exige. É uma pena porque, conforme dizia o outro, "Em política, o que parece é". E, nesta altura em Tomar, o que parece à opinião pública é que, tal como os restantes oposicionistas, incluindo o vereador Serrano, o PSD, com o seu incómodo e detestado imobilismo, aliado à manifesta dificuldade para fazer escolhas complicadas, está afinal a ajudar o cada vez mais esfrangalhado e minoritário PS. Deliberadamente? Sem querer? 
Há que dar tempo ao tempo, para ficarmos a conhecer enfim a resposta inapelável. As próximas autárquicas praticamente são já ali adiante.

anfrarebelo@gmail.com

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Um extremista não perigoso

"Pode haver um milagre?"
"O milagre seria o crescimento económico. Por isso é assustador ver a política do Governo estar centrada em atividades não produtivas. Não se olha para as empresas nem para os trabalhadores. Olha-se para os funcionários e os pensionistas. O problema é a falta de capital. Devia facilitar-se, reduzindo regulamentos e criar condições para aumentar a confiança das empresas. A primeira coisa a fazer é calar as posições extremistas dos que apoiam o Governo."

João César das Neves, professor catedrático de economia da Universidade Católica e comentador político, em entrevista ao Expresso on line, 01/11/2016

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Sabe-se que César das Neves é um extremista, do grupo dos não perigosos. Saindo da usual narrativa de extrema-esquerda, mascarada de senso comum, César da Neves é afinal um professor de economia preocupado com o seu país e que tem a coragem de assumir publicamente a sua ideologia. É um homem de direita, que logicamente defende a iniciativa privada e o liberalismo, opondo-se portanto ao evidente aumento do peso do estado, por causa dos também evidentes prejuízos que causa.
Não é o momento nem o local para aprofundar esta matéria, de resto demasiado árida para a paisagem tomarense. Se aqui a trouxe foi apenas para dar a conhecer uma das respostas do professor no âmbito da entrevista ao Expresso on line.
Faça o favor de substituir na citação acima "Governo" por "Câmara". Já está? Já efectuou as duas substituições, uma na segunda linha, outra no final do texto? Pois aí tem, quanto a mim que não me considero de direita, a exacta situação tomarense actual. E a explicação para a cada vez mais acentuada redução da população. Mais comentários para quê?

anfrarebelo@gmail.com

SMAS - Importante mesmo é a relação qualidade-preço

                        Foto Rádio Hertz, a quem agradeço.

Segundo uma notícia da Rádio Hertz, vamos ter dentro de pouco tempo certificação de qualidade dos serviços prestados pelos SMAS-Tomar. Antes de mais, procurando evitar eventuais dúvidas, parece-me óbvio que a dita notícia é afinal um pedido de publicação daqueles serviços. O que denuncia o objectivo visado: melhorar a péssima imagem da casa, recorrendo ao método clássico da atirar com areia para os olhos das pessoas.
Na condição de cliente forçado, uma vez que não há concorrência nessa área da água e esgotos, ao contrário do que acontece com a energia eléctrica, vá-se lá saber porquê, nunca me queixei da qualidade da água. Queixo-me, isso sim, e creio não estar sozinho, da péssima relação qualidade-preço. Não entendo porque motivo ou motivos, os lisboetas consomem água com a mesma origem da fornecida em Tomar, mas pagam-na a praticamente metade do preço, apesar dos custos de tratamento manutenção e transporte  ao longo de mais de cem quilómetros.
Ou, melhor dizendo, entendo mas não aceito. Entendo que em Tomar o que está em causa não é (só) o custo da água, mas sim as taxas obrigatórias agregadas.Isto porque, de há anos a esta parte, os sucessivos executivos, todos péssimos administradores, resolveram, por facilidade, transformar os SMAS em vaca leiteira e cobradora de taxas do município. Taxas que são exageradas e estão na origem directa de vários casos conhecidos de empresas que se mudaram para outros concelhos com taxas mais moderadas. O que representa menos postos de trabalho. E acelera a ruína económica, porque menos empresas = menos postos de trabalho = menos população a produzir = menos dinheiro em circulação = menos movimento no comércio local = menos lucros = menos impostos pagos = menos recursos para a autarquia = novo aumento de taxas = fuga de empresas = menos postos de trabalho... Como bem dizem os franceses, "demasiado imposto mata o imposto". Mesmo se camuflado no recibo da água.  É o que vem acontecendo em Tomar, de há quatro décadas para cá. Só não vai embora quem de todo não pode.
A actual administração dos SMAS sabe tudo isso muito bem. E sabe igualmente que, como também acontece na Câmara, tem excesso de pessoal superior e falta de trabalhadores braçais. Nomeadamente para reparar roturas várias, numa rede que, por exemplo na cidade velha e na zona onde habito, data dos anos 30 do século passado. Tem portanto mais de 80 anos...
Sabe outrossim que na mesma zona, os moradores-clientes forçados dos SMAS pagam a taxa de tratamento de esgotos, que todavia não são tratados, por manifesta impossibilidade física. Explicando melhor. Para que haja tratamento de esgotos de forma racional, é necessário haver previamente separação dos ditos. Um colector para as águas pluviais. Outro colector para os chamados efluentes domésticos. Sucede que, naquela zona do pomposamente chamado Núcleo histórico (Largo do Quental, Rua Pé da Costa de Baixo, Rua do Teatro, Rua Aurora Macedo, Rua Direita e dois terços da Rua Nova), o esgoto é ainda de colector único. Por conseguinte, uma de duas hipóteses. Ou os esgotos não são tratados, apesar de os consumidores forçados pagarem esse mesmo tratamento; ou no inverno a Estação de tratamento estará a depurar sobretudo água da chuva.
Oportunamente contactados, no sentido de esclarecerem quando se prevê a modernização do referido sector urbano, com a consequente supressão da anomalia, a resposta dos SMAS foi lacunar, estilo funcionário público: "Está previsto, falta determinar quando. Não há verbas disponíveis." Resta portanto ir-se contentando com a certificação de qualidade. E pagar gato por lebre.
É conhecida a opção ideológica do actual vereador  responsável pelos SMAS. Bruno Graça considera que o Estado, neste caso por intermédio da autarquia, é quem melhor pode servir os cidadãos, designadamente porque não visa o lucro. Está no seu direito, embora esse modelo já tenha mostrado e continue a mostrar os seus limites, tanto aqui como alhures. Mas então convinha que levasse o seu raciocínio até ao fim.
Uma vez que, ao contrário da opção feita em Ourém por exemplo, concessionar o serviço municipal de águas e esgotos, seria para a CDU uma heresia política, convinha que o seu vereador arranjasse quanto antes maneira de suprir as deficiências apontadas. Nomeadamente a modernização das redes na zona apontada, bem como a redução acentuada das taxas. Sem o que, a decadência da cidade e do concelho será cada vez mais evidente, porque em aceleração contínua.
Resumindo, sucede com a economia o mesmo que acontece com a chuva. São ambas amiúde muito desagradáveis, porém incorrigíveis. Resta portanto adaptar-se. Porque nem vai deixar de chover, nem os essenciais da economia vão mudar.

anfrarebelo@gmail.com