quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Maus funcionários no IEFP

Queixa-se o leitor João Alcobia de ter sido tratado com pouca cortesia e nenhum  profissionalismo nos serviços do IEFP de Tomar. Segundo informações chegadas a Tomar a dianteira, alguns funcionários terão manifestado reiteradamente falta de educação e  falta de zelo para com ele, situações puníveis pelos regulamentos disciplinares em vigor.
Não surpreende que tal tenha acontecido, numa cidade em crise, onde praticamente já só vivem funcionários públicos, pensionistas, aposentados e respectivos dependentes. O que cria inevitavelmente situações em que empregados públicos menos probos e competentes se julgam donos dos serviços nos quais deviam trabalhar, mas infelizmente pouco mais fazem do  que marcar presença e receber ao fim do mês.. Daí resulta por vezes que procuram escapulir-se às suas obrigações, despachando quem a eles se dirige para outros colegas de igual estirpe, que não raro os reenviam à origem. É triste e mesmo algo desumano, mas é mesmo assim que acontece. Sobretudo em Tomar, cuja lamentável mentalidade dominante começa a ser bem conhecida na região.
Tratando-se de serviços em que, geralmente, os cidadãos que a eles recorrem já padecem de problemas sociais, sobretudo da gritante falta de emprego, o mau atendimento passa a ser uma ilustração da velha máxima "O pior inimigo do homem é em geral outro homem." E para quê afinal? Qual a utilidade da falta de profissionalismo? Para humilhar o semelhante? Para evitar ter mais que fazer? 
É claro que também há excelentes funcionários em todos os serviços, os quais felizmente ainda são a maioria. Mas pelo caminho que as coisas levam...
Pobre gente! Pobre terra!

Notícia verdadeira, argumento falso



Foto Cidade de Tomar, a cuja redacção agradeço.

"O retorno para a região é inequívoco e basta verificar o exemplo do Convento de Cristo em Tomar que, após os investimentos inaugurados há pouco mais de um ano, viu o seu número de visitantes aumentar exponencialmente."
Este parágrafo, que fecha uma notícia que pode ser lida aqui, respeitando sempre a verdade, acaba mentindo aos leitores, naturalmente sem que essa tenha sido a intenção dos seus redactores. Com efeito, estando fora de qualquer contestação que: A - A integral reabilitação do Aqueduto dos Pegões é urgente; B - Os investimentos feitos no Convento de Cristo foram úteis e importantes; não corresponde todavia à verdade que desses investimentos tenha resultado um aumento exponencial do número de visitantes. Desde logo porque não se registou tal tipo de incremento. Depois, porque a origem do aumento de visitantes em 2015 nada tem a ver com os investimentos já mencionados.

                Total de visitantes do Convento de Cristo-Tomar
   2010
    2011
    2012
   2013
   2014
  2015
 154.438
 198.274
 183.027
 191.278
 209.294
254.313
        Fonte: DGPC - IGESPAR - Estatísticas de visitantes de museus e palácios


Lendo com alguma atenção o quadro supra, com as estatísticas do IGESPAR, a entidade pública que toma conta do Convento de Cristo, constata-se que, entre 2010 e 2015, apenas se registaram dois aumentos anuais ligeiramente superiores a 40 mil entradas. O primeiro em 2011 (aumento de 43.836 visitantes em relação a 2010), o segundo em 2015 (aumento de 45.019 visitantes em relação a 2014)
Verifica-se até que o total de bilhetes vendidos conseguido em 2011 só veio a ser ultrapassado três anos mais tarde, em 2014. Tudo isto porquê? Porque, mesmo tendo em conta o ligeiro aumento do afluxo de visitantes logo que se concluem obras de restauro, e isso é anunciado, no caso de Tomar ocorreu um factor determinante. Tanto em 2011 como em 2015 realizou-se a Festa dos Tabuleiros. Cuja edição 2015, segundo fonte fidedigna da própria autarquia, custou aos cofres camarários, a fundo perdido, um total superior a 247 mil euros. E o dinheiro das entradas no Convento de Cristo vai integralmente para o IGESPAR, em Lisboa. Compreende-se portanto que a autarquia nabantina possa não estar muito interessada nas obras de recuperação do Aqueduto dos Pegões, as quais mesmo sendo financiadas pela União Europeia, exigem contudo uma participação portuguesa de 15%, que nunca poderá vir a ser recuperada, posto que os Pegões não geram qualquer receita própria.
A pior coisa que pode acontecer a uma boa ideia é ser defendida com um mau argumento. No caso presente, o argumento até parecia bom, mas infelizmente não tem qualquer base. É falso. Significa isso que a ideia deva ser abandonada? Que a anunciada visita de parlamentares social-democratas não foi útil e oportuna? De modo algum.
As mencionadas obras devem pelo contrário ser defendidas com unhas e dentes, (em sentido figurado, bem entendido). Ou seja, a autarquia deve pugnar junto do governo para que haja um projecto completo de reabilitação do Aqueduto dos Pegões, que ponha de novo a funcionar o antigo eco-sistema, que ia das nascentes da Boca do Cano e do Vale do Feto, até ao Tanque dos frades, na velha Cerca, passando pelo laranjal do Castelo e abrangendo o tanque junto à antiga prisão da Santa Inquisição, anexa à Torre de Dª. Catarina. Numa curta frase: Repôr os Pegões a fornecer água ao Convento, ao Castelo e à Cerca. Como aconteceu durante mais de 300 anos, criando na Cerca um microclima, que se foi com o secamento do aqueduto.
É do domínio público que a actual maioria relativa que está na autarquia não candidatou qualquer projecto a fundos de Bruxelas, decerto porque não sabia nem sabe o que candidatar. Falta saber agora se estará disposta a apadrinhar esta reabilitação dos Pegões, prevista pelo governo anterior. Nunca é tarde para mudar para melhor.



terça-feira, 25 de outubro de 2016

As mesmas causas...






TOMAR – Mais uma reunião de trabalho entre Município e freguesias

"Os presidentes das Juntas de Freguesia do concelho de Tomar reuniram no dia 13 ao final da tarde nas antigas instalações da Junta de Freguesia de Santa Maria dos Olivais, agora pertencentes à Junta Urbana, numa reunião de trabalho que contou com a presença da presidente da Câmara, Anabela Freitas e dos vereadores Hugo Cristóvão e Bruno Graça. A edil deu conta aos presentes de que para o ano de 2017 vão ser realizados contratos interadministrativos para intervenções nas estradas com nove das onze juntas de freguesia. De fora ficam S. Pedro e Olalhas porque, nos seus casos, as obras a efectuar serão, pela sua dimensão, respectivamente da responsabilidade dos SMAS e do Município. Em relação aos acordos de execução, a presidente referiu que haverá um aumento de 10% das verbas para cada uma das onze juntas. Das questões abordadas, que incluíram o arranque do ano lectivo, a situação face à legislação dos parques infantis propriedade do Município e das juntas, a deambulação e outras situações relativas aos canídeos, realce ainda para a informação de que irá ser reforçada a recolha de lixo e limpeza de contentores nas freguesias rurais, bem como a indicação de que o Município irá acompanhar de perto a questão da recuperação dos parques infantis de modo a adequarem-se à legislação em vigor."
Esta notícia ilustrada foi publicada no site da Rádio Hertz, a quem agradeço, mas  não encaixa no usual estilo de escrita daquela estação. Topa-se que foi redigida alhures, ali para os lados dos Paços do concelho.  Resolvi reproduzi-la aqui como base para demonstrar o estado a que chegou a política tomarense. Tudo o que segue é contudo da minha inteira responsabilidade, quer se trate de afirmações, de induções ou de deduções.
A afirmação segundo a qual "As mesmas causas, nas mesmas condições exteriores, produzem sempre  os mesmos efeitos", atribuída ao químico francês Lavoisier (1743-1794), é bem conhecida. Tanto na química como nas ciências humanas. Aqui em Tomar, na área política, é exactamente aquilo que podemos constatar e que a notícia acima reproduzida permite deduzir sem qualquer dúvida possível.
Se os leitores bem se recordam, o vereador Carlos Carrão, que nunca decerto pensara em tal, acabou catapultado inesperadamente na presidência da autarquia, devido ao afastamento e posterior renúncia, por esgotamento nervoso, de Corvêlo de Sousa. Ao cabo de apenas alguns meses, apesar dos numerosos desastres anteriores, deslumbrado pelo novo poder, o antes vereador  conseguiu convencer os seus companheiros partidários de que era ele o melhor candidato. Para tanto, garantiu que tinha o apoio certo dos presidentes de junta. Perdeu por pouco, mas perdeu para o PS, com Anabela Freitas à cabeça e Luis Ferreira a manobrar de facto, que tão pouco tinham pensado seriamente em vencer. Tanto assim que, ainda hoje, três anos volvidos, está por saber qual era e é realmente o seu projecto político, para além de algumas ideias avulsas, desconexas e desadequadas.
O que não impede que a presidente do executivo, igualmente deslumbrada pelo exercício do poder, procure seguir os passos de Carlos Carrão, ao multiplicar as reuniões e outros contactos com os presidentes de junta, com intuitos nitidamente eleitoralistas. O que no meu entender denota ignorância da real situação política concelhia, demonstrando assim que as mesmas causas...
Apesar de ter apregoado o tal apoio unânime dos presidentes de junta, a verdade é que o PSD de Carrão apenas conseguiu vencer folgadamente, com uma diferença superior a 10%, em 4 freguesias: Casais-Alviobeira, Carregueiros, Olalhas e Serra-Junceira. Venceu também em S. Pedro, mas com apenas mais 3,59% em relação aos socialistas. Temos de concordar que foi um desastre, para quem pouco antes garantira que venceria nas freguesias rurais.
Mas os socialistas, embora vencedores, obtiveram em 2013, globalmente, apenas mais 1,41% que o PSD, naturalmente penalizado por 16 anos de desastrado exercício do poder. O então fresco e puro PS, apesar disso, só conseguiu vitórias convincentes, com maioria superior a 10% em relação ao PSD, em 3 freguesias: Asseiceira, Madalena-Beselga e Sabacheira. É pouco, muito pouco, dadas a circunstâncias da época. Mesmo incluindo as vitórias tangenciais de Além da Ribeira-Pedreira, Paialvo e S. João-Santa Maria, porque afinal se ficaram por um magra vitória de 6 a 5 freguesias. E nem sequer lideram a junta paialvense.
É por isso minha firme convicção que, salvo milagre socialista, como seria o surgimento de um projecto fora de série, ou sucessivos erros crassos do PSD, o curto, triste, agitado e pobre reinado do PS nabantino, termina daqui a um ano. Qualquer que venha a ser o apoio dos presidentes de junta, pois o modelo implícito por eles defendido está condenado, por falta de recursos financeiros. O tempo dos almoços grátis tem os dias contados. Tal como de resto vai suceder com a geringonça. É só dar tempo ao tempo...

Adenda
É claro que os socialistas vão dizer que não senhor; que as reuniões com os presidentes de junta não são nada eleitoralistas; que são encontros de trabalho. A música do costume.
Nunca duvidei nem duvido da pertinência nem da utilidade de tais encontros, cuja regularidade, no entanto, melhora sempre em ano pré-eleitoral. Porque será? Brusco aumento dos temas a debater? É bem capaz. Repare-se que um dos assuntos discutidos na reunião a que se refere a notícia acima deve ter sido mesmo apaixonante:"Das questões abordadas que incluiram... a deambulação e outras situações relativas aos canídeos..."  O problema dos cães vadios, falando mal e depressa. Em quem irão eles votar? Porque também os há -e cada vez mais- em política. É até esse, no fim de contas, o principal quebra-cabeças dos autarcas que vivem da política.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Festival de estátuas vivas no CIRE


António Freitas





A 1ª Mostra de Estátuas Vivas do CIRE, em Tomar, foi um sucesso. Houve quadros muito profissionais O bilhete de entrada custava 3 euros, destinados a fins sociais:  Compra de um autocarro adaptado para o transporte de pessoas com necessidades específicas. Durante o evento ouviu-se muito que "Tomar foi pioneira no Festival de Estátuas vivas e esta câmara acabou com ele"
Seria bom que se acrescentasse que o referido  festival de Estátuas Vivas era subsidiado com 75 ou 85 mil euros, pelo que, enquanto houve dinheiro fácil fez-se, depois jamais câmara alguma poderia suportar essa despesa. 
Ao que se sabe, na altura, os profissionais das Estátuas cobravam 35 mil euros, mas a logistica e a promoção hoje em dia custam mais do que fazer as coisas, pelo menos em Tomar. Ao menos aqui no CIRE temos profissionais, sentido social e dedicação. Pagamos bilhete com gosto para ajudar e não temos a mira do dinheiro.


Torres novas opta por patamares superiores


Mário Cobra
“A Câmara de Torres Novas precisa de mais 70 trabalhadores…está em causa a contratação de oito funcionários para várias secções tendo a proposta sido aprovada pelos PS e pelo PSD, com a abstenção do BE. A vereadora do Bloco de Esquerda mostrou muitas dúvidas quanto a algumas das contratações previstas, entre elas a de um técnico superior de literatura clássica e outro de cinema. "O município de Torres Novas só tem um calceteiro que trabalha sozinho e este já se queixou a mim e ao presidente da câmara", afirmou a autarca. (Semanário O Mirante)
Nota - Vai daí, acompanhámos os profundos momentos desta superior tomada de posição por parte do compenetrado presidente da câmara. 
Cofiando o bigode ralo, estilo Errol Flynn em versão Médio Tejo, o edil torrejano, absorvido nas suas majestáticas funções de presidente, assomou-se à varanda, fixou-se naquela auréola de quem envereda por opções e arrebitou a pusilânime postura de preparar a admissão de 70 trabalhadores dos clássicos. No gabinete, um prelúdio de Chopin engrandecia os momentos da ponderação. Adorava música clássica. Quando atendia qualquer munícipe, sempre com fundo musical, perguntava de imediato “Quer ouvir Beethoven ou Quim Barreiros?”. Registou no bloco de notas “Não esquecer valorizar a componente clássica da cultura citadina”. Novo registo no bloco de notas “Admitir técnico superior de literatura clássica”.
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Sabendo que alguns dos seus súbditos ainda adoravam Sócrates (o ex-primeiro ministro, mais enriquecedor ao que consta, não o filósofo da Grécia clássica, demasiado indigesto) contava que o técnico superior realçasse aspectos mais problemáticos do grande pensador, nomeadamente:         
                - Unir-se a deuses malignos que gostavam de destruir as cidades.
                - Corromper jovens com as suas ideias.
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O edil preferia Homero, o poeta épico da Grécia antiga, em especial a forma prosaica como este proclamava “Ó que merda”, a resposta que ao edil apeteceu dar quando a oposição recalcitrou “Não estamos a ver necessidade de um técnico superior de literatura clássica e outro de cinema. O município de Torres Novas só tem um calceteiro que trabalha sozinho e este já se queixou a mim e ao presidente da câmara". Tomou nota “Admitir técnico superior em calcetadoria, para supervisionar o calceteiro que trabalha sozinho”. Não podia hesitar, baseando-se no pensamento de Homero “A marca da sabedoria é ler correctamente o presente e marchar de acordo com a ocasião”.
 
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Não entendia de todo o comentário da oposição, só porque ele, em momento de génio, fora à casa de banho e desenriçara a decisão de abrir o próximo ano cultural com a versão torrejana de um grande filme clássico. Já tinha título para o mesmo “O parque jurássico da Pedreira do Galinha”. Registara no bloco de notas “Admitir técnico superior de cinema”.
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Outros registos respigados do citado bloco:
                -Um técnico superior em nozes e outro em passitas por causa da feira dos frutos secos.
                -Um técnico superior em ortodoxia por causa da Santa da Meia Via.
                -Um técnico superior em musculação por causa da fortaleza medieval
                -Um técnico superior em línguas mortas por causa dos cemitérios.
               -Um técnico superior em achados e em rezas a Santo António de Pádua, protector em Itália das coisas extraviadas, por causa dos 40 funcionários que o município perdeu nos últimos dois anos.
E por aí fora, até 70. Que o orçamento do Estado é sempre generoso. E o bolso dos contribuintes um manancial que os sucessivos governos julgam inesgotável. O problema virá só quando forem forçados a constatar o equívoco.   




Tomar - Cidade Templária?

Lê-se por aí, com cada vez maior frequência, o dístico "Tomar - Cidade Templária". A autarquia têm-se encarregado dessa difusão, sobretudo através do seu papel timbrado. Dada a já relativa notoriedade, convém escrever a verdade factual, não vá alguém atribuir-se abusivamente a respectiva paternidade. Atitude lamentável, porém assaz frequente em Tomar, nos tristes tempos de "copiar/colar" que vão correndo. Fui, sem querer, o seu autor, nos idos de 90 do século passado.
Era então vereador camarário o socialista tomarense Lino Rola Cotralha, infelizmente já falecido. Tendo celebrado com a empresa J.C Decaux, em representação do município, um acordo de colocação de publicidade estática no espaço urbano, em torres redondas e painéis -os chamados MUPIS- foi-lhe pedido pelos criativos da referida empresa um ideia geral para uma torre plana a instalar na principal entrada da cidade, ali ao lado da actual rotunda do Padrão de D. Sebastião. Ao fundo do acampamento dos ciganos, para perceberem melhor.
Dado que eu era na altura chefe da divisão sócio-cultural da câmara, função na qual havia sido provido mediante prévio concurso público, o vereador Lino Cotralha veio falar comigo, solicitando o que eu conseguisse arranjar sobre o assunto. Pedi-lhe algum tempo para pensar e no dia seguinte transmiti-lhe o que conseguira: 1 - Decorar a torre com uma reprodução da Balsa dos templários (ver foto), a bandeira da extinta ordem, que Tomar é a única cidade no país e  na Europa  a ainda poder içar e usar legalmente, uma vez que a citada milícia nunca aqui deixou de existir; 2 - Inscrever sob o estandarte o dístico Tomar  Cidade Templária.



O que aconteceu de então para cá é conhecido. 
Sucede contudo que, originariamente, a minha ideia tinha sido outra. Pensara em Tomar - Capital Templária, procurando respeitar a História. Porque cidades templárias há outras em Portugal -Pombal ou Castelo Branco, por exemplo- mas capital há só uma -A minha querida Tomar terra-mãe. Calei a ideia primeira e comuniquei tão só a segunda, desculpando-me perante mim próprio com um argumento de circunstância. Deixa ver primeiro se pega. Depois, se tal for o caso, será sempre oportuno e menos abrupto passar de "cidade" para "capital" templária.
Na verdade foi apenas um argumento-desculpa, visando esconder a verdadeira razão para me retrair  Já então receava muito do que veio a acontecer depois. Penso por isso ser agora tempo de contar toda  a verdade.
O que então levou a que me retraísse foi o facto de ter constatado a já nessa época problemática situação. Por outras palavras, chegara à conclusão que Tomar ainda podia ser designada de cidade e/ou capital templária, porque tal foi o seu estatuto durante séculos e porque o património edificado que testemunha essa época de ouro ainda aí está. Mas cidade capital templária apenas de certo modo, num certo sentido trágico. Porque guarda ainda o património edificado nessa época, mas faltando-lhe porém o mais importante: A mística templária, a mentalidade ousada e ganhadora, a crença em suma. E sem isso, pouco ou nada se consegue. Pelo que, estamos como estamos. Infelizes, mas não muito.
Durante três séculos, a milícia templária soube engrandecer, e de que maneira, a inicial doação de D. Afonso Henriques, como recompensa pela acção da ordem durante a conquista de Santarém aos mouros. Fê-lo numa situação de larga autonomia, dependendo quase unicamente da boa vontade dos sucessivos soberanos portugueses, mas também dos papas, pois Tomar era então uma diocese nula. Dependia directamente de Roma, tendo o superior religioso da ordem dignidade episcopal. O bispo de Tomar era o de Roma. O próprio Papa. Esta situação manteve-se inalterada até à extinção das ordens religiosas em Portugal, em 1834. E só já na segunda metade do século passado criaram o bispado de Santarém e nele incluíram Tomar, sem antes ouvirem os católicos  tomarenses que, verdade seja dita, aceitaram aquilo que julgaram ser a vontade do Senhor, sem sequer esboçar um início de protesto.
A época de ouro de Tomar resume-se afinal a um século, ou pouco mais. Começou com o Infante D. Henrique que, como seu administrador nunca eleito, financiou a empresa dos descobrimentos com "os cabedais da sua fazenda e as rendas da Ordem de Cristo", segundo escreveu o seu cronista Zurara. Findou em 1529, quando o frade jerónimo tomarense António Moniz da Silva, formado em Espanha e que gostava tanto de Tomar que até adoptou o nome monástico de Frei António de Lisboa, conseguiu do rei e também mestre da Ordem de Cristo  D. João III, de quem era o confessor, autorização para reformar a então florescente milícia templária.
Escudeiros, cavaleiros e comendadores foram então expulsos , sendo posteriormente substituídos, após a edificação da primeira parte do designado Convento novo (sector renascentista do actual monumento), por "vinte noviços ignorantes", segundo o próprio frei António. Feito isso, a coroa e os seus servidores e dependentes passaram a dominar e  a sugar a região. Situação que ainda hoje se mantém.
Numa fase intermédia, entre a extinção da ordem e o 25 de Abril, Tomar foi transformada numa cidade de guarnição, com um quartel general, um regimento de infantaria e mais tarde um hospital militar. Paralelamente, empreendedores portugueses e franceses souberam aproveitar os bens da Ordem de Cristo, vendidos ao desbarato, na sequência da extinção da ordem, em 1834, conforme já antes se escreveu. Foram os sucessivos leilões de "bens nacionais" que permitiram o surgimento de várias unidades industriais nas margens do Nabão, sobretudo de tecidos e de papel.
Ultrapassadas em equipamento, obsoletas em termos de gestão, sobrevivendo graças aos baixíssimos salários, que os trabalhadores aceitavam sem protesto porque a força militar era muita, todas essas unidades acabaram na falência. Resta apenas a Fábrica de papel do Prado, agora dedicada aos cartões e cartolinas, cuja saúde é extremamente preocupante.
Desses tempos gloriosos, em que houve mística, mentalidade e crença, tudo valores hoje fora de moda, resta-nos pouco mais que uma espécie de saudade difusa, e a expressão "fazer algo por Tomar", que os habitantes saudosistas e tacanhos costumam utilizar numa curiosa acepção acusatória, quando querem crucificar alguém politicamente. Proclamam então, em tom desdenhoso, "Esse gajo nunca fez nada por Tomar!"
Infelizmente para eles e para todos nós, nem sabem muito bem o que estão a dizer. A sua fraca ou mesmo inexistente cultura geral não lhes permite entender que outrora, "fazer algo algo por Tomar" significava trabalhar com denodo em prol da comunidade tomarense, possibilitando o progressivo enriquecimento da mesma. Pouco ou nada tinha a ver com a prática actual, no âmbito da qual "fazer algo por Tomar" significa apenas pedinchar e depois estoirar recursos públicos em actividades que não geram mais valia reprodutiva. Caímos na república dos pedintes e dos subsídios para tudo e mais alguma coisa. Até para a compra encapotada de votos, nomeadamente com passeios, papas e bolos...
Haja saúde que isto um dia há-de mudar. Já só falta saber quando.
E viva Tomar - Capital templária!

anfrarebelo@gmail.com

domingo, 23 de outubro de 2016

A mesma doença

É natural que os textos criticando a oposição, que aqui se publicam, surpreendam uns e irritem outros. Numa conjuntura pouco animadora e perante um relativa maioria que, 42 anos após Abril, se limita de facto a despachar  os assuntos correntes, atacar a oposição e não quem devia governar parece coisa estranha, a cheirar a questão pessoal.
Pode cheirar, mas não é. Nada tenho de pessoal contra os respeitáveis eleitos que integram a impropriamente chamada oposição. Como de resto também nada de particular me anima contra os respeitáveis eleitos que julgam ir governando, com o sucesso que conhecemos. Como bem sabe quem costuma ler aquilo que escrevo, critico, não com intuitos  de bota abaixo, mas apenas buscando que as coisas possam ir melhorando. O que infelizmente não tem sido o caso. Culpa minha também, pois mostra que não consigo convencer.
No fundo, até nem devia surpreender que assim seja. Não constando que algum dos eleitos que integram o executivo tenha experiência internacional, que tenha vivido e trabalhado no estrangeiro, é lógico que todos tenham mentalidade de confinados. De quem não conhece nem imagina como possa ser a prática política de um executivo autárquico noutras paragens. Por essa Europa fora. Por esse Mundo adiante. Procedem portanto em conformidade com a sua formatação, que no fundamental está longe de ser a melhor, incapazes de ir mais além. Falta-lhes Mundo. E há muito mais Mundo, para além de Carvalhos de Figueiredo, ou mesmo da praia da Manta Rota.

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Angkor, Kopf von Lokeshara in der Tempelanlage "Bayon".
Detalhe de um templo em Angkor - Camboja

Limitação que é agravada por outra mazela política tipicamente tomarense: a incapacidade de aprender com os erros, que os condena à repetição dos mesmos. Procurando evitar que este escrito seja demasiado longo e assim enfadonho para os menos habituados à leitura (a esmagadora maioria dos tomarenses) fiquemo-nos pela experiência Paiva.
Homem do norte (com tudo o que isso pode significar), então forasteiro de fresca data, o docente Paiva foi eleito, fez um mandato na oposição e aprendeu rapidamente. Conseguiu maiorias impressionantes, mesmo governando como um ditador  de facto, tal era a diferença entre o seu constante e ousado protagonismo, e a entorpecida actuação da oposição então existente. Que de oposição só tinha o nome. Como desde então e agora.  Foi tão chocante tal carência, que até levou Pedro Marques e alguns dissidentes da CDU a fundarem os IpT, justamente para que as coisas mudassem. Não mudaram, como é bem sabido, mas isso é já outra história local. Com letra pequena.
Vendo agora a aventura Paiva do fim para o princípio, só pode causar preocupação a actual conjuntura política local.
Uma vez que, apesar dos inúmeros e evidentes erros cometidos (Estádio, Mouchão, Campismo, Estrada do Convento, Pavilhão e parque de estacionamento junto ao estádio, ParqT...), todos com o apoio da oposição da época, ainda hoje  o pequeno mundo político nabantino pensa que fez uma grande obra, que aconteceria se voltasse a candidatar-se? Já alguém ouviu os oposicionistas colaborantes da época -os tais da oposição construtiva tão ao gosto do pré-candidato Boavida- admitir as suas culpas no evidente desastre? Claro que não. Todos fizeram o seu melhor. Afinal e no conjunto uma bosta monumental. Que ninguém assume, à boa maneira tomarense.
Tudo isto para dizer que o problema nabantino, que é grave e pode ser mortal a longo prazo, se nada adequado for feito entretanto, não se resolve só com a escolha de cabeças de lista e dos respectivos acompanhantes para o funeral. Há que ter a coragem de encontrar e apoiar quem seja capaz de inovar. Tanto na maioria, como na oposição. Quem tenha outra mentalidade. Quem não seja prisioneiro da infelizmente dominante maneira de ser tomarense.
O evidente contentamento dos Hugos, o peculiar convencimento da candidata Anabela, as escancaradas hesitações do PSD, as óbvias dúvidas existenciais de Pedro Marques, a nefasta errância de Serrano e as inquietantes certezas Bruno/CDU, um modelo já condenado alhures, causam-me sérias preocupações, sobretudo porque não me surpreendem. Afinal, bem vistas as coisas, padecem todos da mesma doença, de forma mais ou menos acentuada: tomarensismo entorpecente. Principal sintoma: "Somos o centro do mundo. Para quê mudar, se nem estamos assim tão mal?!"
Escrevo-o com mágoa. Bem gostaria de estar enganado. Todavia, como bem disse António Gedeão, no seu "Poema da malta das naus", "Não se nasce impunemente nas praias de Portugal". Em Tomar então, ainda é pior!

anfrarebelo@gmail.com