quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Na "selva" de Calais - França - 2

"Vamos instituir um "corredor de saída" que uma vez franqueado tornará o regresso impossível à "selva"

A governadora civil da região de Pas de Calais espera evacuar 2 mil pessoas logo no início da operação de desmantelamento

"A governadora civil do Pas de Calais está pronta. Aguarda apenas a ordem do ministro, que pensa não tardar. Na passada segunda-feira, 12 de Setembro, esteve novamente todo o dia em Calais. Na sua secretária improvisada, as plantas gigantes da "selva" misturam-se com fotografias aéreas deste bairro da lata, que ocupa grande parte do seu tempo.

Um aspecto da "selva" de Calais. No primeiro plano as tendas do acampamento "selvagem". Ao fundo os alojamentos em contentor do campo de acolhimento, inicialmente facultados pelo governo como solução provisória para o afluxo de migrantes que pretendem ir para Inglaterra. (Foto Charales Platiau/Reuters/Le Monde)

Fabienne Buccio diz ter aprendido com o desmantelamento da zona sul da "selva", em Fevereiro passado. Sabe que todos os que são voluntários para partir devem ser embarcados nos autocarros o mais depressa possível, antes que mudem de opinião. "Pretendo obter quanto mais autocarros melhor, para que todos os migrantes que o desejem possam partir imediatamente. Vamos instituir um"corredor de saída", que uma vez franqueado tornará o regresso impossível à "selva". É a partir desse mesmo "corredor de passagem" que tencionamos orientar cada pessoa, cada família, com a maior minúcia possível, para o local de acolhimento que melhor convenha à sua situação."
Alguns Centros de Acolhimento e de Orientação (CAO) dispõem de alojamentos para famílias. Outros ainda, têm dormitórios para homens sós. "Em nenhum caso poremos pessoas a dormir em pavilhões desportivos", insiste a governadora civil. Utilizada na região de Paris, esta fórmula não tem sido até agora muito convincente e os migrantes têm regressado aos acampamentos.
A governadora civil solicita, além de um acolhimento digno, autocarros em número suficiente para evacuar 2 mil pessoas logo nas primeiras horas da operação, mesmo se esta, acrescenta ela, vier a durar uma semana. "Ao entrar no autocarro, cada um indicará o nome, a idade e a nacionalidade, para que à chegada as associações saibam quem vão realmente acolher." O trajecto de cada autocarro será estabelecido a nível superior.



Zonas de 600 refugiados

No início de Setembro, a distribuição dos migrantes previa que o maior contingente iria para a Região Auvergne-Rhône-Alpes (1.800). A Nova Aquitânia e a Occitânia receberiam por sua vez 1.400 cada. uma. Estes números representam afinal  o total de lugares que o governo pretende impôr às regiões. Por enquanto, Auvergne-Rhône-Alpes ainda só desbloqueou 25%, a Auvergne 33% e a Occitânia 20%...
Entretanto, para que a operação de desmantelamento decorra o melhor possível, a governadora dividiu o acampamento em quadrículas, zonas de 600 migrantes cada, que serão desocupadas uma a uma, após as partidas voluntárias. "Vamos pedir a cada refugiado que desmonte a sua tenda antes de se ir embora", informa a governadora, que pretende evitar ao máximo as imagens de destruição de alojamentos precários. As mesmas que, difundidas pelas televisões do Mundo inteiro, aquando do desmantelamento da zona sul, em Fevereiro passado, mostraram o carácter da operação então em curso e impediram o ministério de aproveitar o ensejo para desocupar também a parte norte.
A governadora, que teve uma reunião de trabalho com todas as associações no passado dia 15, espera tê-las convencido a trabalhar em conjunto com o governo e a persuadir os migrantes que é do seu interesse abandonar o acampamento precário. Persiste todavia uma incógnita: Quem vai ser levado para para o centro de retenção administrativa (CRA)? Em Novembro de 2015 foram reservados lugares em 7 CRA de todo o país. Houve então tantos migrantes em retenção administrativa como em em centros de acolhimento."
Maryline Baumard, Le Monde, 18/19 Setembro 2016, página 10
Tradução e adaptação de António Rebelo

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Na "selva" de Calais - França - 1

Numa altura em que se fala no próximo (???)  realojamento de 25 pessoas do acampamento precário do Flecheiro, o que corresponde a 12,5% dos seus actuais 200 habitantes, talvez seja útil saber algo sobre um outro acampamento precário, em Calais - França, mas neste caso com mais de 9 mil habitantes. 45 vezes o Flecheiro!  Para relativizar as coisas.
Dada a complexidade do assunto,  foram traduzidos dois textos do jornal de Le Monde. É uma leitura algo árida e por isso nem sempre fácil, mas que compensa quem gosta de saber um pouco mais, para nunca falar à toa.

"Em Calais, aguardando o desmantelamento"

"À medida que se aproxima a data da evacuação, as associações de apoio aos migrantes mostram-se preocupadas com o que os espera"



"O relógio da torre não parou e a cerveja continua a correr aos balcões dos cafés de Calais. Na "selva", as noites dos migrantes continuam a ser marcadas pelas tentativas de passagem para a Grande Bretanha, e os fins de tarde pelas refeições distribuídas no centro de apoio social Jules-Ferry. A notícia da próxima evacuação da "selva" de Calais, dada no passado dia 2 de Setembro pelo ministro da administração interna, não fez parar o tempo nesta cidade-fronteira.

No bairro da lata, onde prevalece a sobrevivência diária, onde muitos dos 9 mil migrantes (7.900 segundo o governo civil) mantêm a esperança de conseguir chegar à Grande Bretanha nas próximas horas, o anúncio do ministro francês não alegrou nem assustou. "Já conheci a guerra, as bombas, os ataques-surpresa e agora vão deitar abaixo a minha barraca? Tenho tendência para pensar que vou conseguir sobreviver mesmo assim", diz em tom irónico Ahmad, sentado no Restaurante Hamid Karzai, um dos estabelecimentos da "selva" onde os mais abonados podem comer ao meio dia e os outros vêm só para conversar. Na casa ao lado, uma ex-loja de moda transformada em alojamento para responder à sobrepopulação do acampamento, dois outros afegãos, trinta e poucos anos, passam o tempo vendo videos, deitados num cobertor.

Linha de fractura 

Walhadad, que já pediu asilo em França, está contente "porque vão finalmente desmantelar um acampamento onde vivemos como animais. Com a vantagem que desta vez vão ser obrigados a alojar-me", refere com um sorriso quem, de acordo com a lei, já devia ter sido alojado. Já o seu amigo Ahmid, que ainda não desistiu de passar para a Grande Bretanha, está inquieto. "É bom para ti, Walhadad; mas eu tenho de ficar próximo da fronteira", insiste ele, que já viveu sete anos  em Liverpool, antes de ser expulso para o Afeganistão e de voltar a calcorrear o caminho rumo à Europa. Para onde irá depois de Calais? Não sabe. Entre os sudaneses, maoritários no acampamento, a linha de fractura passa entre os que espreitam para o outro lado do canal da Mancha, e os que acabaram por optar por um pedido de asilo em França.
No seio deste grupo, 80% já foram identificados e pediram asilo noutros países europeus por onde passaram. É deles que depende o êxito ou o malogro da evacuação do acampamento. Sucede que o relatório de 2 de Setembro do Ministério da administração interna especifica que "as pessoas cujo pedido de asilo depende de outro Estado [é o caso] serão colocadas em residência vigiada até à posterior transferência para o país competente para tratar o seu pedido de asilo."
Desde que os Centros de Acolhimento e de Orientação (CAO) acolhem migrantes do acampamento de Calais, tal medida apenas foi aplicada marginalmente. Se desta vez viesse a ser aplicada de forma mais rigorosa,  a atractividade das partidas para os CAO diminuiria drasticamente. O Ministério da administração interna, que não esteve disponível para responder às perguntas deste jornal sobre as suas intenções nessa matéria, fez saber posteriormente em Calais que não existirá tal rigor. Mesmo assim, é um assunto que preocupa as associações de apoio aos migrantes, que serão recebidas terça-feira 20 de Setembro por dois ministros. A margem de manobra do ministro da administração interna é muito estreita, entre a necessidade de não reenviar migrantes para a Itália e para a Grécia, caso queira obter êxito na evacuação e desmantelamento do maior bairro da lata de França, e o direito comunitário que o obriga a fazê-lo. Para melhor vincar a sua posição, o Ministério da administração interna (em França, Ministério do Interior), informou na passada quinta-feira que 1.346 pessoas "em situação irregular" foram expulsas de Calais desde 1 de Janeiro deste ano.
Qualquer que venha a ser a decisão final, os dirigentes das associações, que a governadora civil (prefeita, em França) Fabienne Buccio recebeu no passado dia 15, estão preocupados. "Muitos habitantes do acampamento vão desaparecer na paisagem, esconder-se, passar à clandestinidade. Após o desmantelamento da zona sul, no inverno passado, uma centena de menores desapareceu dos radares, sumiram-se", lembra Christian Salomé, dirigente máximo da associação Estalagem dos migrantes e observador atento. "Caso a expulsão do bairro da lata seja efectiva, sem alternativa adaptada e sem ter em conta a necessidade de assumir a protecção dos menores isolados, previne por seu lado Jean-Maria Dru, presidente de Unicef França, será uma cataástrofe." Conjuntamente com Médicos do Mundo as Unicef francesa e inglesa acabam de subscrever um alerta comum, ao qual a governadora civil responde que tudo o que seja necessário será feito.

Mostrar firmeza

"Tudo isto teria sido evitado, se o Estado nos tivesse dado ouvidos", lembra Medhi Dimpre, da associação "Réveil voyageur". "Tínhamos avisado que agrupar todos os migrantes numa imensa "selva" no meio do campo era suicidário. Só passado ano e meio é que concluíram que tínhamos razão. De qualquer modo, esta evacuação não tem como objectivo melhorar o bem-estar dos migrantes. Se assim fosse, já teria sido feita há muito tempo. Pretende-se, isso sim, dar um sinal de firmeza aos eleitores. Agora que começa a corrida presidencial, o governo quer mostrar que faz alguma coisa." analisa Christian Salomé. 
"O ministro da administração interna pretende uma foto sua em pleno acampamento já livre de migrantes. Exactamente como Nicolas  Sarkozy se fez fotografar diante das moto-niveladoras que destruíram o centro de alojamento para migrantes de Sangatte [localidade próxima de Calais], em 2002. Foi há 14 anos mas é um eterno recomeço", acrescenta Laurent Roussel, gerente do Café Cabestan, situado ao lado do acampamento.
"Vão desmantelar o acampamento, concordo; levar os exilados, muito bem. Mas é então que o mais difícil começa. Calais vai continuar a ser a cidade mais próxima da Inglaterra. A entrada do túnel sob a Mancha e o porto de atracação dos ferries. Por isso os migrantes nunca vão deixar de convergir para aqui", alerta em voz alta um elemento da oposição de esquerda à presidente da câmara de Calais.
"Não somos ingénuos", responde a governadora civil. "Calais tem de deixar de ser atractiva para os migrantes, de uma vez por todas. Seremos extremamente vigilantes. Desmantelado o actual acampamento, impediremos por todos os meios legais ao nosso alcance que se formem novos bairros da lata." É realmente esse o verdadeiro desafio, e a construção de um muro de um quilómetro ao lado da estrada nacional RN216, no prolongamento de uma rede com 4 metros de altura à saída do acampamento, visa preparar já esse futuro.

Maryline Baumard, Le Monde, 18/19 Setembro 2016, página 10
Tradução e adaptação de António Rebelo
anfrarebelo@gmail.com

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Uma de saúde...

Por cá, praticamente ninguém diz nada sobre os malefícios do álcool, do tabaco, do sedentarismo ou da comida rápida. Porquê? Protecção às cervejeiras? Às tabaqueiras? Aos viticultores? À fileira da carne? Às cadeias de comida rápida?
Seja como for, em França a situação é bem diferente. Ora repare nesta publicidade, na última página do Le Monde de hoje:

"Prefiro um sumo de fruta." Aqui está uma das pequenas frases que pode ajudá-lo a reduzir o risco de cancro.

40% DOS CANCROS PODIAM TER SIDO EVITADOS

EVITAR O ÁLCOOL, NÃO FUMAR, FAZER EXERCÍCIO FÍSICO, COMER SAUDÁVEL
Leia os nossos conselhos de especialistas em e-cancer.fr

REPÚBLICA FRANCESA
MINISTÉRIO DOS ASSUNTOS SOCIAIS E DA SAÚDE
INSTITUTO NACIONAL DO CANCRO

Dado o tempo que usualmente estas ideias levam a atravessar os Pirinéus, com um pouco de sorte, lá para daqui a uns meses somos capazes de vir a ter direito a qualquer coisa semelhante...em português. Se as fileiras do álcool, do tabaco, da carne e da comida rápida não se opuserem. Por isso resolvi tomar a dianteira.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Saber ser oposição

Volvidas mais de quatro décadas de poder democrático, tenho a impressão que aqui em Tomar ainda há eleitos que, estando na oposição, não sabem realmente qual é o seu papel...e a sua obrigação para com os eleitores, que somos afinal todos nós. Provavelmente porque, não havendo por enquanto cursos rápidos de formação política, mesmo no Politécnico local, nunca ninguém lhes demonstrou que oposição é quase sempre debate, protesto, contestação, discordância, abstenção comentada, voto contra explicado. E só raramente negociação e compromisso. A regra e a excepção, por assim dizer.
Sem nunca esquecer que é muito difícil haver bom governo sem uma boa e forte oposição. Os mandatos de António Paiva, que também fez obra útil, embora infelizmente minoritária, aí estão para o demonstrar. E todos os outros. Porque afinal, em mais de 40 anos que obras valorosas tem a oposição para apresentar? Não era nem é o seu papel? Neste caso, que estão lá a fazer? Só para lembrar que existem?
Tudo isto para vincar que o actual contexto autárquico tomarense é largamente favorável à oposição, caso esta saiba e queira aproveitar. Não tem sido o caso até agora. Infelizmente para todos.

Foto Manish Swarup/AP/Le Monde

Tibetano imolando-se pelo fogo, para protestar contra a ocupação do Tibete pela China. Uma forma extremamente corajosa de contestação, de quem nunca foi eleito para isso, mas não quer renunciar ao livre exercício do seu direito e dever de cidadania. No Tibete, que fica nos Himalaias, a mais de 3 mil metros. É outra atitude, noutra altitude. E Tomar até fica numa cova...

Porquê?

António Rebelo
anfrarebelo@gmail.com

Na recente entrevista ao semanário Cidade de Tomar, Luís Ferreira não teve papas na língua: "As pessoas melhor preparadas para exercer funções no município sou eu e o Luís Boavida." Salta aos olhos (aos meus, pelo menos), sendo também norma nos manuais de jornalismo, que semelhante declaração carece de demonstração. Por conseguinte, ao menos duas perguntas eram indispensáveis naquela altura: Porquê? Que funções? Infelizmente não foram formuladas. Só as entrevistadoras saberão porquê. Agora, já de sobreaviso, Ferreira poderia responder sem qualquer dificuldade, articulando meia dúzia de frases bem preparadas. 
Poderia, mas arrisco dizer que não o fará, até para o acicatar a desmentir-me. Primeiro, porque aquele "exercer funções" é deliberadamente ambíguo. Dá para todas as funções, conquanto o entrevistado já tenha esclarecido, noutro passo das suas controversas mas corajosas declarações, que não aspira à máxima magistratura local. Não mesmo? Nem por interposta pessoa? Não seria a primeira vez...
Depois porque, se nos detivermos na análise atenta de todos os mandatos municipais decorridos até agora, incluindo a actual, damo-nos conta de que não é fácil determinar, bem pelo contrário, o que terá levado cada um dos presidentes, (aparentemente pessoas bem formadas e plenas de bom senso), a julgar-se capacitado para o lugar a que concorreu, tendo em vista o que foi depois, ou é, a sua respectiva prestação.
Excepção para António Paiva, engenheiro civil de formação, que terá pensado que uma câmara são sobretudo as grandes obras, no que terá sido influenciado pelos fundos europeus então à tripa forra. O resultado está agora à vista de todos. Ajudado pela manifesta ausência de oposição eficaz, destruiu o estádio, destruiu o sistema de rega tradicional do Mouchão, destruiu as instalações sanitárias do mesmo Mouchão, destruiu o pavilhão municipal, destruiu parcialmente a estrada do Convento, destruiu parcialmente o alambor do Castelo, tentou destruir o Mercado e destruiu o crédito eleitoral do PSD Tomar. Pode assim dizer-se, sem exagero, que foi sobretudo um engenheiro de destruição civil. Apesar de ser extremamente educado e simpático, de ostentar uma boa formação universitária, de ter ganho com amplas maiorias absolutas, e de Relvas dele ter dito que era dos melhores presidentes de câmara do país. Imagine-se se calhava ter sido dos piores...
No que diz respeito a todos os outros, incluindo a actual, o mistério mantém-se, inteiro e impenetrável: Porquê? Que facto ou factos os terão conduzido a envergar uma camisa de onze varas, para cujo porte manifestamente não estavam preparados, como se viu e vê? 
Conforme canta Variações "Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga". O pior é que, nestes casos demasiado numerosos de falta de juízo crítico, e de capacidade de auto-avaliação desinibida, nós é que pagamos. E vamos continuar a pagar. É um dos defeitos da democracia. Pagamos todos pelos erros de uma ínfima minoria. A dos que, na política e contra toda a evidência, se julgam mais capazes do que aquilo que na verdade são.
É mais uma especialidade tomarense -candidatos com afigurações.
Pobre gente. Pobre terra.

domingo, 18 de setembro de 2016

Notícias prováveis para os próximos anos

Mário Cobra
António Rebelo

Tendo em conta a evolução recente da situação local, designadamente a esclarecedora entrevista de Luís Ferreira ao Cidade de Tomar, que nos permitiu perceber finalmente que vamos a caminho do abismo, seja lá isso onde for, resolvemos presentear os leitores com algumas notícias que consideramos prováveis. acompanhadas por curtos comentários. Não garantimos que venham a acontecer. Infelizmente também não podemos garantir o contrário. Salvaguardando os naturais exageros de parte a parte...
1 - As duas bandas da cidade foram receber o único candidato colocado no Instituto Politécnico de Tomar. Perante tanta audácia, a Câmara, ouvida a AM, resolveu conceder ao audaz estudante um diploma de coragem. E a medalha de ouro da cidade. A qual todavia só lhe será entregue quando houver dinheiro para a mandar fazer.

2 - Técnicos superiores da autarquia, actualmente na prateleira, apresentam lista de independentes às eleições para a Câmara, com o objectivo de "queimar" o executivo. É uma tarefa na qual já têm alguma experiência, pelo que agora resolveram oficializar a situação.

3 - Junta de Freguesia de Carregueiros reivindicou e obteve a gestão do Convento de Cristo. Agora procura desesperadamente um gestor, pois os membros daquele executivo periférico nunca pensaram vir a obter satisfação junto da burocracia lisboeta.
mental
4 - Após aceso debate, que se prolongou por mais de 3 horas, tanta era a erva mental a cortar , a Assembleia Municipal aprovou a alteração do dístico tradicional "Tomar cidade jardim", para "Tomar cidade capim". Tardou mas foi. Lá se adaptaram finalmente à realidade envolvente. Isto vai lá! Leva tempo, mas vai!

5 - Mesmo sem candidatura prévia, aqueles sanitários junto aos serviços municipais de higiene e limpeza integram agora a lista das instalações classificadas pela UNESCO como "Património da desumanidade". Graças aos esforços denodados dos turistas encantados. Calcula-se!

6 - Nomeada pela primeira vez uma mordoma para a Festa dos Tabuleiros. Com a justificação de que as mulheres estão na moda. Até para a ONU. António Guterres, vencido na corrida à ONU por uma mulher, não gostou da indirecta.

7 - Não se realiza nos próximos anos a Noite Branca porque, segundo os organizadores, a coisa está a ficar cada vez mais preta. Apesar de praticamente até já terem desaparecido da paisagem urbana as capas negras dos aprendizes politécnicos.

Pregoeira da cidade. De luva branca. Tal e qual como em Tomar. Afinal somos mesmo europeus?

8 - Juntas de freguesia fundidas garantem que continuam mal pagas. Se fossem só elas...

9 - Assediado com perguntas, executivo municipal assevera que a revisão do PDM, iniciada há décadas, virá a ser aprovada ainda durante este século. Caso entretanto não surjam mais contratempos.

10 - Questionada por Américo Costa -há mais de 30 anos o único cidadão que ainda assiste a todas as reuniões públicas do executivo municipal- a câmara assegura que doravante os sacos de plástico despejados no Nabão às sextas-feiras passarão a ser reciclados. Se entretanto houver funcionários disponíveis para os recolher.

11 - Perante a evidente degradação, Mata Nacional dos Sete Montes vai perder um monte e eventualmente metade do ribeiro do mesmo nome. Salvo se entretanto arder por falta de limpeza.

12 - Após tantos anos de acentuada crise, vai finalmente ser construído em Tomar um novo hotel, Para cães. Estavam à espera de quê? Se até os cidadãos são muitas vezes tratados abaixo de cão...

13 - A fim de gerar receitas, pois a autarquia carece dramaticamente de liquidez, executivo municipal delibera que barraquinha do Mouchão vai passar a vender tremoços. E cerveja, logo que obtenha a indispensável licença de utilização, após vistoria da ASAE. Nada de ilegalidades. Para isso basta o Parque de campismo, que não dispõe da dita licença.

14 - Serviços municipais de higiene e limpeza adquirem finalmente um aspirador para limpeza do Nabão e respectivas margens. Será desta que vamos ter um rio limpo com margens asseadas? Se assim for, as lontras agradecem e nós também.

15 - Câmara resolve enfim o arrastado problema do estacionamento para autocarros de turismo. Ficam proibidos de entrar na cidade. Excepto para cargas e descargas, das 08H00 às 10H00 e das14H00 às 16H00, com paragem máxima de meia hora. Os turistas que se despachem!

16 - Face a notícias que colocam Tomar em último lugar no ranking do desenvolvimento económico regional, o executivo municipal ordenou aos respectivos serviços técnicos que coloquem a tabela ao contrário. É muito mais prático, rápido e barato do que procurar as causas, encontrar soluções e implementá-las. Nem se compara!

Podem não ser 100% verdadeiras. Mas ninguém sério poderá dizer que não são prováveis.

sábado, 17 de setembro de 2016

Realojamento dos ex-nómadas do Flecheiro

António Rebelo
anfrarebelo@gmail.com

Em recentes declarações à Rádio Hertz, a presidente Anabela Freitas informou que foi aprovado o projecto de construção de alojamentos para 25 pessoas "de etnia cigana", nos terrenos municipais do lado sul do quartel da GNR. O que significa que as também recentes postagens de Luís Ferreira na Net se baseavam em iniciativas em curso da autarquia. Fora do poder executivo mas não da realidade. O Luís Ferreira, goste-se ou não, sabe muito e raramente dá ponto sem nó.
Sendo assim, teremos na fase seguinte mais um conjunto de alojamentos nos terrenos anexos à FAI, ali por trás do Pinhal de Santa Bárbara. Em ambos os casos, trata-se para os socialistas, agora no poder em Tomar, de tentar cumprir uma das promessas eleitorais -o realojamento da comunidade cigana do Flecheiro, ou de apenas parte dela.
Grosso modo, a dita comunidade de ex-nómadas conta nesta altura com cerca de 200 pessoas, divididas em três clãs, de sul para norte: Pascoal, Fragoso e Ròflim. A obra agora anunciada, que não se sabe ainda quando começará ou estará concluída, destina-se a alojar com dignidade o clã Pascoal, ou parte dele, o mais carenciado dos três, conforme se pode constatar nas fotos:



Logicamente seguir-se-à o realojamento do clã Fragoso e, finalmente, o clã Ròflim, actualmente o que dispões de melhores instalações. Repare-se nas paredes em duro, na parabólica e na chaminé. Praticamente uma vivenda à beira-Nabão:



Nas mesmas declarações à Hertz, quando o jornalista perguntou se as barracas dos realojados seriam destruídas, a presidente respondeu ufana, "Imediatamente a seguir!" Foi aí que comecei a ficar preocupado. Porque visivelmente estes nossos autarcas de circunstância são pouco lidos, pouco vividos e não têm Mundo. Mesmo quando já viajaram, pouco ou nada viram e ainda menos entenderam, assoberbados com detalhes como a língua, os transportes, o alojamento, a alimentação, os emaranhados urbanos... Donde resulta que detêm muito pouco know-how, designadamente na área do realojamento cigano. 
Convém por isso alertar para algumas armadilhas, já bem presentes no horizonte, que todavia a evidente falta de experiência de vida impede a presidente e os seus companheiros do executivo de ver atempadamente.
Aquilo a que ultimamente se tem chamado a comunidade do Flecheiro teve início na presidência do socialista Luís Bonet, nos anos 70 do século passado, com cerca de 30 ex-nómadas, vindos da Quinta de Santo André, a sul da Praça de Toiros, logo à ilharga da estrada de Coimbra, onde antes acampavam. E que um empresário tomarense, agora já retirado, tinha necessidade de desocupar, para depois lotear. O que veio a acontecer. É agora, em linguagem popular local, o "bairro dos ricos".
Com muito maior índice de natalidade que os tomarenses tradicionais, mas também devido à posterior vinda de vários outros membros, a comunidade cigana foi crescendo, até ultrapassar agora as 200 pessoas, que na sua maioria não pagam IRS. O que bastante irrita alguns tomarenses. De forma que, temos aqui uma situação potencialmente explosiva a médio/longo prazo: a população tradicional da cidade e do concelho diminui a olhos vistos, enquanto a do Flecheiro continua a aumentar.
Aqui chegados, convém ter presente a experiência internacional, designadamente em Espanha e em França, onde há comparativamente muito mais ciganos que em Portugal  A tal experiência que os nossos autarcas infelizmente já demonstraram ignorar por completo. Mas é o que temos.
Nesses países, após vários insucessos, chegou-se à conclusão de que  há um procedimento eficaz para realojar ex-nómadas e acabar de vez com os respectivos acampamentos precários. Esse procedimento implica a construção prévia de alojamentos suficientes para toda a população do acampamento precário a eliminar. Imediatamente a seguir, procede-se ao concurso público para a atribuição dos novos alojamentos, uma vez que não pode haver discriminação, pelo que podem concorrer todos os cidadãos que se enquadrem nos parâmetros pré-definidos. Concluído com êxito esse concurso e atribuídos todos os alojamentos, marca-se um dia e uma hora para a respectiva mudança. Colocam-se então camiões para o transporte de pertences e para levar o entulho, bem como máquinas de terraplanagem, junto ao acampamento a arrasar. As demolições começam imediatamente após a saída de cada família, vigiadas por forças policiais. No final, arrasado todo o acampamento e levado o respectivo entulho, colocam-se painéis com o aviso "Terreno municipal. Proibido acampar" A partir daí, caso haja novas tentativas de implantação de tendas ou barracas, as autoridades expulsam os prevaricadores sem dó nem piedade, naturalmente a solicitação da autarquia e com o indispensável mandato judicial.
Dito tudo isto, que reconheço ser demasiado longo e por isso enfadonho, trata-se agora de apurar o seguinte:
1 - Anabela Freitas pretende apenas começar a cumprir uma das suas promessas eleitorais, de forma a poder usar o realojamento de 25 pessoas em 200 = 12,5%, como argumento eleitoral?
2 - Ou pretende resolver de vez o velho e vergonhoso escândalo do acampamento do Flecheiro, em plena cidade?
No  primeiro caso, desejo-lhe boa sorte. Tanto no anunciado realojamento como na posterior votação eleitoral. Mas pode desde já ter a certeza de que, alguns meses após ter mandado destruir as barracas dos realojados, haverá no mesmo local ainda mais barracas. Como é que eu sei? Porque era usual além-fronteiras e ainda é nalguns concelhos portugueses. Infelizmente.
Mal começa a funcionar o boca-a-orelha "A câmara está a dar casas de renda económica", aparecem logo filhos, netos, enteados, irmãos, tios, primos, sogros, cunhados, padrinhos, compadres, amigos... que também querem. Nem que seja mais tarde, noutra fase. E, enquanto esperam, vão aparecendo mais barracas. É humano! Todos gostam de receber. Ninguém gosta de pagar.
No outro caso, mande construir a primeira fase, mande projectar a segunda e assim sucessivamente. Até haver alojamento para todos os clãs do Flecheiro, com a recenseada população actual como limite. Depois proceda, se ainda estiver no poder, conforme indicado acima. Serei o primeiro a publicitar aqui a sua coragem e a sua dedicação à causa tomarense. Porque o escândalo do Flecheiro já cheira mal, no duplo sentido do termo. Demasiado mesmo, para ser outra vez usado como argumento eleitoral.