domingo, 20 de março de 2016

Erros de avaliação

As noções de avaliação e auto-avaliação entraram há relativamente pouco tempo na nossa cultura. São mais duas importações anglo-saxónicas. Não espanta por isso que abundem os erros e as incapacidades totais nessa área. O caso mais flagrante é o dos políticos, sobretudo os locais. Desde as primeiras eleições livres, e já lá vão 40 anos, que assistimos, aquando de cada eleição, a um duplo mal entendido. No seio de cada partido são elaboradas listas, com critérios que manifestamente não incluem uma adequada avaliação prévia dos candidatos a candidatos. Depois, singularmente manietados nas suas escolhas pelo bizarro sistema eleitoral que temos, os eleitores fazem outro tanto. Os resultados aí estão, escancarados à vista de todos.
Candidatos a candidatos porque com afigurações, a seguir escolhidos praticamente em regime de "depois logo se vê", tanto pelos correlegionários como pelos eleitores, uma vez nas cadeiras do poder têm uma acentuada tendência para se considerarem os maiores. Todos os políticos locais, ainda activos, ou já reformados, consideram que fizeram excelentes mandatos, apesar de a realidade envolvente demonstrar o contrário. Há apenas duas notáveis excepções. O Paiva, que errou até mais não, por falta de adequada e substantiva oposição. O Corvêlo, que teve o mérito de saber retirar-se, ao constatar que não estava em condições de dar conta do recado.
No escol político actualmente activo reina o auto-convencimento óbvio. Apesar das inúmeras evidências em sentido oposto, a presidente Anabela está tão convencida da excelência da sua acção que até já anunciou a sua candidatura a novo mandato. Tarimbeiro político de há muitos anos, após ter entrado pelo sótão, Pedro Marques continua a sustentar, contra tudo e contra todos, que os seus dois mandatos foram uma maravilha, o mesmo acontecendo com a sua actuação no quadro dos IpT. Jovem promissor, mas por isso ainda tenrinho, o líder laranja local também se crê credor de admiração pela sua actuação como líder da oposição, quando a população em geral pensa exactamente o contrário. A agravar o quadro, aconselhado nestas linhas a convocar uma eleição primária aberta para escolha do cabeça de lista, única hipótese realista de poder vir a vencer, já demonstrou fugir de semelhante possibilidade como os ciganos fogem dos sapos.
Disse o Lavoisier em tempos que "as mesmas causas, nas mesmas condições exteriores, produzem sempre os mesmos efeitos". É o que está a ocorrer no blogue Tomar opinião, praticamente já defunto. Um pequeno escol local, composto entre outros por políticos credenciados e professores, reuniu-se bastas vezes, mas não terá feito o indispensável: a auto e hetero-avaliação. O resultado é trágico, porém muito elucidativo e útil, caso dele saibam extrair as conclusões que se impõem. 
Resolveram lançar um blogue colectivo, uma novidade habilidosa visando suprir a dificuldade de produzir diariamente textos pessoais. Contaram uns com os outros, sem a indispensável, adequada e rigorosa avaliação prévia. Só podia dar bota. E já deu. Tal como na política local.
Já lá vão cinco séculos, Garcia da Horta escreveu no seu Tratado das drogas e dos simples que "a experiência é a madre das coisas".  Infelizmente os tomarenses, particularmente os políticos, não parecem capazes de acumular experiência. É pena e tem elevados custos para todos. Infelizmente.
É importante ter em conta que, nas últimas autárquicas e na nova freguesia urbana, metade dos eleitores inscritos não votaram. Um em cada dois!
Porque terá sido?
Por este caminho vamos a algum lado?

sábado, 19 de março de 2016

Já não os trinco...

Uma história nabantina dos anos da penúria

Em Tomar, no final da década de 40 do século passado, o hospital era na Rua da Graça e o mercado semanal realizava-se aos sábados, onde está agora o ParqT e na Praça da República. Havia então muita tropa, com o Regimento de Infantaria 15 aquartelado no Convento de S. Francisco, o Quartel General, ali no Palácio Alvaiázere e o Hospital Militar, lá em cima no Convento de Cristo. Com tanto militar mais os varões civis, vivia relativamente bem a dúzia e meia de profissionais do bordel local, situado na Rua de Pedro Dias, Rua da Saudade para os tomarenses, desde o seu encerramento compulsivo e definitivo no final de 1961
Coincidindo com o mercado semanal, as ditas meretrizes  vinham ao hospital para a obrigatória "revista médica", como então se dizia. Formavam fila à porta, aguardando a sua vez, mas depois era rápido, pois reinava a confiança. O médico de serviço já as conhecia, pelo que em geral se limitava a perguntar a cada uma se havia algum problema. Se a resposta fosse negativa, que era a regra geral, mandava carimbar a caderneta e passava à seguinte.
Num desses sábados, uma velhota dos arredores vinha da estação de caminho de ferro e ia para o mercado semanal. Ao passar junto ao hospital, reparou naquela fila de mulheres. Dado que a guerra terminara em 1945, mas ainda continuava a haver racionamento de produtos alimentares, a referida aldeã julgou que estavam ali a vender algum produto de contrabando, coisa habitual na cidade de então.
Vai daí, aproximou-se e perguntou a uma das da fila o que estavam ali a vender. -Estão a dar caramelos, foi a resposta pronta, com ar galhofeiro. Interessada, a velhota tomou a sua vez na fila, ficando naturalmente em último lugar. Atendidas todas as outras mulheres, o médico como não a conhecia exclamou: -Então tu, com essa idade e toda desdentada, não tens vergonha de ainda andar nesta vida? Aí a anciã respondeu prontamente, com aquele aprumo próprio de quem está cheio de razão: -Saiba o senhor doutor que já não os trinco. Mas ainda os chupo!
Os caramelos que estavam ali a dar, bem entendido... 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Até que enfim, mas cuidado!

Li a entrevista de João Tenreiro no Templário desta semana e devo confessar que fiquei agradado. Não pelo teor geral da dita, naturalmente com as banalidades do costume. A política é assim. Sobretudo a nível local voa, mas é sempre muito baixinho. Como o crocodilo da história, praticamente rasteja.
Mas apreciei a coragem do lider laranja ao colocar finalmente o dedo na ferida: Nesta santa terrinha há anos que é turismo para aqui, turismo para ali, mas vai-se a ver e nicles. Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma. Vai daí Tenreiro teve a coragem de dizer o óbvio -criticou a actual maioria por nunca ter mandado elaborar um plano municipal de turismo. Deixou assim implícito que o PSD local vai agir nessa área, o que só pecará por ser tardio.
Caso os social-democratas nabantinos resolvam mesmo dotar-se atempadamente de um plano local de turismo, e se quiserem ter êxito, como é lógico que queiram, vão ter necessidade de agir com cautelas de índio. De boas intenções está o inferno cheio e o turismo é uma área extremamente escorregadia. Quero dizer que tratando-se de uma indústria recente, proliferam os oportunistas de todas as áreas, que proclamam e oferecem tudo e mais alguma coisa. E então quando há dinheiro em jogo, é uma verdadeira desgraça. Ninguém olha a meios para atingir os seus fins. De forma que o risco maior é cairmos num plano muito bem escrito, elaborado por eminências do melhor que temos, mas totalmente inoperante por manifesta inadequação à realidade envolvente. Esse trambolho praticamente inútil, salvo para complicar, pomposamente designado PDM - Plano director municipal, elaborado pelas melhores cabeças da época e que custou uns bons sacos de massa, aí está para demonstrar o que acabo de escrever. 
Tal como sucedeu nas guerras africanas, é meu entendimento que, para travar e vencer a batalha do desenvolvimento ordenado do turismo concelhio e regional, é forçoso começar por escolher os autores do apregoado plano com rigor, com coragem e com a noção da realidade. Por outras palavras, há que evitar entregar a dita elaboração a gente de gabinete, ornada com títulos pomposos e exibindo currículos impressionantes, virando-se antes para os outros. Aqueles que pela calada também estudaram, se diplomaram e trabalharam durante anos no turismo, na área operacional. Andando com os turistas no terreno. Dizendo sempre "sigam-me que vamos por aqui para fazer assim", em vez de "Vão lá indo que depois logo se vê".
Cuidado portanto, João Tenreiro e acólitos. Pior do que não haver plano será haver um plano que custou dezenas de milhares de euros e que só serve para ornamentar...

ADENDA
Parece-me óbvio, mas se calhar é melhor deixar escrito. Estou aposentado e por conseguinte afastado das lides locais como praticante. Continuo todavia aficionado. Treinador de bancada, em suma. Podendo contudo dar uma ajuda em caso de necessidade. Porém não mais que isso. Façam o favor de anotar que usei deliberadamente quatro adversativas: Mas, porém, todavia, contudo...

anfrarebelo@gmail.com

quinta-feira, 17 de março de 2016

O autocarro dos falidos com a mania que são ricos

Nem lhe reproduzo a foto, que ele anda aí. Todo espampanante com as suas cores garridas, tipo novo-rico, e as suas fotos monumentais. Tudo acompanhado pela legenda Tomar - Cidade templária. Como se semelhante exibicionismo bacoco e doentio tivesse alguma coisa a ver com o espírito templário. Pobres criaturas autoras de semelhante ideia!
Falo do autocarro conhecido como "da câmara", mas na realidade da maioria que reina no executivo e só enquanto reina. (E vai reinando com os eleitores...) Salvo os ditos cujos, ninguém sabe bem para que serve ou qual a sua utilidade para a comunidade em geral. Porque, ou muito me engano, ou nem sequer há um normativo aprovado e publicitado para a sua utilização. O que quer dizer que, quem tem amigos tem autocarro à custa dos contribuintes, quem não tem amigos, aluga na agência de viagens mais próxima.
Será isto justo? Aparentemente nesta terra é, uma vez que ninguém se queixa, ninguém protesta. Nem mesmo os industriais de transporte de passageiros, que são largamente prejudicados com a coisa, dado que se trata de concorrência desleal, praticada por quem vive das contribuições e impostos que todos pagamos com língua de palmo. Ou seja, enquanto os citados industriais alugam os seus autocarros ao preço normal do mercado e liquidam as suas obrigações fiscais (Que remédio!!!), a tal maioria circunstancial do executivo empresta grátis e não paga impostos enquanto tal. Quero dizer como industrial de transporte de passageiros.
Já sei! Vão argumentar que só emprestam para as crianças das escolas do primeiro ciclo e blábláblá, e blábláblá. Primeiro que nada, convém dizer que é redondamente falso. Emprestam conforme calha e a quem calha. Desde que seja amigo e da cor, bem entendido. Com outra maioria até já fui a Lisboa e vim com mais 8 comparsas no antecessor deste autocarro. Nove passageiros mais o acompanhante num autocarro de 55 lugares...
Seguidamente, convém acrescentar que, mesmo só para as criancinhas, o autocarro nunca é de borla. Supõe sempre que quem o pediu vote como deve ser e os custos serão depois inevitavelmente assumidos pelos contribuintes tomarenses. Ou julgam ser só por acaso que os nossos recibos de água e de IMI ocupam os primeiros lugares do ranking dos mais caros? É para pagar estas e outras franquezas, também conhecidas como compra de votos, como por exemplo as célebres "passeatas/comezainas/bailaricos", oferecidas por presidentes de junta beneméritos...com o dinheiro dos outros.
Em conclusão, o executivo de um município virtualmente falido, cuja dívida ultrapassa já os 5 milhões de contos e ninguém vislumbra como poderá alguma vez vir a ser paga, entretém-se a esbanjar dinheiro com mini-transportes urbanos e com um autocarro modernaço que mais parece de uma agência de publicidade. É o autocarro dos falidos. 
Fará tudo isto algum sentido? Ou vivemos numa terra de políticos cada vez mais estouvados e sem vergonha?

Aviso

Por motivos imprevistos e alheios à vontade do autor, a mensagem de hoje, sobre o autocarro dito municipal, mas na verdade do executivo, só será publicada logo à tarde.
Peço desculpa aos leitores habituais pelo incómodo. Até logo.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Sobre o propalado provedor do munícipe

O problema começa logo na designação. Falar de provedor do munícipe em vez de defensor do cidadão, leva a deduzir que o concelho de Tomar não passa afinal de um conjunto de casos sociais, constantemente com as mãos estendidas, aguardando esmolas da autarquia, da misericórdia, do governo, de Bruxelas ou de alhures. E realmente é praticamente essa a mentalidade dominante nesta altura. Como dizia a minha falecida e saudosa sogra, "Deus nosso senhor tem lá muito para nos dar; é preciso é saber pedir." Maneiras de ver... 
Mas é bem capaz de ser necessário mudar de mentalidade, que os tempos são cada vez mais duros. E nesse caso, terá de deixar de se falar em provedor ou munícipes, substituídos com vantagem por cidadãos e respectivo defensor dos seus direitos, liberdades e garantias. Incapaz de prover esmolas, mas bom a defender os direitos de cada um.
Isto para situar a coisa. Porque estou convencido de que o PS-Tomar apenas procura entreter o eleitorado com essa treta do provedor. Assim uma espécie de ruas populares ornamentadas, que só servem para isso mesmo -para vista. A prova provada é que já lá vão dois anos após a promessa da criação de tal cargo, e até agora praticamente nada. Só conversa oca, como é habitual
Incomodada com a situação, a deputada municipal Isabel Boavida, um dos poucos eleitos que naquele órgão sabe alinhar uma dúzia de frases sem papel e sem erros de gramática ou de raciocínio, questionou a presidente sobre o prometido provedor. Como habitualmente, a presidente Anabela respondeu em estilo tarimbeiro, tipo Luis Mandanela: É preciso reunir as formações políticas para se encontrar um consenso que permita escolher e designar o provedor, disse ela em suma..  
Errado, senhora presidente. Para ter alguma utilidade prática, o defensor do cidadão terá de ser credível, imparcial, eficaz e inamovível. É o mínimo. Caso contrário, não passará de mais um mono ornamental. Sucede que, sendo a situação aquilo que é, se nomeado pelas formações políticas instaladas, mesmo por unanimidade, a população deixará imediatamente de acreditar que possa ser credível e/ou imparcial. Teremos portanto nesse caso mais um inútil, todavia muito útil como propaganda para o poder instalado.
No meu tosco entendimento, só poderemos vir a ter em Tomar um defensor do cidadão com algum préstimo, se eleito em sufrágio livre e secreto com voto em urna, ainda que num escrutínio simplificado. Candidaturas livres e não partidárias. Boletim de voto em que o eleitor faz a cruz diante do nome escolhido. Apenas uma urna por freguesia, excepto na área urbana, em que haveria duas urnas além da ponte e uma aquém. Votação só das 13 às 17 horas. Contagem final, proclamação dos resultados e aclamação do vencedor nos Paços do concelho.
Basicamente é isto. Se realmente querem mesmo que haja um defensor do cidadão. Se é apenas para entreter, julgo que será melhor, mais rápido e eventualmente até mais divertido, irem fazer umas festinhas ali ao Gualdim, para ver se o pobre homem, vítima de evidente priapismo, consegue finalmente baixar aquilo...

terça-feira, 15 de março de 2016

Mas até quando? E como?

A minoria informada conhece bem a triste e preocupante realidade. Pagamos a electricidade mais cara da Europa, o gás mais caro da Europa e os combustíveis rodoviários mais caros da Europa. Temos das mais elevadas taxas de impostos directos e indirectos da Europa. Até a água é das mais caras da Europa e a de Tomar das mais caras do país. O mesmo acontece com o IMI.
Mesmo assim, apesar dos eleitores pagantes forçados, praticamente espremidos até ao tutano, quase todas as autarquias estão afogadas em dívidas monstruosas, que não se vislumbra como possam vir a pagar. E o governo central não tarda estará de novo a cumprir  um plano de austeridade imposto por Bruxelas, visto que a dívida pública está já nos 137% do PIB. Pior só a Grécia, que como se sabe é um caso perdido, um país inviável, já a viver de esmolas externas e com um governo que se considera de extrema esquerda...
Neste angustiante contexto, a mais recente reunião daquilo que é oficialmente designado por Assembleia municipal de Tomar, mas na prática não passa afinal de um conjunto de inúteis, quase sempre inertes ou pelo menos inoperantes, teve como sempre contornos caricatos. Li na página Net da Rádio Hertz que foi abordado o problema dos transportes urbanos, mais conhecidos por TUT, mas que, digo eu, estão bem longe de custar só tuta e meia. Se não erro, tiverem um prejuízo a rondar os 300 mil euros em 2014, mais 125 mil em 2015. Mais concretamente, no ano passado os bilhetes e passes vendidos totalizaram apenas pouco mais de 90 mil euros, o que significa que não cobriram sequer metade dos custos.
Apesar de tão sombria realidade, imperou mais uma vez o maioritário silêncio no salão nobre dos Paços do Concelho. Situação inevitável, dado que a maioria dos pomposamente chamados deputados municipais é incapaz de alinhar meia dúzia de frases de produção própria. O que implica que não estão habituados a raciocinar, pois a carência de capacidade oratória traduz isso mesmo.
Escapam aqueles eleitos que são profissionais do foro e pouco mais. Foi justamente um destes representantes-advogados que ousou comentar o bicudo problema dos TUT. Bicudo porque a sua solução me parece simples, como se está mesmo a ver. Como bem diz o povo, morto Cristo, acabou-se a paixão. Neste caso, acabando com os onerosos transportes urbanos, que apenas servem uma ínfima minoria, a qual viveu muitos anos sem eles e nem por isso faleceu, acaba-se também com os  inerentes e inevitáveis prejuízos.
Há porém a outra vertente, muito delicada em termos políticos: Quem ousará acabar com os TUT e suportar depois as respectivas consequências eleitorais? Isto apesar de os utentes daquele serviço não ultrapassarem muito provavelmente uma centena, posto que 90 mil euros anuais a dividir por 365 dias, dá a receita diária fabulosa de 247 euros. Mesmo assim, foi decerto a pensar neste aspecto que o IpT João Simões ousou intervir. Referiu achar excessivos os prejuízos registados até agora, reconheceu que se trata de um serviço social, mas acrescentou que apesar disso algo tem de ser feito no sentido de solucionar o problema. Por outras palavras, ficou-se pelas conveniências. Não apontou sequer um rumo a seguir. O que mostra bem a atmosfera reinante. Se até os que sabem falar se coibem...
Face a tudo isto, dirão os usuais ignorantes optimistas -a esmagadora maioria- que mesmo assim vamos vivendo. Pois vamos. Mas até quando? E como?