quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Perigosamente em contramão

Manhã cedo. Descontraído, um condutor rodando a boa velocidade na auto-estrada recebe uma apitadela da legítima: -Tem cuidado. Olha que estão a dizer aqui no rádio que há um palerma a conduzir em contramão,  aí nessa zona. -Só um?!? Já passaram mais de 20. Parecem doidos. Todos a apitar e a fazer sinais de luz...
A nossa simpática e eloquente presidente Anabela parece estar numa situação semelhante. Num curto espaço de tempo, respondendo a perguntas de jornalistas, que veiculavam críticas da população, não esteve com meias tintas. Disse que está a trabalhar. Foi até mais longe. Longe demais, parece-me. Na entrevista ao Cidade de Tomar foi categórica. Sustentou que a criticam porque estão a trabalhar. Caso contrário não o fariam. Passou assim antecipadamente um atestado de velhacaria a todos os que cometem o pecado de lesa-majestade, ao reprovarem o que afinal todos vemos que está mal:

                                                  Cidade de Tomar, 29/01/2016, página 8

A história não diz o que aconteceu ao condutor em contramão na auto-estrada, cujo egocentrismo exacerbado impediu que entendesse a realidade. Bateu? Ficou ferido? Faleceu? Foi apenas julgado e multado? Foi preso? No caso da nossa condutora autárquica, a situação é felizmente diferente. Se não for antes, pelo menos em Outubro do próximo ano os tomarenses vão ficar a saber quem tem afinal razão. Os críticos ou a presidente que acha que estão a trabalhar bem...

                                   

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Uma asneira monumental

Na contrastada herança dos mandatos Paiva/PSD avultam dois erros monumentais, maiores que o Convento de Mafra, como se sabe o mais extenso do país. Refiro-me à destruição do estádio municipal e ao agora pomposamente chamado "Complexo museológico da Levada". O problema começa logo aí, no nome usual. Moinhos da Ordem? Lagares d'El-rei? Complexo da Levada? Seja como for, a evidente megalomania paivina vai continuar a atormentar os tomarenses mais conscientes. A começar pelos autarcas que tenham a coragem de pensar um bocadinho, antes de abrirem a boca para debitar vacuidades.
Foi o que fez recentemente a nossa simpática e bem apresentada presidente. Falou do dito conjunto da Levada, referindo que não havia plano museológico, mas que vai haver e que entretanto  vão aproveitar as instalações para ali levarem a efeito alguns eventos. Designadamente concertos de jazz. Concertos de jazz! Num conjunto cujas obras, ditas de recuperação e requalificação, custaram até agora a bagatela de 6 milhões de euros. Como se antes não existissem já múltiplos locais adequados para tais manifestações musicais.


O problema é porém bem mais grave. Trata-se, sem exagero, de uma asneira monumental e praticamente sem remédio capaz. Obnubilado pelos fundos europeus e sobretudo pelas facilidades para os obter, o então presidente Paiva nem sequer se deu ao trabalho de pensar um bocadinho, de forma serena, antes de agir. Se o tivesse feito, concluiria que: 1 - No Mundo inteiro, só os principais museus -os chamados mastodontes, tipo Hermitage, Louvre, Moma, Prado ou Galeria dos Ofícios- são rentáveis. E mesmo assim só graças aos mecenas patrocinadores. Todos os outros vivem dos impostos cobrados pelo fisco. 2 - Em Portugal nenhum museu é rentável, ou consegue sequer fundos suficientes para o seu funcionamento. Nem mesmo o Museu Nacional da Arte Antiga (vulgo Museu das Janelas Verdes), cujo recheio provém da pilhagem pelo estado de obras de arte em vários monumentos do país, incluindo Tomar, com o pretexto de que iam para restauro e voltavam. 3 - O Museu da Cortiça, na Fábrica do Inglês, no Algarve, recebeu num ano o prémio de melhor museu europeu e no ano seguinte fechou definitivamente, por inviabilidade económica. Apesar de o Algarve ser a principal região turística portuguesa. 4 - O "Conjunto museológico da Levada" não tem qualquer viabilidade prática nem económica, por se tratar de um evidente projecto megalómano visto que: a) - Não dispõe de parque de estacionamento, nem de local para o instalar; b) - Não há condições para os autocarros deixarem ou tomarem os visitantes com relativa segurança sem empatarem gravemente o trânsito; c) - As obras feitas não incluíram recursos técnicos e de segurança (portas párafogo, corredores de evacuação, corredores de visita, plataformas de explicação, vedações protectoras, etc.), que todavia são obrigatórios, em conformidade com as normas europeias, tanto mais que se prevê a futura visita de crianças das escolas, (Se aquilo alguma vez vier a funcionar, o que me custa muito a crer); d) - Se isso vier a acontecer, a ASAE pouco tempo de vida lhe dará, caso pretenda cumprir cabalmente a sua missão; e) - Não conheço no país nem na Europa qualquer museu polinuclear, como o que ali se pretende que venha a funcionar; f) - Tendo em conta o exposto no ponto anterior, é evidente que o país não dispõe de recursos humanos qualificados em termos práticos nessa área, por óbvia carência de experiência anterior.


Se apesar de tudo isto e mais ainda, por nítida falta de coragem política, os autarcas que temos insistirem em pôr aquela geringonça a funcionar, como parece tentar fazer a nossa simpática e aparentemente despachada presidente, de onde contam obter os recursos orçamentais para garantir o pagamento dos vencimentos de pelo menos mais uns 30 funcionários, alguns deles técnicos especializados, com remunerações superiores a 3 mil euros mensais, como não poderá deixar de ser?
Estou a exagerar com os 30 funcionários a contratar? No Convento de Cristo estão 37 e aquilo não constitui propriamente um modelo de gestão turística, com os visitantes a queixarem-se de que pagam 6 euros à entrada e depois ninguém lhes explica nada...
Que fazer então?!? Pensar, meditar, suputar, matutar, magicar. Instalar ali a associação dos antigos da Mendes Godinho. Entregar-lhes as chaves de todo o conjunto, para que possam mostrar aos raros curiosos que se apresentem..Apagar as luzes, incluindo os projectores além rio e aquelas pacóvias lâmpadas vermelhas nas outrora saídas de água. Esquecer essa megalómana e fantasista ideia dos três museus (fundição, electricidade, moagem) até melhor ensejo. É indiscutivelmente a solução mais barata, mais sensata e prática. Essa história do "projecto museológico" é apenas mais um encargo orçamental sem qualquer utilidade prática. Pelo menos nos tempos mais próximos.
Por tudo isto, peço-vos encarecidamente, senhores autarcas, que não sejam teimosos. Remando contra a maré o barco praticamente não anda. E as dívidas da autarquia já ultrapassam os 30 milhões de euros. Com os infelizes credores a esperarem meses pelos pagamentos que tanta falta lhes fazem...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Câmara de Tomar ZERO!

O inesperado e caricato aconteceu ontem na RTP 1. Em mais uma emissão do PREÇO CERTO, um programa popularucho que o seu apresentador tem sabido transformar numa emissão de sucesso. Chamados os concorrentes, o popular Gordo procurou como habitualmente localizá-los geograficamente. Ocasião que os sorteados aproveitam para lhe entregar lembranças da sua presença e da sua região.
A primeira concorrente, de Castelo Branco, deu bronca: entregou um par de garrafas de azeite albicastrense, oferta da Câmara Municipal, disse ela. Mas quando Fernando Mendes lhe perguntou como se chama o presidente da câmara, ela embatucou e a colega também. Por conseguinte, a autarquia de Castelo Branco manda lembranças para o apresentador do PREÇO CERTO, mesmo quando os seus emissários/concorrentes nem sequer sabem quem é o presidente. Como deve ser, pois o sol quando nasce é para todos.
Seguiu-se uma concorrente de Tomar, que presenteou Mendes com um leitão assado, já cortado e pronto a comer. Surgiu então o pai e acompanhante da senhora, que foi claro e objectivo: -A Câmara de Tomar ZERO, disse com ênfase, ao mesmo tempo que fazia um zero com a mão, olhando para a câmara...da RTP. Resultado: Péssima imagem da autarquia nabantina, numa emissão vista por mais de meio milhão de pessoas. Vinte vezes a população do concelho. E como rezam as crónicas jornalísticas, mais vale uma imagem que mil palavras.
Mas a nossa simpática e comunicativa presidente não se incomoda com semelhantes ninharias, conforme vem demonstrando desde o início do seu cada vez mais atribulado mandato. Logo após a inesperada e surpreendente vitória (que foi sobretudo uma derrota do PSD local), os do PS nabantino constataram que precisavam de uma bengala para poderem governar. Ou seja, não dispunham de  maioria absoluta, pelo que tinham de celebrar um acordo com pelo menos uma das outras três forças políticas com eleitos para o executivo.
Havia três hipóteses, o PSD, Pedro Marques e a CDU/PCP/PEV. Excluídos de antemão os laranjas, por razões óbvias, os socialistas locais resolveram conversar com Bruno Graça. Não por opção ideológica ou porque considerassem ser a melhor solução. Apenas e só porque estavam e estão de relações cortadas com Pedro Marques, que no entanto é um moderado e tem experiência política, pois presidiu aos destinos do concelho durante dois mandatos, eleito numa lista PS. A política tem destas coisas...


Político calejado, o eleito da CDU percebeu logo que os mãozinhas locais estavam entalados entre a CDU/PCP/PEV ou nada. E esticou a corda. Obteve assim, entre outras coisas, o pelouro do desenvolvimento local. O que, não estando em causa nem a capacidade, nem a honestidade, nem a personalidade de Bruno Graça, mas apenas a ideologia da força política pela qual foi eleito, representa mais ou menos, salvaguardando as proporções, o mesmo que a entrega a um muçulmano dos assuntos relativos ao desenvolvimento do comércio da carne de porco. Exagero? Creio que não. Como todos bem sabemos, empresários/investidores e tropas do PCP são como os cães e os gatos. Salvo raríssimas excepções, onde estão uns, os outros não se sentem bem.
O estranho acordo contra a evidência das coisas já dura há 15 meses. E resultou neste princípio de 2016 na queda em desgraça do príncipe consorte, transformado em bode expiatório de uma situação que pode ser tudo menos confortável. E com tendência para o agravamento.
Entretanto, continua a ignorar-se o que terá levado a CDU/PCP/PEV a só agora impôr a saída de Ferreira, como condição para continuar a servir de bengala ao PS local. Mas com o tempo tudo se vem a saber...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Não é com vinagre que se apanham moscas...

A opinião dominante na zona urbana parece ser que a recente balbúrdia autárquica está sanada, pelo que o actual executivo vai agora poder navegar em águas mais serenas até ao final do mandato. Peço licença para discordar. Ainda que mascarados das mais diversas formas, os lamentáveis episódios ocorridos na autarquia nestes últimos tempos têm todos afinal a mesma origem. Há cada vez menos dinheiro a entrar nos cofres municipais e as despesas certas e permanentes tendem a aumentar. Logo, como bem diz o povo, casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
A origem da penúria nabantina é bem conhecida dos especialistas. Fechadas por falência as grandes indústrias, reduzidas drasticamente as tropas aqui estacionadas, seguiu-se o encerramento de muitos pequenos estabelecimentos, o subsequente desemprego e a inevitável migração interna ou mesmo a emigração. Habituada ao maná do governo central, a autarquia nunca primou pelo protagonismo positivo no que se refere a atrair investidores. Pelo contrário. Bem antes da crise já a situação era clara e trágica para os tomarenses. Havia muita construção civil no Entroncamento, em Ourém e em Torres Novas, mas em Tomar era o marasmo total. Consequência da atitude canhestra e até inquisitorial dos respectivos serviços camarários, bem ajudados, é verdade, por um PDM bom para o cesto dos papéis.
A recente salganhada partidária veio agravar a já antes adversa situação. O vereador Serrano, arquitecto de profissão e com experiência autárquica, foi sacrificado, vá-se lá saber em que altar. O certo é que, após ter conseguido algumas vitórias contra a triste mentalidade dominante nos serviços ligados ao urbanismo e obras particulares, acabou punido. Primeiro perdeu tudo, menos o lugar para que foi eleito, porque a presidente não tem competência para lho retirar. Depois recuperou quase tudo, sem que se saiba ainda porquê e para quê.
Quase tudo, mas não a dignidade pessoal e profissional, gravemente humilhadas perante a opinião pública tomarense. Tanto mais que deixou de ser vice-presidente, sem que se perceba porquê. E deixou também, o que é particularmente relevante, o pelouro do licenciamento de obras particulares, o qual passou para a presidente.
Uma vez que não consta que Anabela Freitas tenha alguma capacidade técnica especial para examinar projectos de obras, a decisão que tomou configura obviamente duas coisas, pelo menos: 1 - Vitória dos burócratas-inquisidores dos serviços respectivos; 2 - Evidente desconfiança na competência técnica e na honestidade profissional do ex-vice-presidente Rui Serrano.
Perante tudo isto, os potenciais investidores, já antes vítimas da prepotência de alguns técnicos superiores que se julgam o supra-sumo da arte e por isso agem como se fossem donos da autarquia, continuam a evitar Tomar até que melhores tempos venham. O desemprego vai portanto acentuar-se e a população vai continuar a encolher, porque não pode haver desenvolvimento económico sem iniciativa privada e menos população é igual a menos impostos, logo menos receitas para a autarquia.
Conclusão: Após o recente chinfrim municipal as coisas ficaram ainda piores do que já estavam. Não é com vinagre que se apanham moscas. Embora os senhores autarcas PS/CDU pareçam convencidos do contrário.

domingo, 31 de janeiro de 2016

PRESIDENCIAIS 2016 - Uma leitura pessoal

Não votei na recente eleição presidencial. Estava fora do país. Deliberadamente? Claro que não. Saí contudo sem problemas de consciência. Tinha a clara noção de que, para Marcelo, não era sequer uma eleição. Apenas uma aclamação. 
Amigos meus podem confirmar que até previ a vitória do célebre comentador logo na primeira volta. O que não era difícil e veio a acontecer. Arrisquei mesmo acrescentar que venceria com mais de 60% dos votos expressos. Enganei-me em menos de 7%. E só em 8 das 11 freguesias que integram o concelho de Tomar. Nas outras três -Casais/Alviobeira, Olalhas e Serra/Junceira- praticamente aceitei. Até pequei por defeito no caso das Olalhas e da Junceira, onde Marcelo ultrapassou os 70% dos votos entrados nas urnas.
A partir dos resultados oficiais, montei este conjunto de resultados:

Freguesias                              Marcelo       Marisa Matias         Edgar Silva          SN + MB

Madalena/Beselga                  43,89%             16,11%                   3,67%                30.25%
Asseiceira                              44,87%             15,01%                   1,56%                31,26%
Paialvo                                   45,93%             10,70%                   5,03%                33,30%
Sabacheira                              50,52%             10,19%                   1,46%                33,47%
Além da Ribeira/Pedreira          50,76%             11,97%                   3,48%                28,03%
Carregueiros                           52,91%              12,21%                   2,91%                26,94%
S. João/Santa Maria                54,22%              11,21%                   2,05%                26,79%
S. Pedro                                 56,55%              10,50%                   2,28%                24,98%
Casais/Alviobeira                    59,46%              11,30%                    1,06%                23,51%
Olalhas                                   71,01%               7,54%                     0,89%                14,35%
Serra/Junceira                        72,04%                6,81%                     0,80%               14,73%

Daqui me parece resultar que: 1 - Marcelo só não venceu à primeira volta em três freguesias -Asseiceira, Madalena/Beselga e Paialvo. Exactamente aquelas em que predominam os pensionistas e os funcionários públicos ou de empresas públicas. 2 - A soma dos votos dos dois candidatos implicitamente apoiados pelo PS só ultrapassa os 30% em 4 freguesias: as três antes mencionadas mais a Sabacheira. 3 - Marisa Matias conseguiu um resultado extraordinário em todas as freguesias. Mesmo naquelas tradicionalmente mais à direita, como a Serra/Junceira e as Olalhas. 4 - O PCP sofreu uma autêntica derrocada, com 5,03% como melhor resultado, numa freguesia há longos anos governada pela CDU, o nome artístico do dito partido.
À luz destes resultados, tornam-se nítidas, pelo menos para mim, algumas bizarrias nabantinas. Desde logo a importância eleitoral do Bloco de Esquerda, que todavia não tem qualquer representante no executivo camarário. Ao contrário do que acontece com a CDU/PCP, que até governa, apesar do seu evidente descalabro eleitoral e não só. Segue-se a lenta mas continuada erosão eleitoral do PS, que só venceu, acedeu ao poder e continua a fingir que governa por manifesta inoperância do PSD e de Pedro Marques. Finalmente, julgo que os social-democratas tomarenses só não ganham as próximas autárquicas se não souberem nem quiserem aprender a conseguir traduzir em votos entrados nas urnas a evidente grande maioria de que dispõem no concelho. E sem a tal eleição primária vão deixar fugir o poder outra vez. 

sábado, 30 de janeiro de 2016

Para quem gosta de jornalismo de qualidade

"A troika está de volta a Portugal

O país saiu do plano de ajuda internacional em Maio de 2014, mas esta visita dos "homens de negro" constitui um teste para o novo primeiro-ministro, o socialista António Costa

Os "homens de negro" estão de volta ao país de Fernando Pessoa. Na passada quarta-feira, 27 de Janeiro, os representantes da troika iniciaram uma visita técnica de uma semana a Lisboa. Missão principal: vigiar o estado de saúde económica de Portugal -sobretudo o seu rigor orçamental, cerca de dois anos após a saída do país do plano internacional de ajuda, iniciado em 2011. Contra um empréstimo de 78 mil milhões de euros, o governo português comprometeu-se então a implementar uma série de reformas drásticas, destinadas a corrigir as finanças públicas e a sair da recessão.
Desde então, Portugal conseguiu regressar com êxito aos mercados financeiros e ao crescimento económico. Mas esta terceira visita "pósprograma" surge mesmo assim como um grande teste para o primeiro-ministro socialista António Costa, que começou a governar em Novembro de 2015.
"O seu antecessor de centro-direita, Pedro Passos Coelho, que dirigiu o país entre 2011 e 2015, era o bom aluno da troika, lembra António Costa Pinto, politólogo na Universidade de Lisboa. Aplicava as reformas exigidas sem discutir, pois estava convencido da necessidade de liberalizar o país."
Já António Costa conseguiu o segundo melhor resultado eleitoral prometendo acabar com as sequelas da austeridade. A sua coligação sustenta-se graças ao apoio (todavia sem participação no governo) do Bloco de Esquerda e dos comunistas, que reclamam medidas sociais. Mas o primeiro-ministro prometeu também controlar as finanças públicas, em conformidade com as exigências de Bruxelas..."O que quer dizer que, para satisfazer os dois campos, será obrigado a fazer um delicado exercício de equiibrista", analisa António Barroso, especialista de Portugal na empresa financeira Teneo Intelligence.
Para o chefe do governo, que foi presidente da Câmara de Lisboa, cidade onde continua a ser muito popular, o desafio é claro: tem de convencer os seus parceiros europeus da necessidade de voltar a dar um pouco de oxigénio à economia portuguesa, favorecendo o consumo. A troika, por sua vez, dá a entender por meias palavras que receia ver Portugal regressar às "maleitas de antes da crise", segundo foi possível apurar junto de fonte próxima dos credores.
Na realidade, a Comissão Europeia mostra-se inquieta ao ver o governo português encarar a possibilidade de reverter várias medidas implementadas nestes últimos cinco anos, tais como alguns cortes nos vencimentos dos funcionários e nas pensões de aposentação. Outro tanto acontece com o aumento do salário mínimo (de 505 a 530 euros, em 14 meses), que entrou em vigor no dia 1 de Janeiro de 2016 e fez ranger os dentes em Bruxelas.
Tal como o FMI, os funcionários europeus pensam que Portugal deve continuar com as reformas estruturais. Por exemplo com a redução da burocracia que pesa sobre os empresários, ou abrindo ainda mais o mercado do trabalho, implementando uma fiscalidade que favoreça o investimento em vez da dívida...
A Comissão de Bruxelas aproveitará igualmente a sua presença em Lisboa para examinar detalhadamente o orçamento para 2016, no quadro do "semestre europeu", prática corrente em todos os paises membros da UE, a qual visa evitar que algum deles deixe aumentar o défice. "É um teste importante para a credibilidade de António Costa", adianta uma fonte europeia.
Conseguirá o primeiro-ministro honrar os seus compromissos? Como é que vai financiar as novas despesas já previstas? Poderá renunciar a algumas delas, sem desencadear os protestos da esquerda radical? As discussões prevêem-se muito agitadas.
Teoricamente, Portugal regressou à normalidade orçamental em 2015, reduzindo o défice para 3% do PIB, de acordo com as primeiras estimativas. Mas essa taxa sobe para 4,2% quando se acrescentam os recursos públicos usados no caso do banco BANIF, em Dezembro de 2015. Apesar disso, o governo comprometeu-se a reduzir o défice para 2,6% em 2016, contando com um crescimento económico de 2,3% do PIB. Uma previsão considerada demasiado optimista pela Comissão Europeia, que prevê um crescimento de apenas 1,7% do PIB. "A redução da austeridade deverá contudo favorecer o crescimento económico, o emprego e, por conseguinte, as receitas fiscais", matiza Jesus Castillo da financeira Natixis.
Outro ponto de tensão: a dívida pública, a qual atingiu 130,5% do PIB no terceiro trimestre de 2015. O governo de António Costa conta poder reduzi-la para menos de 126% do PIB, no fim deste ano. Trata-se de um objectivo credível, pensam os economistas. "Mas Portugal continua muito frágil em termos de dívida pública. Qualquer aumento das taxas de juro será fatal para as finanças públicas", considera com inquietação António Barroso, entre outros.

Marie Charrel - Le Monde Economie et Entreprise, 28/01/2016,  página 4,
Tradução e adaptação de António Rebelo

Argumentação de sanita

Na política, como na vida em geral, é sempre conveniente procurar manter um certo nível. O das boas maneiras, no mínimo. Na recente entrevista ao Cidade de Tomar, a nossa simpática presidente parece ter tido um momento de menor atenção. Falando do mandato anterior, declarou que "...nos deixaram muita coisa por fazer. Designadamente estradas para alcatroar, casas de banho que deviam estar abertas ao público, como aquelas que existem atrás da câmara, que nós abrimos."
Ó senhora presidente! Tenha paciência. Argumentação rasteira e negra como a do alcatrão, ainda vá que não vá. De sanita é que não. Porque se trata mesmo de um assunto de merda.
Com cenas destas, bem se pode dizer que a política nabantina está cada vez mais como o crocodilo daquela conhecida história de origem russa -voa mas é assim muito baixinho. Ao nível do alcatrão e das sanitas turcas, que como se sabe são encovadas no pavimento respectivo... Triste sina a nabantina!