quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Naufrágio de uma comissão regional de turismo

Ponto prévio

Peço licença para relembrar aos leitores o principal motivo porque escrevo -para tentar despejar e assim limpar parcialmente  a cabeça. Na triste série de episódios  que vem a seguir, decidi omitir os nomes dos actores. Uns já estão sepultados, outros procuraram terras mais acolhedoras, outros ainda continuam a sua labuta, espero que com mais qualidade e melhores resultados. De qualquer maneira, seria inútil citá-los nominalmente, sabido como é que nesta terra e neste país nunca ninguém erra e portanto também ninguém se arrepende. Somos assim, que se há-de fazer?

No início da década de oitenta, era eu deputado municipal na bancada do PS, veio o então vereador com o pelouro do turismo, que era também bancário e delegado sindical, pedir-me ajuda. Disse-me, visivelmente temeroso, que ia haver uma reunião em Santarém de todos os autarcas do distrito com o pelouro do turismo, para discutir a criação de uma comissão regional de turismo. Acrescentou que não se achava minimamente preparado e por isso me pedia a minha ajuda técnica.
Após ter trocado ideias sobre a matéria com o então responsável local da actual CDU, que me garantiu a neutralidade dos autarcas daquela formação política, resolvi aceitar. Dias mais tarde, lá fomos os dois, o referido vereador e eu, no velho Mercedes da autarquia. Levava comigo alguma documentação técnica, que entretanto reunira e relera, habituado que estava e estou a fazer sempre em tempo útil o trabalho de casa.
Feitas as apresentações, começou a reunião no salão nobre da Câmara de Santarém, com os autarcas do PS sem perceberem muito bem qual era ali o meu papel. Explicações dadas e aceites, o vereador que me convidara alegou que tinha aulas na Faculdade de Direito, em Lisboa, despediu-se e deixou-me sozinho.
Durante cerca de três horas fiz o possível para demonstrar aos intervenientes que das autarquias presentes a de Tomar era a única com recursos turísticos indiscutíveis e a comissão de turismo mais antiga da região centro, de 1936 (foto 1)
.

Mostrei a seguir, de forma comparativa, aquilo que referiam os grandes guias de turismo sobre a região do Ribatejo. Terminei indicando a posição da nossa Câmara : Só integrar uma comissão regional de turismo com sede em Tomar e que não se chamasse do Ribatejo, com o qual nada temos a ver geograficamente.
Algum tempo depois, estava eu lendo o jornal no café Pepe, ali na Praça da República,  quando um ex-presidente e então vereador me  disse que estavam um pouco atrapalhados para encontrar um nome para a nova comissão regional de turismo que ia ser criada, e indagou se eu tinha alguma ideia. Escrevi-lhe num guardanapo de papel três hipóteses: A - Comissão Regional de Turismo dos Templários; B -Comissão Regional de Turismo da Floresta Central; C - Comissão Regional de Turismo das Albufeiras. Acrescentei que a primeira é mais histórica, a segunda mais ecológica e a terceira mais desportiva.
Li depois que os nossos ilustres e brilhantes autarcas tinham resolvido adoptar as três designações em bloco. Ficou assim a nova entidade com um nome bem pomposo e pretensioso, que manteve até ser extinta por manifesta inutilidade: Comissão Regional de Turismo dos Templários, Floresta Central e Albufeiras. Rir ainda é o melhor remédio e foi o que fiz na altura. Agora já tenho mais vontade de chorar. Deve ser da idade...
Seguiu-se o que já é do domínio púbico, pelo menos parcialmente. Instalada no edifício do turismo municipal (foto 2), o mesmo onde antes funcionara a Comissão de Iniciativa e Turismo mais antiga da região centro,

a novel entidade de turismo era presidida pelo vereador da cultura da Câmara de Tomar, da AD, e tinha dois funcionários municipais destacados.
Vieram então os anos de vacas gordas, durante os quais os sucessivos presidentes governaram a vidinha com pouco esforço, sendo que todos tinham um ponto em comum: nenhum sabia muito bem o que fazer com os poderes e as verbas disponíveis.
A fartura era tanta que o primeiro presidente, o já mencionado vereador da AD, resolveu arranjar uma sede para alojar dignamente o órgão regional a que presidia. Comprou a ex-sede da agência local do Banco de Portugal, ao fundo da Corredoura (foto 3) por 49 mil contos = 245 mil euros, pagos em função da respectiva importância populacional pelas 9 autarquias que integravam a citada comissão.


Após anos e anos sem obra que se visse, resolveu o governo acabar com o regabofe das verdadeiras vacas leiteiras que eram as comissões regionais de turismo. Só aqui na região havia três, uma em Leiria, outra em Tomar, outra em Santarém, sendo certo que Leiria e Santarém não são propriamente grandes cidades turísticas...
Reduzidas pelo governo a cinco, uma em cada região plano (Norte, Centro, Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve), a usual mania tomarense das grandezas levou a integrar a nossa região de turismo no Turismo de Lisboa e Vale do Tejo, que herdou todos os bens das extintas comissões, entre os quais a sede tomarense ao fundo da Corredoura, paga pelas câmaras da zona, com destaque para a de Tomar.
Só mais tarde as sumidades que fingem que nos governam se deram conta de um pequeno detalhe importante. Por ser a zona mais desenvolvida do país, em termos de PIB per capita, a região de Lisboa e Vale do Tejo só tem direito a 50% de participação comunitária nas várias empreitadas, enquanto que a zona Centro recebe 75 ou 80% consoante a natureza do empreendimento. Foi quanto bastou para Tomar integrar o Turismo do Centro, com sede em Aveiro, enquanto que Santarém optou pelo Turismo do Alentejo, sediado em Évora. Mas o património, esse ficou no Turismo de Lisboa, que agora o quer vender ou arrendar (foto 4).


 E a nossa Câmara cala-se muito bem calada, porque não quer meter-se em alhadas.
Mais comentários para quê?

anfrarebelo@gmail.com

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Uma proposta honesta

Uma proposta honesta, para resolver um problema cada vez mais grave. Refiro-me ao desenvolvimento do turismo em Tomar. Como é sabido, praticamente todos os turistas estrangeiros e a esmagadora maioria dos visitantes nacionais vêm a Tomar apenas para visitar o Convento de Cristo. Que é de muito longe o nosso melhor cartaz, seguido pela Festa dos Tabuleiros, infelizmente só a cada quatro anos, o que lhe retira muita visibilidade no painel nacional e internacional de destinos.
Procurando não ofender ninguém, é-se mesmo assim obrigado a constatar que a autarquia é uma entidade inerte na área do turismo. Se exceptuarmos as desastradas obras paivinas, mal planeadas, mal projectadas, mal executadas e depois mal utilizadas, que já fez a autarquia em prol do turismo local, a actividade económica que mais cresce no Mundo? A resposta é NADA. Até o primitivo parque de estacionamento da Cerrada dos Cães foi obra da extinta JAE - Junta Autónoma de Estradas. E abstenho-me de falar do tristérrimo caso da ex-Comissão regional de turismo dos templários, que fica a aguardar melhor ocasião...
Além do já vindo a público, nomeadamente o problema dos autocarros de turismo que estão erradamente proibidos de descer a Estrada do Convento, bem com os dois acidentes, felizmente sem gravidade, que essa estúpida medida já ocasionou, há todo um rol de inconveniências que a fraca informação local tem silenciado, por falta de meios e não só. Também para não incomodar, que a autarquia é um bom cliente...
Das inconveniências antes referidas, destaca-se o mal estar dos motoristas de turismo, que detestam passar por Tomar, devido aos muitos problemas que isso acarreta sempre; a falta de estacionamento para autocarros junto ao Convento (há apenas 7 lugares, se bem arrumadinhos...), a falta de estacionamento para ligeiros durante a estação alta, os roubos nos parques existentes, a invasão de terrenos privados para estacionamento, as altercações provocadas por veiculos mal estacionados...
No meu entender, apoiado na minha experiência como ex-profissional de turismo, e num razoável conhecimento do Mundo, a melhor solução para resolver os problemas mencionados e contribuir para melhorar a imagem de Tomar no mercado turístico não é muito cara nem demasiado complexa. Eis as suas grandes linhas: 
A - Instalar dois parques de estacionamento pago na cidade, vocacionados para turistas, um na     Várzea Grande, outro no Vale Pereiro, (o vale entre a Anunciada e a Estrada de Leiria); 
B - Instalar um duplo tapete rolante, subterrâneo e tarifado, entre o terraço do ParqT e a Cerrada dos Cães; 
C - Proibir o trânsito automóvel ascendente na Estrada do Convento. (Excepto moradores, bombeiros, ambulâncias e outras excepções justificadas.)
Para que não julguem que é só conversa, estou pronto a assumir as minhas responsabilidades. Obtido o acordo prévio do Município, criarei uma empresa que implementará e explorará as novas estruturas, sem recurso ao orçamento municipal, entregando à autarquia uma percentagem dos lucros obtidos, a determinar em tempo oportuno.
Fico aguardando a reacção dos senhores eleitos, que sei nesta altura muito ocupados com a sua própria sobrevivência política. Ainda mais problemática após a crítica certeira do ex-vereador Becerra Vitorino. Que colaborou na farsa e depois tardou a demarcar-se, mas lá acabou por perceber... (Ver tomarnarede.blogspot.com)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Mais um caso escandaloso


Esta notícia do autocarro com turistas que se atolou na Venda da Gaita é mesmo uma grande gaita.
Primeiro porque passou praticamente despercebida. Só Tomarnarede a publicou. A demonstrar mais uma vez a fraca eficácia da informação local. Depois, porque uma matéria que causaria escândalo em qualquer cidade ainda viva, aqui em Tomar só teve até agora o silêncio e a inacção como resposta. E no entanto, atente-se na enormidade da coisa.
Um motorista de turismo, mais cioso do seu profissionalismo, resolve trazer os seus clientes à cidade, depois de terem visitado o Convento de Cristo. Como mandam a regras da profissão, pois turista vem para visitar, não para passar de autocarro. Dado que não podia descer pela Estrada do Convento e não conhecia a cidade, tentou resolver da melhor maneira. Caiu numa bifurcação sem as mínimas condições operacionais ou de segurança, pondo os turistas transportados em alvoroço. Foi vítima da armadilha engendrada pelos senhores técnicos superiores da autarquia. Péssima imagem da cidade, péssima imagem da autarquia. E já é o segundo acidente do género em pouco tempo naquele local, desde a infeliz ideia de interditar aos autocarros de turismo a descida da Avenida Vieira Guimarães, vulgo Estrada do Convento.
Os senhores autarcas que temos estão à espera de quê para tomar providências? Não me parece que seja assim tão complicado inverter a presente situação. Basta proibir que os autocarros subam, mas autorizar que possam descer pela citada artéria citadina. E providenciar a necessária sinalização. Ao cimo da Rua da Graça, na Estrada de Paialvo, no ramal para o Convento e na Venda da Gaita. E também não lhes ficaria nada mal ordenar quanto antes a requalificação do local do acidente, que bem precisa, assim como mandar colocar sinalização adequada pela cidade, a indicar um parque de estacionamento para autocarros. Que poderia muito bem ser no local da antiga messe de oficiais...
Acessoriamente, conviria que, de uma vez por todas, fosse apurado o que querem realmente os tomarenses. Um armazém de funcionários mais ou menos úteis e mais ou mais ou menos competentes? Ou uma autarquia ao serviço da comunidade que a sustenta com os seus impostos? Autarcas politicamente capazes, com projectos e com capacidade de liderança efectiva? Ou pessoas simpáticas que apenas procuram melhorar os seus fins de mês? 
Como estamos não vamos longe.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Câmara CDUPS ?

Ainda continuam revoltas as águas políticas nabantinas. É salutar. O passado já demonstrou que em clima de marasmo andamos para trás. Ao que Tomar a dianteira conseguiu apurar, naturalmente sujeito a confirmação, poderemos vir a ter a curto prazo um executivo CDUPS. Assim mesmo, sem barra (/) nem hifen (-). Eis a explicação possível nesta altura da refrega.
Atacado por tudo e por todos, Luís Ferreira ainda não terá dito a sua última palavra. Parece contudo mais conformado, mais consensual. Também porque a sua saúde física não é infelizmente das melhores. O que sinceramente aqui se lamenta. Porque nunca convém confundir diferendos políticos com zangas pessoais. Os eleitos e funcionários locais farão o favor de tomar boa nota deste detalhe.
Se tudo correr como previsto por fontes muito credíveis, contactadas por este blogue, Ferreira vai mesmo afastar-se de Tomar, deixando vago o tal lugar de técnico de informática, que tanta polémica causou. Nesta altura há duas hipóteses em cima da mesa: Ou vai finalmente ocupar o seu lugar de técnico de informática na Câmara de Alpiarça, ou vai para assessor do grupo parlamentar do PS, na A.R.
Em qualquer dos casos, não é líquido que deixe de intervir nos assuntos tomarenses. Embora devido ao seu afastamento forçado deixe de ter acesso directo e imediato a todos os processos municipais, continuará ainda assim a dispôr com total liberdade do conteúdo do computador da presidente e sua companheira. E da sua tribuna como deputado municipal. O que no meu fraco entendimento pode bem significar que, no essencial, tudo vai continuar na mesma. Veremos...
Conseguido o afastamento físico do ex-chefe de gabinete, vai seguir-se o retorno de Rui Serrano ao lugar de vice-presidente, naturalmente condicionado pela indispensável condescendência de Hugo Cristóvão. Tomar a dianteira pode garantir contudo que as coisas parecem estar bem encaminhadas, lideradas pelo vereador da CDU.
Sem a sombra tutelar do motor local do PS e com as coisas nos seus devidos lugares, anteriores à mini-tragicomédia, chegará então o tempo das reuniões de coordenação PS/CDU, que Bruno Graça almeja praticamente desde sempre: "Em Novembro de 2013, a CDU apresentou à Senhora Presidente uma proposta para ser criada uma equipa de trabalho que elaborasse um estudo sobre a situação financeira do Município e perspectivasse a sua reestruturação/saneamento... ... ... As reuniões dos vereadores com a Sra. Presidente da Câmara, para coordenação e articulação da acção política continuam a não ocorrer. Há mais de três meses que não se realiza nenhuma reunião entre os quatro eleitos." (Recente comunicado da CDU, sem data).  
Sendo as coisas aquilo que são, não seria correcto esconder o óbvio. As futuras reuniões periódicas de coordenação entre a presidente e os TRÊS vereadores serão, em termos práticos e usando linguagem desportiva, como um jogo entre o Benfica, que também é vermelho mas joga na primeira divisão, e o União de Tomar, agora na segunda distrital.
Mas se for para o progresso de Tomar, porque não? Para pior já basta assim!

anfrarebelo@gmail.com

sábado, 9 de janeiro de 2016

Isto quanto mais muda...

Isto quanto mais muda, mais está na mesma. Reproduzo a mensagem de um leitor, recebida ontem: "Vejo que a situação política em Tomar está "animada". Faz-me recordar os últimos tempos do executivo camarário anterior. Continua a intrigar-me como é que Tomar, com tanto potencial, continua estagnada desde há anos. Será correcta a analogia com aquele tipo de famílias aristocráticas decadentes, que gerações atrás detinham poder, riqueza, prestígio, mas agora vivem só dos louros do passado?"
Muito pertinente este seu curto bilhete, caro leitor. Que denota sem querer aquilo que me parece óbvio: foi escrito por um cidadão que não é tomarense nem vive em Tomar. Se assim não fora, se calhar andaria cego, como quase todos os de cá.
Disse-o Lavoisier, mas afinal sucede o mesmo na política como na química: "As mesmas causas, nas mesmas condições exteriores, produzem sempre os mesmos efeitos." Não deve por isso surpreender ninguém a similitude entre a triste situação deste executivo e a tragédia que foi o anterior. Também agora estão, ou simulam estar, equivocados. Antes, a culpa fora do Paiva e do Corvêlo, agora o bode expiatório é Luís Ferreira. Que tudo tem feito, é bem verdade, para ser assim crucificado, com a sua excepcional inteligência prática desbaratada em bazófias, arrogância, cabotinismo, manipulações várias...Uma pena. Mas daqui não resulta que o ex-chefe de gabinete tenha sido o único ou sequer o principal factor da grave crise nabantina.
Dizia-me há dias um dos intervenientes activos no presente imbróglio: "Todos os problemas internos e externos da câmara têm origem no Luís." Esta perfeita ilustração do aqui já antes referido complexo de Édipo é extremamente grave, pois esconde o essencial. Luís Ferreira causou imensos problemas mas o fulcral, que afinal condiciona tudo o resto, continua sem ser mencionado ou tido em conta: O município de Tomar arrecada cada vez menos receitas, mas gasta cada vez mais com encargos permanentes. Exactamente como acontece com o governo de Lisboa...e o de Atenas. Por conseguinte, não nos iludamos. Algo terá de mudar mesmo. E quanto mais tarde pior.
Sucede que no actual executivo camarário me parece haver um único eleito que, tal como a seu tempo o Botas de Santa Comba, sabe o que quer e para onde vai. O Botas era de extrema-direita; o dito autarca é do extremo oposto. Mas na política os extremos tocam-se, tal como na física nuclear os átomos iguais se repelem e os contrários se atraem. Isto para dizer que, no meu fraco entendimento, o projecto implícito do dito vereador não tem qualquer viabilidade nos tempos mais próximos. Estamos portanto condenados à permanência na estaca zero, caso insistam em não provocar eleições intercalares.
Sobre a sua alusão às velhas famílias aristocráticas decadentes, caro leitor, julgo útil referir que, no caso de Tomar, há um enorme equívoco quanto à nossa herança sociológica. Apregoamos os Descobrimentos como a grande epopeia do país, quando afinal se tratou apenas e só de um empreendimento levado a cabo primeiro pelo Infante D. Henrique, com os dinheiros da Ordem de Cristo;  depois pela própria Ordem, até ao final do reinado de D. Manuel. mestre da Ordem antes de ser rei. Quando a coroa, na pessoa de D. João III, tomou conta da Ordem e dos descobrimentos, sucedeu o mesmo que tem acontecido com as nacionalizações .Foi o descalabro e a multi-secular agonia, que nos trouxe até onde hoje estamos: Pobres, tristes, sem ideias, sem esperança, porém arrogantes e com afigurações. Tanto em Tomar como no país...
A mudança afinal é para quando?!?!

Contacto: anfrarebelo@gmail.com

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

E agora???

E agora??? perguntam em tom angustiado aqueles tomarenses interessados nas coisas da sua terra. Que também não são assim tantos. Os da esmagadora maioria estão como sempre foram: amorfos, imobilistas, medularmente conservadores e seguidistas. Agora, para tentar perceber o que aí vem na área política nabantina, parece-me indispensável proceder como na medicina -efectuar um diagnóstico tão completo quanto possível e só depois prescrever uma terapêutica.
Uma vez que no fim de contas isto anda tudo ligado, começo por ter em conta que também desta vez a informação local escrita (que a outra nem a oiço) esteve ao seu nível habitual. Só o Mirante é que apresenta uma cobertura escorreita e suficiente da crise em curso. Mas o Mirante não é um semanário tomarense...
Indo à crise. Sejamos argutos: Esta crise tem afinal duas componentes que convém separar. Há por um lado a luta política de Bruno Graça, visando afastar Luís Ferreira, por já ter percebido há muito que é ele a cabeça e o motor da actual maioria relativa. E o único travão eficaz no que se refere às legítimas ambições da CDU a nível local. Por outro lado, em simultâneo, vai-se desenrolando um drama edipiano, que a CDU tem sabido aproveitar. Os filhos políticos de Luís Ferreira, que são afinal todos os membros do executivo, excepto a CDU e o PSD, apaixonaram-se pela mãe, não em termos físicos, mas apenas enquanto símbolo do poder, e tentam por isso "matar" o pai. Não por mero sadismo. Como condição indispensável para se verem finalmente livres de um tutor demasiado exigente e excessivamente prepotente, porque ultra-inteligente e com enorme traquejo político, mas infelizmente também cabotino até à medula. O que retira protagonismo aos tutelados...
Para já, graças à tenacidade obstinada do vereador Bruno Graça, ambos os sectores conseguiram uma vitória importante, porém parcelar e transitória. Atingiram o companheiro e tutor da presidente na carteira, sem contudo lhe retirar a sua capacidade principal -governar por interposta pessoa. Gravemente ferido onde menos lhe convinha, o ex-chefe de gabinete dispõe contudo de recursos intelectuais como nenhum outro (excepto talvez Bruno Graça) para tentar "dar a volta por cima". Não me surpreenderia por aí além se fosse o próprio PS a provocar eleições intercalares, aproveitando a evidente anemia das restantes forças locais, bem como a manifesta incapacidade da CDU para ir além de um vereador.
A não ser assim, vamos continuar neste lamaçal até final do mandato. Com todos os intervenientes agarrados à gamela, uns por isto, outros por aquilo, outros ainda por isto e mais aquilo.
Haveria ainda, é verdade,  a hipótese de fortes protestos da população, susceptíveis de forçar uma mudança a curto prazo. Mas isso aqui em Tomar é como esperar calor tórrido num dos polos...

Contacto: anfrarebelo@gmail.com

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Um mártir para conseguir mais votos ?

Em plena crise política tomarense, José Gaio, o mais arguto jornalista tomarense, apesar de emigrado na Suiça, faz no seu Tomarnarede algumas perguntas muito pertinentes. Destaco esta: "Qual o papel de Bruno Graça (CDU) no meio de toda esta disputa política?" Embora discordando da expressão "disputa política", por considerar que se trata antes de mera disputa familiar entre os filhos políticos de Luís Ferreira e o seu pai ditador e abusador, reconheço ser ainda assim uma interrogação fundamental. Porque a câmara tem sobrevivido e continua em funções exclusivamente graças à evidente abnegação de Bruno Graça. Que não é nenhum ingénuo e muito menos um analfabeto político. Por conseguinte...
Procurando responder à justa interrogação de José Gaio, fui reler o longo comunicado da CDU e dele respigo o seguinte:
1- Em Novembro de 2013, a CDU apresentou uma proposta sobre a situação financeira do município e manifestou-se contra a nomeação de Luís Ferreira como chefe de gabinete. "Nem a proposta nem a opinião foram tidas em conta" informa agora a dita coligação.
2 - "Em Dezembro de 2014, as contradições entre os vereadores do PS e o chefe de gabinete agudizaram-se... ... Face à situação, a senhora presidente assumiu o afastamento do seu chefe de gabinete como uma decisão indispensável ao bom funcionamento e imagem do executivo, primeiro até à Assembleia Municipal de Fevereiro de 2015, depois até à Assembleia Municipal de Abril, depois  até à Festa dos Tabuleiros, depois até à semana seguinte às eleições de 4 de Outubro e finalmente até 1 de Novembro de 2015."
3 - Em 2 de Outubro de 2015 a CDU entregou à presidente da câmara uma declaração da qual Tomar a dianteira destaca o seguinte: "A CDU considera que a decisão do sr. Luís Ferreira de concorrer ao procedimento de mobilidade interna na sua carreira, passando de funcionário do Município de Alpiarça para o de Tomar, é uma decisão do seu foro pessoal.
Contudo, a CDU de Tomar manifesta a sua total discordância em relação a este processo e dele se demarca, por considerar que ofende os mais elementares princípios da ética democrática e política."
4 - Supostamente em Novembro ou Dezembro de 2015, Bruno Graça é taxativo: 1. - "As reuniões...continuam a não ocorrer. Há mais de 3 meses que não se realiza nenhuma reunião entre os quatro eleitos"; 2. - "Nada foi avançado sobre o posicionamento do sr. Luís Ferreira na estrutura do município; 3. - A redistribuição de competências continua por realizar. ... ... ..."
Face a este rol de problemas da mais variada espécie, lógico seria que o vereador da CDU já tivesse renunciado aos pelouros que exerce e assim acabado com a coligação apenas nominal (tanto mais que nem precisa do inerente vencimento), precipitando a realização de eleições intercalares. Mantendo-se por assim dizer a meio da ponte, dá a ideia de estar a compor uma imagem de mártir, como forma de vir a conseguir mais votos em futura consulta eleitoral. Todavia, manda a verdade acrescentar que também deixa a porta escancarada à restante oposição: "A CDU tomará posições autónomas nas reuniões de Câmara e da Assembleia Municipal, face a propostas e posições apresentadas pelas diferentes forças políticas presentes nestes órgãos."
O PSD e o os IpT estão à espera de quê para convocar uma reunião conjunta visando um acordo tácito para deixar o  executivo sem quorum, forçando assim eleições intercalares? Não lhes convém?
Os IpT ainda nada disseram sobre o o actual momento, o que não pode deixar de surpreender. Quanto ao PSD, publicaram um comunicado mal amanhado, todavia com uma frase excelente sob todos os pontos de vista: "Temos uma câmara espartilhada, limitada, desorganizada, sem rumo e sem projectos para o concelho de Tomar." Eu não diria melhor. E então? Avançam ou saem de cima?

Contacto: anfrarebelo@gmail.com